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2 O PRAGMATISMO SEGUNDO RICHARD POSNER

2.2 Crítica à Justiça Distributiva de Aristóteles

Se Posner desconfiava da capacidade de oferecer importantes ou consistentes respostas e colaborações ao direito, por parte da justiça corretiva de Aristóteles, crê muito menos no auxílio ou na utilidade da justiça distributiva destes grandes expoentes da teoria: o próprio Aristóteles e John Rawls.

Aliás, o próprio Posner, indicando sua descrença para com a justiça distributiva de Aristóteles, se comparada à justiça corretiva, deixa bem claro que sua insuficiência faz com que não seja necessário perder muito tempo ou gastar energia com análises mais detidas e aprofundadas sobre o tema. Tanto assim que em seu Problemas de Filosofia do Direito, dedica muito pouco espaço à justiça distributiva de Aristóteles, se comparada ao espaço conferido à justiça corretiva. Não obstante isso, vejamos, ainda que não exaustivamente, os motivos para tal. Posner afirma, então, que Para começar, achamos que, se a teoria aristotélica da justiça corretiva é insuficiente, sua teoria da justiça distributiva deixa ainda mais a desejar”45

A justiça distributiva em Aristóteles encontra-se descrita no Livro V, capitulo 3, da Ética a Nicômaco. Segundo Posner, Aristóteles defendia que o critério para a distribuição de recursos na sociedade deveria ser o mérito relativo dos potenciais beneficiários.46

Ocorre que o padrão de mérito vai variar, a depender dos valores que são cultivados pela sociedade. Este fato por si só já demonstra uma dificuldade em se lidar com a noção de mérito, que passa a ser bastante fluida e sujeita a oscilações. Além disso, mérito para a sociedade aristocrática, que era a sociedade considerada justa por Aristóteles, dependia do quão virtuoso ou dotado de excelência o cidadão fosse.

44

RODRIGUES RIEFFEL, Luiz Reimer. Um Mundo Refeito: O Consequencialismo na Análise

Econômica do Direito de Richard Posner.

45

POSNER, Richard A. Problemas de Filosofia do Direito. LUIZ CAMARGO, Jefferson (Trad.). São

Paulo: Martins Fontes, 2007. p.449.

46

Posner pondera que este modelo pode tão só funcionar em limites reduzidos, especialmente porque Aristóteles não tinha a visão do Estado como ente possuidor inicial de todos os recursos e posterior distribuidor para os virtuosos. Aristóteles, na verdade, trabalhava com a ideia de que haveria plena liberdade no privado, que proporcionaria a negociação e acumulação de toda riqueza que quisessem, com o intuito de evitar atitudes injustas, tais como o roubo e a fraude. Como pode ser facilmente verificado, o princípio de justiça distributiva de Aristóteles não compreendia todo o universo da riqueza da sociedade, não podendo ser considerado consistente no tempo em que proposto, muito menos em dias atuais. Dito de outro modo, a teoria de Aristóteles não se mostra capaz de dar respostas satisfatórias aos questionamentos morais da atualidade.

Com efeito, Richard Posner enxerga nas teorias modernas de justiça, tais como a de John Rawls, a repetição da falha que se perpetua desde a construção teórica de Aristóteles. Segundo o professor da Universidade de Chicago, as teorias que buscam analisar a justiça distributiva continuam a falhar, pela insistência na utilização de princípios-mestres em todas as situações, que é limitada pela complexidade do mundo real. Não é possível, portanto, pensar na utilização de princípios-mestres sem uma relação direta com o mundo ideial.

A referência a John Rawls como possível reprodutor, em um dado nível, da análise aristotélica de justiça, feita de forma desabonadora por Posner, se justifica pela flagrante oposição dos dois autores em relação ao tema. Como será visto a seguir, Rawls critica de forma veemente o que ele considera a teoria da justiça segundo Richard Posner.

2.2.1 Crítica à Justiça Distributiva de John Rawls

Desde logo, é preciso dizer que Rawls é um opositor do intuicionismo e sua incapacidade de propor um sistema normativo capaz de hierarquizar nossas

intuições, segundo o qual resta definido o princípio que deve ser aplicado, caso haja conflito entre elas (intuições).47

Por outro lado, Rawls também rejeita qualquer possibilidade de que algum direito de um indivíduo isoladamente considerado seja sacrificado ou posto à prova, ainda que em benefício da coletividade ou em função de alguma concepção econômica, que, como tal, leve em conta, quem sabe, a possibilidade de maximização de riqueza. Isto pode ser depreendido de suas próprias palavras:

[...] A theory however elegant and economical must be rejected or revisited if it is untrue; likewise laws and institutions no matter how efficient and well- arranged must be reformed or abolished if they are unjust. Each person possesses an inviolability founded on justice that even the welfare of society as a whole cannot override. For this reason justice denies that the loss of freedom for some is made by greater good shared by others. It does not allow that the sacrifaces imposed on a few are outwheighed by the larger sum of advantages enjoyned by many.48

Com essas considerações, Rawls atinge frontalmente o método pragmático de Posner e sua concepção de justiça, que, como será visto mais tarde, tem relação estreita com as consequências eficientes das decisões e com a maximização da riqueza.

Posner, por sua vez, tece críticas ao caráter não contextual, anistórico da investigação de Ackerman49, porém tais objeções se aplicam perfeitamente a John Rawls, que também desenvolve sua teoria de justiça partindo de um ponto ideal, imaginário, descontextualizado, que ele próprio chama de ponto original50 (The Original Position).

Outrossim, o fato de partirem do zero, de um princípio primeiro, faz com que lhes seja um desafio entender a humanidade de uma criança portadora de alguma deficiência mental, assevera Posner. Além disso, referindo-se às decisões judiciais, afirma que os juízes não partem do zero, que não tomam suas decisões partindo do nada. Aliás, para um pragmatista é claro que existem condicionamentos prévios e

47

GARGARELLA, Roberto. As teorias da justiça depois de Rawls, Um breve manual de filosofia

política. FREIRE, Alonso Reis (Trad.). São Paulo: Martins Fontes, 2008. p.2-3.

48

RAWLS, John. A Theory of Justice. Revised edition. Cambridge: Havard University Press, 1971. p.3.

49

POSNER, Richard A. Problemas de Filosofia do Direito. LUIZ CAMARGO, Jefferson (Trad.). São

Paulo: Martins Fontes, 2007. p.455.

50

que o contexto e a realidade social circundante influenciam as decisões, não havendo, portanto, processos decisórios que partam do nada, do zero.

Por fim, as implicações lógicas de tal teoria de justiça levariam a que os juízes precisassem decidir guiados pela filosofia política ou moral. Ocorre que, nos dizeres de Posner:

Os filósofos são às vezes levados a conclusões em conflito com os valores morais de sua sociedade e, em nosso estado atual de diversidade moral e intelectual, igualmente em conflito com as conclusões da maioria dos outros filósofos. Se existe um mecanismo de arbitragem entre filosofias morais, os juízes não o possuem.51

Para Posner, resta induvidosa a impossibilidade de se advogar a existência de um ponto original, ou comum; tampouco cabe em uma sociedade plural e multifacetada a solução dos casos por parte dos juízes, com base em ponderações de filosofias morais.