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3. A centralidade da religião na vida comunitária

3.1 A matriz umbandista

3.1.2 Sob o manto de Nossa Senhora Aparecida

Em 13 de outubro de 2018, ocorreu a festa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, e entidade guia do Centro de Umbanda do Cancelão, que leva o nome da referida santa. O evento, que estava previsto para acontecer somente à tarde, iniciou pela manhã, devido as pessoas que vieram de Pelotas, Capão do Leão e Canguçú chegarem mais cedo. Eu saí de Piratini às 12h e 15 minutos, no ônibus circular, que faz o itinerário entre a cidade e o Bairro Cancelão. Neste dia, estavam no

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ônibus mais cinco mulheres que são médiuns nos Centros de Umbanda Nossa Senhora da Conceição e Santo Antônio na cidade de Piratini. No ônibus não nos falamos, porque quando embarquei, não as vi. Nos encontramos quando descemos na parada. Elas eram visitantes e não conheciam bem o caminho e então, me acompanharam por um atalho que facilita o acesso à casa de Dona Santa. Nesse trajeto, fomos conversando e elas me explicaram que estavam indo participar da festa, pois sempre são convidadas, mas esta era a primeira vez que estavam indo. Expliquei para elas que estava indo devido à pesquisa que estou realizando para minha dissertação. Assim que descemos do ônibus, ouvimos o toque dos tambores, que anunciavam que o evento já havia começado. Logo nos dirigimos para o Centro, que estava todo ornamentado com balões nas cores azul e dourado, numa alusão ao manto de Nossa Senhora Aparecida. Todas as pessoas pertencentes ao centro estavam vestidas de roupa branca, e usavam uma camiseta com foto de Nossa Senhora Aparecida. Eu permaneci por alguns minutos na assistência. As demais que chegaram comigo, passaram direto ao banheiro e trocaram suas roupas por roupas brancas adequadas àquele momento e passaram para o espaço reservado à corrente, para dela participar, a qual já estava organizada em círculo. Neste círculo da corrente, os homens se localizam à direita, devido os tamboreiros estarem neste lado e as vozes dos homens se adaptam mais ao toque dos tambores, explicou-me Dona Santa. Por isso, as mulheres ficam à esquerda da entrada do local onde ocorre o recebimento das entidades. O Centro estava lotado de gente, tanto na sala da assistência como na sala da corrente, assim como área externa do Centro. Haviam dois enormes bolos recheados que, imagino que pesassem mais de 100 kg cada um, pelo tamanho. Estes estavam decorados com as cores azul, branco, dourado e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida desenhada em cima. Os ingredientes para o bolo foram todos doados por pessoas da comunidade, frequentadoras do centro e foi feito pela Cátia (nora de Dona Santa) e Navane (casada com um dos netos de Dona Santa e mãe do seu primeiro bisneto). Dona Santa exigiu que a massa fosse feita da moda antiga, ou seja, não de pão- de- ló para ficar mais gostoso.

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Figura 20 - Crianças aguardam para receber o "conforto" na festa de Nossa Senhora Aparecida. Fonte: Acervo Pessoal da Pesquisadora.

Ao me ver na assistência, Dona Santa me chamou para o espaço onde várias pessoas estavam organizadas em corrente. Tanto na corrente como na assistência haviam pessoas vindas da cidade de Piratini, de Canguçú, de Pelotas e Capão do Leão. Todos da corrente giravam junto ao congá. Alguns já haviam recebido suas entidades de caboclos. Devido haver pessoas no local que não me conheciam, Dona Santa apresentou-me e explicou porque eu estava ali, disse que eu estava ajudando a comunidade a se organizar como quilombola e que por isso, estava autorizada a permanecer no local, para fotografar ou fazer filmagens. Fiquei meio constrangida com os aplausos recebidos deles. Cumprimentei a todos, agradeci a recepção e disse que me alegrava estar naquele lugar, que me fazia sentir bem e, que me sentia no dever de contribuir na sua organização, a qual tem por objetivo, buscar o acesso a políticas públicas especificas para quilombolas.

