4. Os saberes locais
4.1 Saberes de cura
4.1.1 Sobre as causas das doenças
Há todo um conjunto de saberes que dizem respeito ao modo de vida que as pessoas tinham no passado, quando viviam no meio rural, mas que mantém vivos na memória. Geralmente o passado é relatado como um tempo de muitas dificuldades, pela falta de recursos, mas em que as pessoas eram fortes, em razão, principalmente, do tipo de alimentos que ingeriam e pelo fato de tomarem remédios naturais. Esse passado é contrastado com um presente em que existem muitas facilidades, mas em que as doenças predominam:
Dona Carlota: Tive 10 filhos sem nunca ir ao médico. No meu tempo não tinha essa coisa de tomar remédio quando está grávida, nem fazer exames, tia Eva. E as crianças nasciam tudo bem sadias. Agora a senhora vê, as mães estão sempre no médico e as crianças nascem doentes. Não vê o meu neto? Ele nasceu doente, ficou um tempo no hospital em Pelotas e parecia que nem se criava122.
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Entrevista realizada em 10 de abril de 2019, com Carlota Domingues da Silveira. Acervo individual da pesquisadora.
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Há concepções gerais de que, além do modo de vida, as doenças acontecem também por desequilíbrios nas relações sociais ou nas relações com o que a gente poderia chamar de forças cosmológicas. A doença é entendida, segundo Montero (1985, p. 170), nas religiosidades populares, como uma desordem cósmica que pode ser percebida e suprimida, pois nada mais é do que a objetivação, no corpo individual dessa desordem transcendente. Dona Carlota aponta para isso quando fala sobre o quebrante, que deriva do não atendimento da necessidade da criança manter uma boa relação com a lua:
Dona Carlota: Quebranto é uma coisa que deixa a criança chorona e com dificuldade para dormir, fica desinquieta. Só dá em criança, principalmente se ela é bonitinha e esperta. Aí o quebranto pega ligeiro. Então precisa benzer para passar esse mal da criança. Mau olhado é outra coisa que deixa as pessoas ou até os animais tristes, arrepiados. Ai tem que benzer com brasa, um copo com água e tesoura. Quebranto também se benze assim. Meu pai mostrava a criança recém-nascida para a lua para não ficar tomada por ela e dormir bem, não chorar ou gemer durante a noite123.
Assim como para Dona Carlota, para Dona Santa o quebrante é gerado não por maldade, mas por se gostar demais de uma criança. Ao que parece, o que se preza é pelo equilíbrio nas relações intersubjetivas, sem exageros nas demonstrações de afetos para não gerar dependência emocional:
Santa: O quebrante, a criança fica muito impertinente, a mesma coisa que meu bisneto, ele é muito esperto, chama muito a atenção. E a gente fica, de tão faceiro que fica, com a criança esperta, que tá fazendo aquelas artimanhas todo, tu te encanta, tu bota aquele quebrante: ‘que coisinha mais bonitinha, né’. Aquilo é sem querer que a gente bota, o quebrante. Acha muito bonito. E eu mesmo tenho esse costume: ‘ah, porque meu neto, não sei o que, não sei o que...’. E tu sabe que isso pega um quebrante horrível na criança. Tá toda hora falando nele. Unicamente.
Rosane: E isso faz mal pra criança?
Santa: Faz, a criança fica impertinente. Nada tá bom, e às vezes, só quer o colo da mãe e fica naquele arrenego, tu dá um leite, não é o leite, tu dá um chá, não é o chá. Tu leva pra brincar, não é brincar, só quer ficar com a mãe. Manda pra benzer de quebrante que é quebrante124.
Alberto Quintana, a partir de um diálogo entre a psicanálise e antropologia, busca compreender os padrões de significados que sustentam a categoria largamente
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Entrevista realizada em 10 de abril de 2019, com Carlota Domingues da Silveira. Acervo individual da pesquisadora.
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Entrevista realizada em 26 de janeiro de 2019, com Santa Rosália Ulguim da Silva. Acervo do Projeto de Extensão Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.
