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III Ŕ SEMINATVM RATIONES

3.1 Creaturalitate ex-nihil

Agostinho primeiro absorveu postulados do Zoroastrismo, doutrina religiosa monoteísta surgida no Irã, baseada em ensinamentos do profeta Zaratustra (660-583 a.C.), da qual as concepções religiosas implicavam dois princípios fundamentais a reger suas crenças, os quais infeririam à existência respectivamente de Ahura Mazda, a deidade

suprema e criadora de todas as coisas boas e de Ahriman, o princípio destrutivo que rege a cobiça, a fúria e as trevas. Os seguidores dessa doutrina acreditavam que seria dado aos homens se aproximarem do Divino, a ordem natural marcada pelo bem e a justiça, quando após a morte, cada alma seria julgada por seus atos, por isso acreditavam no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda do messias. Por segundo, Agostinho acessa influencias do maniqueísmo, doutrina religiosa e dualística, fundada pelo filósofo cristão Maniqueu, também conhecido por Mani ou Manes, na Pérsia, no século III da era cristã, a qual interpretava o mundo a partir de dois princípios duais e opostos, que implica o confronto permanente entre o espírito intrinsecamente bom e a matéria inerentemente má.

O Maniqueísmo fazia uso do emanatismo de base dualista, da tradição oriental, como pressuposto de compreensão da realidade, no que recorda o princípio heraclitiano do devir, que implicita a luta entre opostos. Essa concepção incluía ainda uma proposta gnóstica de se compreender a ordem cosmológica, onde os astros se inscreveriam em uma ordem estabelecida por substâncias conflitantes, das quais tudo emanaria e, uma teoria moral pela qual se propunha um método de libertação do homem. Traços dessa influência são encontrados na proto filosofia grega, especificamente no pensamento de filósofos pré- socráticos, como em Heráclito (séc.VI a.C) que reconhecia: Ŗ[...] tudo se fazer por contraste; e que, desta luta nasceria a mais bela harmoniaŗ (BORNHEIM,1977, p. 36).

Dos princípios do Maniqueísmo, consta a eternidade do embate advindo da Cosmogonia145, que se estabeleceu chamar de Escatologia146, a eterna luta do bem e do mal; o primeiro, denominado Deus, não deparado pelos sentidos, apenas através da razão e, o segundo Satã, que reinaria no mundo sensível. Destes princípios emanariam substâncias a seres outros, que se fariam bons ou maus, tal que ao homem competiria promover a secessão dos elementos luz e trevas, por meio de rigorosa moral e, Manes seria a manifestação do princípio luminoso, o Espírito Santo.

Do Zoroastrismo e do Maniqueísmo surgiu um sincretismo que influenciou sobre maneira o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, gerando uma espécie de gnosticismo, que culminou com uma primeira tentativa de instituir uma Filosofia Cristã conduzida sem rigor sistemático, advinda da vertente dos místicos do Cristianismo oriental. O gnosticismo misturava elementos cristãos, míticos, orientais e neoplatônicos, ao utilizar desse dualismo como princípio. Agostinho, familiarizado com a lógica aristotélica na condução do

145Teoria sobre a origem do universo, geralmente fundada em lendas ou em mitos e ligada a uma metafísica.

Como não houve testemunhas, as teorias da formação do mundo assentam-se na fé (cosmogonias religiosas) ou no cálculo (cosmogonias astronômicas).

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raciocínio, não aceitou a base materialista condicionada pela canhesca lógica do maniqueísmo. A posteriore da filosofia neoplatônica, Agostinho se interessou pelas razões da existência humana através da Cosmologia147 e, após sua conversão ao cristianismo e, das evidências no livro do gênesis, acolheu a creação ex-nihil, tese que fundamentou filosoficamente, máxime a justar com discípulos de Mani, que a implicavam a uma cosmogonia quanto a quaisquer criações outras.

A creação do mundo ex-nihil se mostra já no aleive inicial de Soliloquiorum: Deus, construtor do universo, primeiro me dê a graça de te suplicar adequadamente, depois me fazei digno de por ti ser ouvido e por último me libertai. Deus, de ti tudo procede, posto não existissem e, só passaram a ser por vós. Deus, não consinta que os seres se aniquilem, e que de si próprios se promova a destruição. Deus que creaste este mundo do nada, o mais belo que os olhos possam contemplar. Deus, que não promove nenhum mal e faz com que este não impere148 (m.t.) (SLq, Libri I Ŕ 1.2).

