2. Historicidades e territorialidades negras em Piratini
2.3 O Bairro Cancelão
Numa pesquisa realizada por alunos(as) da E.E.E.F. República Riograndense, que encontra-se disponível na Biblioteca Pública Municipal, sem data e sem nome de autor, consta que no princípio o Cancelão era reconhecido como Coxilha de Santo Antonio. Tinha mais ou menos cinco moradores, destacando-se: Arlindo Espíndola; José Português; Mariano e Kico Porto. Foi na década de 1960 que começaram as migrações para esta localidade, tornando-a mais povoada.
No início, o Cancelão era subdividido em apenas duas fazendas de dois únicos donos, cada qual com uma sesmaria de campo incalculável. A parte que fica à direita de quem vai para Pelotas, pertencia à família dos Lima e, à esquerda pertencia aos Borges. A sede da fazenda dos Lima estava localizada mais ou menos no lugar onde hoje é o campo do Sr. Erasmo Morais, lugar este denominado como Antiga Tapera do Umbú. A Fazenda dos Borges abrangia as proximidades onde hoje está localizado o campo de futebol desta vila. As primeiras casas foram: a casa que hoje é de propriedade do Sr. Francisco Moraes, que tem à frente um umbu muito grande que praticamente acompanha o início da povoação; a casa onde reside o Sr. Luiz Carlos de Ávila, na qual funcionou uma farmácia não muito grande, mas importante para os moradores do local; a casa onde hoje reside o Sr. Ledi Oliveira, na qual residia o português José Rosário, dono de um grande comércio e de um moinho de farinha. A casa onde atualmente reside o Sr. Alberto de Jesus, nas proximidades da atual Escola Estadual de Ensino Fundamental Republica Riograndense, onde funcionou o primeiro
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colégio da vila, em uma casa de taipa27 e que teve como primeiro professor o Sr. Eliseu Fernandes.
O Cancelão foi assim chamado porque, nas proximidades onde hoje reside o senhor Alã Oliveira, havia um bolicho com uma cancela de ferro muito grande na frente. Esse bolicho era muito famoso pelas peleias de facão, jogo de carta e de osso que ali aconteciam. Daí o cognome de Cancelão. Perto do porteirão morava Basílio Brum, um dos primeiros moradores de Cancelão, e era proprietário de todos os terrenos da atual rua Dorvalino Lessa. Neste local, Basílio Brum fundou uma olaria de telhas, passando por ali uma estrada que vinha de Canguçu, por campos de D. Ibraima Souza. Havia desde a atual entrada para o corredor da empresa Agro-CICA28, uma cancha de carreiras29, onde todos os domingos tinham grandes pencas30. Também atrás do terreno onde está construída a Igreja Nossa Senhora do Rosário, havia uma cancha de jogo do osso31.
Atualmente o Cancelão é um Bairro/Vila distante 10 Km do centro urbano de Piratini. Para Chegarmos até ele, de transporte coletivo, leva-se de 20 a 30 minutos, devido a via de acesso a este local não ser asfaltada, e por isso, principalmente quando ocorrem chuvas intensas, formam-se muitos buracos e várias curvas perigosas dificultando o percurso. Durante a viagem passamos pelos bairros “Cerro da Fumaça” e “Curva dos Morales”, formados por um pequeno número de residências a beira da estrada. Neste percurso, podemos apreciar a paisagem ainda composta por vegetação no intervalo entre uma moradia e outra, de construção simples. Pode- se observar a criação de alguns animais como ovelhas, galinhas, cavalos etc. Observa-se, ainda, o plantio de lavouras de milho, quintais de árvores frutíferas e flores ornamentando as casas.
27 Termo comumente usado para referir casas construídas com varas retiradas do mato, que formam
uma trama, que é preenchida por barro, formando assim as paredes. Geralmente possuem cobertura de capim.
28 Empreendimento agropecuário direcionado, originalmente, para o ramo da fruticultura, e que
empregava muitas pessoas do Bairro Cancelão em empregos temporários. Teve sua razão social alterada diversas vezes.
29 Local usado para corridas de cavalo marcadas por disputas e apostas. Ver mais sobre essa
expressão lúdica gauchesca em: http://www.paginadogaucho.com.br/jogo/carreira.htm
30 Termo local que significa disputa, competição.
31 Muito praticado na região dos pampas, “Consiste no arremesso do osso do garrão do boi sobre uma
cancha plana e, conforme a maneira que cai, dá a suerte ou culo, isto é, ganha ou perde a pessoa que o atira. O terreno ou cancha onde se joga não deve ser nem muito duro nem muito mole. Quando tal osso cai sobre umas das extremidades, e assim fica em pé ou inclinado, dá-se o que se chama uma clavada”. In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jogo_do_osso
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Como não há levantamento do número de habitantes por bairro em Piratini, não foi possível precisar quantos habitantes há no Cancelão, porém, o número de eleitores informados pelo Cartório Eleitoral é de 1500. Neste bairro, há só uma rua calçada. Esta é a via que atravessa o centro do “bairro”, pela qual passa o ônibus que faz a linha Piratini-Canguçu e também para os 3º e 4º Distritos.
No Cancelão há uma Escola de Ensino Fundamental e uma de educação infantil. São poucos os estabelecimentos comerciais, resumindo-se a uma padaria e alguns armazéns, um posto de combustível e uma oficina mecânica. Como espaço de lazer há uma quadra de esportes, um salão de baile e um CTG. Para o cuidado da saúde, encontra-se ali um posto de saúde com equipe médica e odontológica, com atendimento diário, mas a medicação deve ser buscada na cidade, pois não há farmácia no local. Não há agência bancária. Um ônibus circular une o bairro ao centro da cidade, durante 5 horários diários nos dias comuns, 4 aos sábados e 3 aos domingos.