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usada, no universo do benzimento, de mau olhado. O mau olhado é um estado subjetivo que pode ser lançado sobre alguém ou alguma coisa, podendo ser um indivíduo, um animal, uma planta ou objetos inanimados. É um termo usado para descrever o processo de ser afetado por vibrações transmitidas por outra pessoa, a qual pode afetar o outro com o mau olhado intencionalmente ou não. Alberto Quintana (1999, p. 133), fala que:
Existe algo que escapa ao controle da pessoa e sobre o qual se desejaria poder influenciar: o/a parceiro/a que se afastou, ou que nunca se aproximou, um serviço que não se consegue, os negócios que vão mal, uma maré de azar que se abateu sobre a pessoa ou a família. A explicação desses fatos, a linha que costura essas diferentes situações, aquilo que explica a coincidência é o mau-olhado, que teria sua causa, sua origem no ciúme e na inveja.
Quintana (1999, p. 133), explica que o mau olhado é esclarecido por situações como: a pessoa vai mal num negócio; o marido abandona a mulher; os negócios começam a piorar. Ou seja, é uma sequência de casos que estão dando errado com uma determinada pessoa, causando-lhe tristezas, medo, sentimento de abandono, doenças. Quem é afetado pelo mau olhado, sente-se carregado, o que “implica ter sido alvo do olho grande que instalou energias negativas no corpo” (1999, p. 134) da pessoa atingida. São essas incertezas que dão lugar ao imponderável que se localiza o lugar do mau olhado e o trabalho da benzedeira. No entanto, “intervir onde o mal já se instalou e, portanto, produziu uma consequência negativa, não é a única maneira pela qual a benzedeira pode agir”. (1999, p. 150):
Se o mau olhado pode ter controle sobre as coincidências, fazendo com que a pessoa obtenha um resultado negativo, a bênção não somente pode livrar a pessoa dessa carga que produz efeitos nocivos, como também outorgar- lhe força para que o imponderável se torne possível e assim, ela obtenha aquilo que deseja.
Segundo Quintana (1999, p.150 e 151), a detecção do mau olhado é sempre uma dedução a posteriori, que reenvia os efeitos estranhos ou catastróficos ao suposto comportamento de um ser que age em segredo. Nessa concepção de mundo não existiria então, o acaso, a coincidência. Tudo possui uma explicação. Assim, “mau olhado vem a ser a explicação dessas coincidências. O acaso, o inexplicável, e, portanto, incontrolável, deixam lugar para o mau-olhado, que, apesar de perigoso e temido, é passível de ser entendido e, portanto, modificado”. (1999, p. 151).
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O mau olhado representa, para Dona Santa, principalmente, uma relação social desarmoniosa, seja no trabalho, no meio familiar ou em qualquer outro contexto:
Rosane: E o mau-olhado que falam, Dona Santa?
Santa: Pois é, o mau-olhado que falam, tem uns que são os mau-olhado carregado, né. Por maldade. Ou por causa da tua profissão, ou por causa que tu conseguiu a tua vida melhor que a dos outros, né. Foi em frente. Diz “ah, como eu trabalho tanto e fulana trabalha bem pouquinho e conseguiu isso, conseguiu aquilo”.
[...]
Santa: Pois é, porque tu sabe que a gente não tem má-fé com ninguém, mas tem gente que tem má-fé com a gente, né. Pra gente tudo são bom, tudo amigos e, às vezes, não. Às vezes unicamente tão só pra te botar olho gordo. Como a gente diz, como os antigos diziam. Olho gordo. Não diziam olho grande, diziam olho gordo. E ai as pessoas ficam te admirando, ‘como tu pode fazer tudo isso, porque, às vezes, eu quero fazer e não consigo?’. E aquilo ali te acarreta, te aplasta. Aquilo ali vai tirando tua vontade de fazer o que tu fazia125.
Além de benzer, Dona Santa recomenda algumas plantas protetoras perto ou dentro da casa, como a arruda, encontrada em quase todos os pátios da vizinhança, pois segundo ela, a entidade que habita essa planta – o Caboclo da Arruda – absorve para si o mau olhado e descarrega na terra, evitando que ele atinja a pessoa.
Outra causalidade das doenças, segundo Dona Santa, é a presença de espíritos obsessores, que não necessariamente por maldade, estão acompanhando a pessoa que passa por perturbações, necessitando então uma intervenção sobre esse espírito, para que ele possa ganhar o seu rumo na pós-morte física:
Rosane: E essa é a oração que a senhora faz pra qualquer benzedura, daí? Santa: Pra qualquer benzedura. Se eu ver, assim ó, que tem um espírito da mesma carne, do mesmo sangue, que tá do lado da pessoa porque ainda não subiu, aí eu faço uma prece. Eu faço um pai-nosso, faço uma ave-maria, falo com o pai Pedro que é o dono do reino, né, e que tem a chave pra abrir o cadeado pra receber os espíritos pra botar no reino da gloria. Ajudo o espírito a subir.