Agostinho optou por aquilo que à época pareceria uma aporia; Deus com o atributo de onipotência crearia o universo não de uma matéria pré-existente, mas do nada:

Senhor Deus onipotente, do princípio que de Vós procedeu e, da substância que resultou de vossa sapiência, creastes algo do nada. Creastes o céu e a terra não de Vós, porque doutro modo iguais seriam ao vosso filho unigênito e, por isso igual a Vós. E, de modo nenhum justo seria que, iguais a Vós fossem, por não serem de vossa substância. Nada existia fora de Vós, com que os pudésseis crear, ó trindade una e unidade trina. Do nada fizestes o céu e a terra, aquele grande e esta pequena, porque sois onipotente e bom para fazerdes tudo apropriado: um céu grande e uma terra pequena. Vós existías e nada mais quando fizestes o céu e a terra: uma contígua a Vós e outra próxima do nada; uma da qual Vós é soberano, outra que descende de coisa nenhuma149 (m.t.) (DCf, Libri XII.7).

Agostinho entendeu que Deus creara tudo o que existe ab initio mundum e, a este concedera através de possessão as virtualidades que o compõe, as rationes seminales. Assim, o todo fora edificado ex-nihilo, apenas pela elocução do Creador: ŖFalastes! Logo se fizeram; assim, por vossa palavra se crearam por siŗ150(m.t.) (DCf, Libri XI.5).

147Do grego kosmos, mundo, e logos, ciência, teoria. Conjunto das teorias científicas que tratam das leis ou

das propriedades da matéria em geral ou do universo. Toda cosmologia supõe a possibilidade de um conhecimento do mundo como sistema.

148Deus universitatis conditor, praesta mihi primum ut bene te rogem, deinde ut me agam dignum quem

exaudias, postremo ut liberes. Deus per quem omnia, quae per se non essent, tendunt esse. Deus qui ne id quidem quod se invicem perimit, perire permittis. Deus qui de nihilo mundum istum creasti, quem omnium oculi sentiunt pulcherrimum. Deus qui malum non facis, et facis esse ne pessimum fiat.

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Dominus deus omnipotens, in principio, quod est de te, in sapientia tua, quae nata est de substantia tua, fecisti aliquid et de nihilo. Fecisti enim caelum et terram; non de te, nam esset aequale unigenito tuo, ac per hoc et tibi, et nullo modo iustum esset, ut aequle tibi esset, quod de te non esset. et aliud praeter te non erat, unde faceres ea, deus, una trinitas et trina unitas: et ideo de nihilo fecisti caelum et terram, magnum quiddam et paruum quiddam, quoniam omnipotens et bonus es ad facienda omnia bona, magnum caelum et paruam terram. tu eras et aliud nihil, unde fecisti caelum et terram, duo quaedam, unum prope te, alterum prope nihil, unum, quo superior tu esses, alterum, quo inferius nihil esset.

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A expressão ex-nihilo em Agostinho, não deve ser entendida como um nada substancial, mas da concepção pela qual não pré-existiria uma matéria de princípio para a creação do universo. Em suas confissões Agostinho escreveu: Ŗ[...] existimos porque fomos feitos; deste modo não existíamos antes de existir, tal que pudéssemos criar a nós próprios [...]ŗ151 (m.t.) (DCf, Libri XI Ŕ 4.6).

Para Agostinho, Deus ao crear o primeiro momento, implícito adveio à creação do mundo, com o qual se ordenaram metafisicamente todas as creaturas em suas forças germinativas, segundo o que lhes foi concebido conforme o modelo idealizado pelo supremo Arquiteto. A creação, enquanto vestígio do Absoluto, d'Ele se diferenciaria por carecer de sua perfeição. Agostinho tem que as creaturas efetivariam ao se estabelecerem em uma ordem de proximidade e ao mesmo tempo de distanciamento da Summa Essentia. Agostinho por certo conhecia a escola de Demócrito de Abdera (460-370 a.C.) e sua célebre afirmação: Ŗnada nasce do nada, nada retorna ao nada, portanto o nada existe tanto quanto alguma coisa” (ABDERA in PRÉ-SOCRÁTICOS, 2000, p. 260).

Em Agostinho, a in-exsistencialidade não significaria a absoluta ausência; esta tese implica que todas as creaturas estão sujeitas à mutação, portanto são contingentes justamente porque creadas do nada e, não da natureza de Deus, que seria o único retentor da imutabilidade, na forma como escreveu: ŖNão a gerou de si próprio para ser aquilo que Ele constituiria e, sequer a fez do nada para que a Ele semelhante fosse, nem sequer mesmo d´Ele a teria feitoŗ152

(m.t.) (DGn, Libri I - 2.4).