A seguir, observei que todos não recebiam suas entidades ao mesmo tempo, pois isso se dava a partir de cantos diferenciados para cada uma delas. Uns ficavam mais tempo incorporados, enquanto outros faziam uma gira rápida e logo a entidade

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ia embora. Os caboclos, depois de um tempo, deram lugar aos pretos-velhos, mas vó Rita, preta-velha de Dona Santa, não veio nesse dia. Chegou o momento de todos da assistência receberem o passe. Primeiro, foram chamadas as crianças, que entraram em fila e foram formando um semicírculo a frente da corrente. Cada uma bateu a cabeça no congá, e foi tomando seu lugar. Após receberem o passe, foram saindo e dando espaço para as pessoas adultas que aguardavam na assistência. Estes também entravam em fila, alguns se curvavam e faziam um sinal, uma batida com a mão fechada, por três vezes no chão, antes de passar pela porta que dá acesso ao espaço reservado à corrente. As pessoas da assistência passavam por todos os médiuns para tomar o passe, como ocorre em todas as sessões e, ao passar pelo congá, batiam com a cabeça neste local. Eu entrei na fila e repeti os mesmos gestos que as outras pessoas faziam. Todos recebiam um jato de perfume, aconselhamento e o desejo de paz, de harmonia. Após estes gestos, foram servidos bolo e refrigerante para todos. Os bolos foram levados para a área de entrada do Centro e foi cortado por uma médium que se mantinha incorporada com sua entidade. Achei isto impressionante, pois pensava que estando incorporada, a pessoa não poderia realizar nenhuma atividade que não fosse o passe e o aconselhamento. As fatias de bolo distribuídas eram enormes e podia-se repetir várias vezes. Primeiro serviram as crianças e após, os adultos. Como sou diabética, não quis aceitar o bolo, mas Dona Santa, que estava incorporada, me alcançou a fatia que haviam dado a ela e disse que eu não ficasse preocupada, porque ela havia benzido aquela fatia e que não me faria mal e, inclusive, ia me deixar com uma sensação de tranquilidade, porque percebia que estava muito ansiosa e, realmente eu estava. Ao chegar em casa, comi o bolo e senti uma sensação muito boa. Dormi bem à noite e no outro dia acordei mais tranquila. Eu havia levado balas, chocolates e bolachinhas para as crianças, mas como havia muita gente, Dona Santa achou melhor distribuir só para as crianças mais tarde, após o encerramento das atividades no Centro e que todos já tivessem ido embora.

Neste dia, foi apresentado um projeto pela Cátia, nora de Dona Santa. Este projeto que é desenvolvido no Centro, tem por objetivo, desenvolver atividades com crianças e adolescentes, visando orientá-los sobre bons costumes, como não pegar nada alheio, prevenir contra o uso de drogas, saber agradecer, respeitar os mais velhos, conhecer e valorizar sua história. A ideia era trabalhar com adolescentes a

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partir dos 12 anos, mas como as crianças se interessaram pelas atividades, estão sendo acompanhadas crianças a partir de 4 anos. As pessoas de centros de outros municípios que estavam presentes ficaram interessadas no projeto, pois não tinham conhecimento de nenhum outro Centro que desenvolvesse esse tipo de atividades. Também me senti interessada e pedi para avisarem os dias em que acontecem as atividades para acompanhar. Achei o projeto bem elaborado. A nora de Dona Santa explicou que ela o recebeu de uma entidade, que foi ditando para ela o que deveria ser escrito para ser feito, ou seja, os objetivos e as atividades propostas.

Esta celebração é diferenciada das celebrações que tenho participado em homenagem a santos (as) padroeiros (as). É uma celebração voltada à comunhão de todos, sem cobranças financeiras. O que é ofertado aos participantes, é recebido por doações da comunidade e a ela retorna da mesma forma. Há uma sintonia entre todos os presentes e organizadores da festa, além de um respeito mútuo entre todos. Percebe-se o entusiasmo das pessoas, a alegria em receber cada um que vai participar da celebração. Não há distinção de raça, ou status social. Todos os que chegam são bem acolhidos. Ao final da festa, as entidades foram subindo a partir de cantos próprios de cada uma. A partir deste momento todas as pessoas que se encontram no local, vão retornando às suas casas.