COMO EDUCAR A SI MESMO OU TORNAR-SE CRIADOR DE S
3.1 CRÍTICA AO INSTINTO DO CONHECIMENTO: PENSAMENTO É CORPO
Nietzsche, na obra O nascimento da tragédia, destaca a arte trágica como um modelo alternativo com vistas à resolução do problema da ciência o qual se busca o
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equilíbrio entre ilusão e verdade55. Observar-se, segundo Marton (2014) que no
período posterior a obra Nascimento da tragédia e o anterior a Humano Demasiado
Humano, a crítica à ciência e à verdade ainda permanece, contudo, a partir do
conceito de instinto de conhecimento ou instinto de verdade.
Segundo Marton (2014), no ensaio sobre verdade e mentira no sentido
extramoral, os conceitos de verdade e linguagem, aparecem como indissociáveis. Os
homens antes da vida em coletividade viveriam em um mundo onde imperava “o mais grosseiro omnium contra omnes”. Tentando preservar-se os indivíduos desafortunados e fracos perceberam a necessidade de conservar-se, preocupados em manter a existência, teriam procurado modificar um estado que lhes era insuportável, a saber, sua não conservação, buscando “convergir às forças principais do intelecto para a dissimulação”.
Nietzsche pretende evidenciar que não há o instinto de conhecimento ou até mesmo um instinto de verdade, mas um “instinto da crença no conhecimento ou na verdade” (MACHADO, 1985, p. 40). Ele procura a todo o momento evidenciar o aspecto superficial do conhecimento, e isto significará que conhecimento e aquilo que os homens buscam como verdade, nada mais é que uma suposição, uma ilusão, estabelecida por uma necessidade social. Enfatiza Nietzsche:
Como a verdade tem importância para os homens! É a vida mais elevada e a mais pura possível aquela que possui na crença, a verdade. A crença na verdade é necessária ao homem a verdade aparece como uma necessidade social: é depois aplicada a tudo por uma metástase, mesmo quando não é necessária. Todas as virtudes nascem de necessidades. Com a sociedade nasce a necessidade da veracidade, senão o homem vive em eternos véus. A fundação de Estados suscita a veracidade. O instinto de conhecimento é uma fonte moral (VM, §1, p. 53).
Deste modo, teve início o desenvolvimento do intelecto humano e consequentemente “conferiu-se assim à palavra uma fixidez que ela não possui” (MARTON, 2014, p, 19). A verdade surgiria a partir da convenção linguística, que para
55 Já estudamos no tópico 2.3 (p. 33) as reflexões lançadas por Nietzsche referente a obra O
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manter a vida em coletividade, os membros de um dado grupo empregariam as designações usuais, às quais haviam sido estabelecidas por convenção. No intelecto humano não haveria um desejo natural direcionado para a verdade. Segundo Nietzsche, o intelecto tem por finalidade a conservação dos indivíduos mais fracos por meio de uma compensação da falta de força, já que, em seu estado natural, o intelecto, é um criador de ilusões, dissimulador e mestre do disfarce. “Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos de árvores, cores, neve e flores, e, no entanto, não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem” (VM, §2, p. 57).
Por que preferimos a verdade à mentira? De onde deriva a crença na verdade? E, quando a desejamos, o que nela desejamos? Há um condicionamento pelo qual o homem preferiria a verdade à mentira? Será que a verdade é verdade? De acordo com Nietzsche,
[...] os homens, nisso, não procuram tanto evitar serem enganados, quanto serem prejudicados pelo engano: o que odeiam, mesmo nesse nível, no fundo não é a ilusão, mas as consequências nocivas, hostis de certas espécies de ilusões. É também em um sentido restrito semelhante que o homem quer somente a verdade: deseja as consequências da verdade que são agradáveis e conservam a vida: diante do conhecimento puro e sem consequências ele é indiferente, diante das verdades talvez perniciosas e destrutivas ele tem disposição até mesmo hostil (VM, §1, p. 48).