Para Agostinho, a efemeridade das coisas seria a prova cabal, de que da natureza do Creador não procederiam, caso fossem, seriam imutáveis, imprescindíveis e sempiternas:

Todas as naturezas corruptíveis não são naturais porque de Deus não procedem; visto que não seriam corruptíveis se dřEle tivessem sido geradas. Logo, se assim fosse então seriam aquilo mesmo que Deus é em si; por conseguinte, não seriam imutáveis aqueles que do nada se originam. Na verdade seria um sacrilégio a audácia de equiparar o nada a Deus, como se o que de Deus procedesse fosse como aquilo que do nada procede153 (m.t.) (DNb, Libri I.10).

Para Agostinho o homem enquanto unidade substancial, composto de duas substâncias distintas, corpo e alma, ocuparia lugar de destaque, conforme aludiu no embate

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Ideo sumus, quia facta sumus; non ergo eramus, antequam essemus, ut fieri possemus a nobis.

152[...] nec ea genuit de seipso, ut hoc essent quod ipse est; sed ea fecit de nihilo ut non essent aequalia, nec ei

a quo facta sunt.

153

Omnes igitur naturae corruptibiles nec omnino naturae essent nisi a Deo essent, nec corruptibiles essent si de illo essent, quia hoc quod ipse est essent. Ideo ergo quocumque modo, quacumque specie, quocumque ordine sunt, quia Deus est a quo factae sunt; ideo autem non incommutabiles sunt, quia nihil est unde factae sunt. Sacrilega enim audacia coaequantur nihil et Deus, si quale est illud, quod de Deo natum est, tale velimus esse illud quod ab eo de nihilo factum est.

que manteve com seu irmão Navigius; constituir-se-ia da atividade de um corpo e de sua estrutura ontológica, porém com uma alma que a ele seria superior:

Agostinho Ŕ Seria evidente a vós que somos um composto de alma e corpo? Todos consentiram que sim, exceto Navígio que respondeu isso ignorar.

A. Ŕ Disso eu lhe perguntei: pensas ignorar tudo, ou dizes especificamente dessa proposição que dentre outras desconheces?

Navígio Ŕ Não me considero totalmente ignorante. A. Ŕ Não poderias citar aquelas as quais tu conheces? N. Ŕ Sim, posso!

A. Ŕ A não ser que isso te incomode, fale de algumas. (Navigio hesitou) A. Ŕ Não saberias ao menos que vives?

N. Ŕ Disso eu sei.

A. Ŕ Então sabes que tens uma vida, posto ninguém viva se ela não tiver. N. Ŕ Disso também sei.

A. Ŕ Igualmente saberias que tens um corpo? (Navígio assentiu) A. Ŕ Saberias, então, que consistes de corpo e vida?

N. Ŕ Sim! Entremeio existe dúvidas se não existiria algo mais que isso.

A. Ŕ Logo não duvidaria dessas duas realidades: tens um corpo e uma alma, não obstante ter dúvidas se não existiria algo outro que para o homem representaria um complemento de sua perfeição.

N. Ŕ Sim, exatamente isso!154 (m.t.) (DBv, Libri I - 2.7).

Ante a mutação das coisas e a imutabilidade do Creador, Agostinho não aceitou a tese de Aristóteles, da origem do mundo a partir de um movedor imóvel, tampouco aceitou o gênesis da hipóstase155 proposto no emanacionismo de Plotinus nas Eneadas, um princípio inicial transcendente, do qual derivaria toda a realidade do Unus absoluto em si e para si-mesmo e, em descendência a patamares inferiores de existência, na condição de que a cada moção descendente, ocorreria uma transformação substancial e essencial dos novos seres, os quais seriam mais impuros e imperfeitos e, consequentemente menos divinos; teologicamente, o emanacionismo confrontaria o Creacionismo e o Materialismo. Essa contingência da creação elucidaria o retorno ao não ser (nihil) no devir natural:

154Augustini - Manifestum vobis videtur ex anima et corpore nos esse compositos? Cum omnes consentirent,

Navigius se ignorare respondit.

A. - Cui ego: Nihilne omnino scis, inquam, an inter aliqua quae ignoras etiam hoc numerandum est? Navigius - Non puto me, inquit, omnia nescire.