Rosane: Então as perturbações é porque pode ter outro espírito por perto? Santa: Com certeza. Ou da mesma carne, ou por amizade. Aquele espírito tá nas trevas, ele não ganhou a oportunidade de Jesus chamar ele lá pra cima, então através da gente aqui do chão é que ajuda a subir eles. Conversando com os pais, com Francisco Lobo da Costa, que é da linha kardecista, que também é um mentor muito forçoso pra retirar os espíritos e encaminhar os espíritos. Porque assim, os espíritos, eles custam a ganhar a luz se não tiver ajuda. E se nós falar com pai Pedro, falar com Jesus, ai eles vão receber ele, se aqui na terra ele foi uma pessoa verdadeira, ele vai passar pela balança do pai Xangô. Se ele errou aqui em cima, ele tem mais um século pra passar sem subir. Tu entendeu? Se ele foi uma pessoa dedicada, se foi uma pessoa
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Entrevista realizada em 26 de janeiro de 2019, com Santa Rosália Ulguim da Silva. Acervo do Projeto de Extensão Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.
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que gostava de todo mundo, gostava de ajudar, ele entrega pro pai Pedro, pai Pedro abre o cadeado e bota ele lá na Aruanda de Luz. Ta entendendo?126
Percebe-se no depoimento acima que Dona Santa faz uso de um conjunto de referências bastante sincrético: refere Jesus Cristo, guias do kardecismo, mas os elementos estruturadores são da umbanda, porque quem define se o espírito vai ficar perambulando ou merece ir para a Aruanda de Luz, é a balança de Xangô. Sendo que não podemos esquecer que no Rio Grande do Sul, São Pedro sincretiza com o Bará, que na umbanda cruzada comanda o chamado “povo da rua” (exus e pombas-giras). A intervenção da benzedeira interfere em vários níveis de realidade: mobiliza objetos materiais (tesouras, brasas, água, imagens, etc.), tenta agir sobre o humano, mas para isso, precisa interferir (ou pedir a interferência de) em outros planos em que outros seres habitam. É uma outra maneira, então, de perceber a realidade.
Esta é uma ação mágico-religiosa segundo Montero (1985, p. 138) que não visa apenas atingir o indivíduo em sua maneira de ser ou de comportar-se, mas sim, contribuir para o controle de forças maléficas responsáveis pela desordem do mundo e da vida cotidiana. Em primeiro lugar está a ideia de que é preciso expulsar as forças desorganizadoras que habitam o indivíduo. Segundo a autora, os umbandistas entendem que as forças sobrenaturais que se manifestam de maneira desordenada e aleatória, sem obedecer as regras rituais, são perigosas e indesejadas e, portanto, devem ser expulsas. E esta expulsão deve se dar através dos rituais que simbolicamente representam a saída desses seres maléficos, por um lado e, rituais purificadores por outro.
Assim, o universo simbólico religioso constitui-se numa linguagem adequada para expressar, classificar e nomear toda uma gama de experiências psicológicas e afetivas dos grupos populares que normalmente só dispõem da categoria médica de doença para compreendê-las, organizá-las e suprimi-las (MONTERO, 1985, p. 151). Frente ao exposto entende-se que nesta forma de pensamento:
[...] não é a compreensão do processo físico que se desenvolve num estado mórbido, nem sua causação puramente biológica. A doença se torna um elemento significante somente quando associada à ideia de uma negatividade genérica, à noção de uma desordem que extrapola o corpo individual ao abranger as relações sociais e a própria organização do mundo sobrenatural. Suprimir a morbidez não significa eliminar tecnicamente um
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Entrevista realizada em 26 de janeiro de 2019, com Santa Rosália Ulguim da Silva. Acervo do Projeto de Extensão Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.
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sintoma, mas ressignificá-lo inserindo-o num sistema explicativo mais abrangente. (MONTERO, 1985, p. 129).
Montero (1985, p. 171) ressalta ainda que através do corpo doente, a ação mágica umbandista busca ser eficaz na produção de uma transformação a nível social, pois, a possibilidade de expressar os males do mundo através da linguagem do corpo doente significa para um umbandista poder compreender e dominar a desordem do mundo.