Há entre o homem e o mundo e as coisas um enorme abismo, e tal insuficiência, além de caracterizar a impotência de nosso intelecto, por outro lado, fica visível a indiferença das coisas ao homem, este enquanto conhecedor do mundo, ou seja, “sujeito do conhecimento”. Evitando as “consequências nocivas” do engano, a capacidade intelectiva do indivíduo, o próprio intelecto, dissimulador, teria a função de manutenção da vida, levando a criação de supostas condições de conhecimento objetivo da realidade. Compreende-se então que “a verdade não é uma adequação do intelecto à realidade; é o resultado de uma convenção que é imposta com o objetivo de tornar possível a vida social; é uma ficção necessária ao homem em suas relações com os outros homens” (MACHADO, 1985, p. 43). É neste abismo que o filósofo enfatiza a linguagem como metáfora de entidades que não conhecemos. Sendo a
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verdade uma necessidade social, a vida exigiria certa uniformização social de comportamentos e de valores, pois que a linguagem é construída de caráter totalmente metafórica. Para Nietzsche essa necessidade social é “o primeiro passo para a obtenção daquele enigmático impulso para a verdade” (VM, p. 217).
Nietzsche em sua crítica ao “instinto de conhecimento” ou “instinto de verdade” não age com uma postura epistemológica criando ou estabelecendo critérios que possa encontrar e diferenciar a verdade da mentira. O problema não é o engano ou ser enganado, mas os efeitos nocivos que um engano e as ilusões podem trazer para a conservação da vida. A capacidade de representar, de mascarar, fez com que o homem ocultasse a real origem e função da faculdade da consciência. Segundo Roberto Machado, a intenção de Nietzsche é “mostrar que a oposição entre verdade e mentira tem uma origem moral” (MACHADO, 1985, p. 43). Neste sentido, Nietzsche estaria evidenciando uma ordem de cunho fisiológico no valor que os homens atribuem às coisas, às ideias tendo fundação numa perspectiva moral, em que “a verdade e a mentira são de ordem fisiológica” (VM, §1, p. 45).
O que é uma palavra? A figuração de um estímulo nervoso em sons. Mas concluir do estímulo nervoso uma causa fora de nós já é resultado de uma aplicação falsa e ilegítima do princípio de razão. Como poderíamos nós, se somente a verdade fosse decisiva na gênese da linguagem, se somente o ponto de vista da certeza fosse decisivo nas designações, como poderíamos, no entanto, dizer: a pedra é dura: como se para nós esse ‘dura’ fosse conhecido ainda de outro modo, e não somente como uma estimulação inteiramente subjetiva! (...) A coisa em si (tal seria justamente a verdade pura sem consequências) é, também para o formador de linguagem, inteiramente incaptável e nem sequer algo que vale a pena. Ele designa apenas as relações das coisas aos homens e toma em auxílio para exprimi-las as mais audaciosas metáforas. Um estímulo nervoso, primeiramente transposto em uma imagem! Primeira metáfora. A imagem, por sua vez, modelada em um som! Segunda metáfora. E a cada vez completa mudança de esfera inteiramente outra e nova” (VM, §1, p. 55.).
Nietzsche correlaciona a palavra, à imagem e ao som como condição de possibilidade do conhecer trágico ou artístico. A primeira metáfora destacada por Nietzsche na citação anterior, é a metáfora corporal que diz respeito à transposição de estímulos em imagens. A palavra é caracterizada como símbolo sonoro que por
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sua vez expressa um estímulo nervoso (imagem + som). A sensação é produzida por um estímulo que é percebido pela percepção da retina. Ora, a retina, por sua vez, ao captar os sinais emitidos por aquele estímulo cria para si uma imagem correspondente; o que ocorre é uma representação que corresponde ao estímulo, não havendo assim um objeto externo. A segunda transposição é produzida fisiologicamente. Ao ocorrer o estímulo, e não inferindo uma causa “exterior a nós”, o que é construído por esse olho, seu estímulo e percepção (imagética sempre recorrente), é significado pelo som, por uma palavra e posteriormente fixada a um signo.