A. - Potesne nobis dicere aliquid eorum quae nosti? N. - Possum, inquit.

A. - Nisi molestum est, inquam, profer aliquid. ( Navigius dubitaret) A. - Scisne, inquam, saltem te vivere?

N. - Scio, inquit.

A. - Scis ergo habere te vitam, siquidem vivere nemo nisi vita potest? N. - Et hoc, inquit, scio.

A. - Scis etiam corpus te habere? (Navigius assentiebatur). A. - Ergo iam scis te constare ex corpore et vita.

N. - Scio interim; sed utrum haec sola sint, incertus sum.

A. - Ergo duo ista, inquam, esse non dubitas, corpus et animam; sed incertus es utrum sit aliud quod ad complendum ac perficiendum hominem valet.

N. - Ita, inquit.

155Origem do grego e utilizado como equivalente a Ŗserŗ com o sentido de verdadeira realidade. União do

Verbo com a natureza divina, como substância única. Compreende-se uma realidade constituída, algo que se põe a si-mesmo como subsistente, onde ato e potência é uma só realidade autofundante de si.

Nosso Deus, em sua forma divina, di-lo Ele magnificamente a seus servos: Eu sou aquele que É! Diras isso aos filhos de Israel, Aquele que É me enviou a vós. Ele é verdadeiramene, porque é imutável. Com efeito, toda e qualquer mudança faz não ser ao que era; assim, Ele é verdadeiramente porque é imutável, Todo o restante por Ele foi feito e, d`Ele receberam seu ser segundo o seu modo singular156 (m.t.) (DNb, Libri I .19).

A doutrina estoica fundamentada em extremo determinismo foi fundante, para que o retor inferisse regras de estudo à escritura, assentidas em De Doctrina Christiana, e que apreendeu à creação em perspectiva diversa: [...] seu domínio não cessou nem mesmo a partir do sétimo dia da creação do céu, da terra e de todas as coisas que creara, pois se assim procedesse estas se esvaeceriam [...]157 (m.t.) (DGn, libri IV - 12.22).

Em De Magistro, Agostinho faz uso de um verso de Virgilio na Eneida-II, 659: Ŗ[...] se nada agrada tanto aos deuses desta cidade?ŗ158

. Assim, instiga o filho Adeodato sobre como poderia a palavra nada ter uma referência real, se não referiria qualquer coisa; se referenciasse tornar-se-ia algo e entraria em contradição com sua designação: ŖNihil, qual outro significado, a não ser o que não existe?ŗ159

(m.t.) (DMt, Libri I Ŕ II.5).

Agostinho deparou indícios da realidade divina, muito mais no próprio homem que no derredor, pois exatamente a insuficiência do creado, atestaria a abastança do Creador. Ora, a princípio, aquilo que do nada previesse nada seria! Pois foi exatamente a partir desse conceito de creatio ex-nihilo, que Ricœur identificou a ontoteologia augustiniana:

Es el pensar filosófico el que excluye todo fantasma de un mal substancial. A su vez clarea una nueva idea de la nada, la de ex nihilo, contenida en la idea de una creación total y sin resto. Simultáneamente se presenta otro concepto negativo, asociado al anterior, el de una distancia óntica entre el creador y la creatura, distancia que permite hablar de la deficiencia de lo creado en cuanto tal; en virtud de esta deficiencia resulta comprensible que creaturas dotadas de libre elección puedan declinar lejos de dios e inclinar hacia lo que tiene menos ser, hacia la nada. Merece que reconozcamos como tal este primer rasgo de la doctrina agustiniana, a saber, la conjunción de la ontología y de la teología en un nuevo tipo de discurso, el de la ontoteologia (g.m.) (RICŒUR, 2008-b, p. 177).

A tese da gênese ex-nihilo, mostrou aos maniqueistas que a materia do mundo seria devida unicamente ao Creador e, aos Neoplatônicos evidenciou que não seria o mundo da mesma natureza de Deus, porquanto do não-ser absoluto Ele fez o vir-a-ser:

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Magnifice igitur et divine Deus noster famulo suo dixit: Ego sum qui sum; et dices filiis Israel: Qui est

misit me ad vos. Vere enim ipse est quia incommutabilis est. Omnis enim mutatio facit non esse quod erat.

Vere ergo ille est qui incommutabilis est. Cetera quae ab illo facta sunt, ab illo pro suo modo esse acceperunt.

157

[...] non ut ipso saltem die septimo potentia eius a coeli et terrae, omniumque rerum quas condiderat, gubernatione cessaret, alioquin continuo dilaberentur.

158Si nihil ex tanta superis placet urbe relinqui?