Percebemos com Nietzsche que a atividade intelectual possui uma natureza superficial. Segundo o filósofo na sua obra Aurora, nenhum impulso, em si, não possui “nem um caráter, nem uma intenção moral, nem sequer vem acompanhado de um sentimento de prazer ou desprazer” (A, §38, p.38). O impulso não busca satisfazer a uma finalidade como meta a ser atingida: é possível evitar a sua satisfação, como realizar sua satisfação em excesso ou redirecioná-lo para outros canais das forças que lhe são relacionadas e assim, o seu estado poderá obter diferentes maneiras e modos opostos de descarga.
O intelecto não age deliberando conscientemente postulando um veredito a uma luta entre dois ou mais impulsos, o que determina tal deliberação, seus meios e resultados, são as forças contidas entre os próprios impulsos (A, §109, p. 80). Aquilo que nos direciona às ações não são as consequências dos diferentes atos levados a consciência, mas ao agirmos atuam sobre nós diferentes forças e motivos de diferentes categorias dos quais pouco ou nada sabemos de um processo invisível e inconsciente onde “operam também o elemento corporal, (...) o humor do momento, o salto de um afeto qualquer (...), motivos atuantes que conhecemos mal, ou que não conhecemos” (A, §129, p. 97).
Sobre as diversas atividades mentais e corporais, a filosofia nietzschiana rejeita qualquer espécie de dualismo psicofísico como fundamento de um poder atribuído à consciência racional: “pois apenas esse pensar consciente ocorre em palavras, ou seja, em signos de comunicação o que se revela a origem da própria consciência (...) não só a linguagem serve de ponte entre o ser humano e outro, mas também o olhar,
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o toque, o gesto” (GC, §354, p. 249). A mente e o corpo, para Nietzsche, formam um todo complexo constituído por uma multiplicidade de “almas”, de impulsos e de vontades em relação de mando e obediência: “pois nosso corpo é apenas uma estrutura social de muitas almas [...] em todo querer a questão é simplesmente mandar obedecer, sobre a base, como se disse, de uma estrutura social de muitas ‘almas’” (ABM, §19, p. 25).
O homem guiado pelo “impulso de verdade” é levado assim, a desprezar a intuição, a fantasia, a imagem pela racionalidade por meio de abstrações. Segundo Roberto Machado, o homem se esquece de que é “um artista, um criador, isto é, um criador de aparência, situando o antagonismo entre arte e ciência no próprio campo da ilusão” (MACHADO, 1985, p. 45). Nietzsche não pretende com isto aniquilar a ciência, mas discipliná-la por meio da arte e da filosofia. Nesse sentido, pondera Machado:
Dominar a ciência significa discipliná-la, controlar seus excessos. O que caracteriza a posições socráticas, e é criticado por Nietzsche, não é exatamente o conhecimento; é o instinto de conhecimento sem medida e sem discernimento; é o instinto ilimitado de conhecimento, o instinto desencadeado do saber, o conhecimento do saber, o conhecimento incessante, a verdade a qualquer preço. Dominar a ciência é determinar seu valor no sentido de controlar a exorbitância de suas pretensões, no sentido de estabelecer até onde ela pode se desenvolver. É colocara questão dos limites (MACHADO, 1985, p. 48).
Na obra Gaia Ciência ao abordar o caráter da ciência, no que se refere sua finalidade à necessidade de um conhecimento científico menos mecanicista e mais humano, Nietzsche leva a ciência a aproximar-se da arte na criação de novos valores. Ou seja, vida e conhecimento são partes constituintes de um mesmo processo e sua busca não se resume apenas por uma postura erudita e profissional, mas é um meio para a vida. Por isso, é preciso que todo o corpo possa se conhecer, sentir a si mesmo, e tudo o que o envolve56. É preciso conhecer suas relações.
Segundo Souza (2011) conhecer é um afeto, um sentimento, e não somente aquela abstração da pequena razão (consciência). É necessário também que essa
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pequena razão conheça sua grande razão, o corpo, possibilitando a elaboração de um saber alegre que possa “fazer brilhar novas galáxias de alegria” (GC, §12, p. 64).
3.2 O CORPO COMO FIO CONDUTOR: A NECESSIDADE DE APROPRIAÇÃO DAS