159Quot verba sunt in hoc versu: «Si nihil ex tanta superis placet urbe relinqui»? [...] «Nihil» quid aliud

O céu e a terra existem e, proclamam que foram creados através de suas mudanças e variações. [...] todas as coisas proclamam que não se fizeram por si-mesmas: existimos porque fomos creados; mas não existimos antes de existir, portanto não poderíamos ter creado a nós mesmos [...]. O Artífice formou os corpos ao impor forma e aspecto à matéria, que já no existir, as recebeu; assim surgiu a terra, a pedra, a madeira, o ouro e quaisquer coisas outras. E, de onde proviria a matéria, se Ele não a tivesse creado? [...] Que creatura existiria, se não porque Ele existe?160

(m.t.) (DCf, Libri XI - 5.7).

Kolakowski coligou o nada de Agostinho à obra o Ser e o Nada de Sartre:

Desde que o presente reduz-se a nada, e desde que o universo físico, ao não ter qualquer conhecimento do tempo, não possui parte no tempo também (isto é, nenhuma memória e consequentemnte nenhum passado), mas seu tempo é nosso, esta experiência leva a suspeita alarmante de que uma idéia tão evasiva e lúbrica quanto a de ser, está simplesmente além da nossa compreensão. Esta poderia ser uma causa para o desespero se não houvesse um Ser Absoluto que pode rearmazenar nossa segurança e o sentimento de que existe uma ordem afinal... Sartre não estaria satisfeito caso não tivessem lhe informado de que era um discípulo incompleto de Agostinho (KOLAKOWSKI, 1988, p. 34).

Para Agostinho, as razões seminais se apresentariam à creação em um escorso ontológico sui generis; os seres creados teriam uma estrutura constitutiva fruto de princípios ontológicos: modus, especies e ordo161. Agostinho parte de um Creador imutável, imperecível, necessário e atemporal, que tudo esquipa em virtualidades, por isso em Soliloquiorum instanciou a processão das rationes causataes:

R. - E o que respondes a isto? As árvores pertencem ao gênero das coisas que nascem e morrem?

A. - Também não posso negar isto!

R. - Então poderemos deduzir que coisas verdadeiras podem morrer! A. - Nada contraponho!

R. - E não acreditas que ao fenecer coisas verdadeiras, não feneceria a verdade, assim como a morte do casto não implicaria na morte da castidade?162 (m.t.) (SLq, Libri I Ŕ 15.27).

Em uma visão sistêmica, poder-se-ia considerar que: a medida caracterizaria o modo pelo qual cada ser expressa sua existência no mundo, sua unidade e proporção; o número diz respeito à espécie, a forma pela qual a creatura expressa à existência mundana em números ocultos, que determinariam sua beleza e veracidade e, o peso que disporia sua estabilidade em face da finalidade, no que viabilizaria à creatura seu grado de bondade e

160Ecce sunt caelum et terra, clamant, quod facta sint; mutantur enim atque variantur [..]. Clamant etiam,

quod se ipsa non fecerint: "Ideo sumus, quia facta sumus; non ergo eramus, antequam essemus, ut fieri possemus a nobis". Artifex formans corpus... et imponit speciem iam exsistenti et habenti, ut esset, veluti terrae aut lapidi aut ligno aut auro aut id genus rerum cuilibet. Et unde ista essent, nisi tu instituisses ea? Quid enim est, nisi quia tu es?

161Medida, número e peso.

162R. - Quid illud alterum? Nonne concedis hoc genus rerum esse arborem, quod nascatur et intereat?

A. - Negare non possum.

R. - Concluditur ergo aliquid quod verum sit, interire. A. - Non contravenio.

R. - Quid illud? Nonne tibi videtur intereuntibus rebus veris veritatem non interire, ut non mori casto mortuo castitatem?

amor, portanto não existiriam momentos temporais distintos às creações. Daí, o retor derivar das rationes seminales às rationes causatae, a potência ontologica de Aristóteles, que respondeu a Heráclito e Parmênides; não ser do não-ser-absoluto a surgir o ser, mas do ser-em-potência, ser em ato, tal qual a semente a possui em si para se tornar árvore da vida163; por isso, o mundo estaria prenhe de causas a se reproduzirem.

A perspectiva da obra augustiniana, ao desviar da cosmologia grega e primar pelo humanismo cristão, adquiriu uma natureza antropológica quando o retor estudou o homem através da teurgia164. Igualmente, do homem o retor deliberou predicações divinais, que posteriormente se tornaram o mote do período medieval e, o comburente para o humanismo decorrente da Renascença: ŖEm verdade, além de todos os milagres ao homem, o maior deles é o próprio homemŗ165

(m.t.) (DCd, Libri X.12).

Essa afirmação de Agostinho se fez esperança renascentista na liberdade do