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Crime e criminalidade como dilemas urbanos

2 VIOLÊNCIA, CRIME E CONSTRUÇÃO DE TERRITÓRIOS: O CASO DE MINAS

2.1 Violência, crime e criminalidade: localizando o discurso

2.1.1 Crime e criminalidade como dilemas urbanos

O crime e a criminalidade são conceitos polissêmicos podendo assumir uma definição moral ou legal a depender da área do conhecimento explorada. Num viés sociológico, o crime é visto como um desvio às normas socialmente instituídas, ou seja, aquelas estabelecidas pelo fato social. Diferentemente da definição formal do Direito que o reconhece como um comportamento contrário à norma, que está vinculado a uma sanção

penal. A criminalidade, por outro lado, representa comportamentos sociais que ultrapassam as normas penais instituídas e observadas enquanto práticas coletivas.

Ao se fazer um recorte reducionista do fenômeno crime, este poderia ser encontrado na literatura basicamente em três searas. Na dogmática penal, que se ocupa da sistematização dos dispositivos legais dos paradigmas científicos e das normas, na criminologia responsável pela explicação causal do crime como obra de um autor determinado e na política criminal cujo objeto é o planejamento de estratégias de combate e prevenção da criminalidade. Para essas duas últimas categorias, a sociologia destaca-se ao fornecer subsídios às análises para interpretação dos dispositivos e para a elaboração de ações preventivas e repressivas da criminalidade (ESTEFAM, 2008).

Fausto (2001) define criminalidade como fenômeno social em sua discussão mais ampla, permitindo o estabelecimento de padrões mediante a constatação de regularidades, diferentemente de crime, que diz respeito ao fenômeno em sua singularidade.

A definição de crime utilizada neste trabalho é aquela que representa questões que envolvem o comportamento individual, contrário às normas de convívio social aceitável. Já, para a criminalidade, admite-se o conceito de comportamentos sociais que ultrapassam as normas penais instituídas. Em outras palavras, crime estará vinculado conceitualmente aos atos individuais, enquanto a criminalidade a um conjunto de ações relacionadas à coletividade.

Essas manifestações de ações relacionadas à coletividade têm encontrado no ambiente urbano, condições adequadas à sua manifestação. Para Beato Filho (2012, p. 146) “modernamente o desenvolvimento dos grandes centros urbanos tonou-se sinônimo de medo, ‘crime’, restringindo de diversas formas a liberdade de seus habitantes e erodindo com a sensação de segurança.”

Wirth (1938) concorda com a intensificação da violência urbana ao afirmar que na cidade a proliferação de desarranjos pessoais, desordem mental, suicídio, delinquência, corrupção, crime e insegurança são mais favoráveis que no campo. Pedrazzini (2006, p. 97), por sua vez, visualiza o ambiente urbano como propício a atos violentos ao afirmar que “a cidade é uma fábrica social da violência, onde os jovens dos bairros pobres são proletários sem descanso”.

Um questionamento que orienta as reflexões sobre a criminalidade no espaço urbano é a que procura responder ao porquê de nas cidades ter-se noticiado tantos casos de crimes. Se por um lado, a reflexão inicial aponta para uma globalização da informação, disseminada pelos meios de comunicação, por outro, a banalização da vida, observada,

principalmente, nos crimes de homicídios, revela mazelas sociais que sinalizam um horizonte que está além da simples disseminação de notícias violentas.

A iminência real do risco de vitimização e o medo da possibilidade de tornarem- se vítimas fazem das cidades brasileiras aquilo que Souza (2008) cunha sob o termo “fobópole” ao tratar do medo e da militarização da questão urbana. A expressão cunhada pelo autor designa uma cidade em que grande parte de seus habitantes sofre com o estresse crônico decorrente da violência, do medo da violência e da sensação de insegurança.

Beato Filho (1998, 2012) ao tratar a questão criminal nas cidades salienta a hipótese de que a criminalidade violenta seria buscada na desigualdade de condições socioeconômicas. Para o autor, os estudos sobre a criminalidade devem considerar variáveis como privação relativa e absoluta. A questão da privação relativa e absoluta coincide com a leitura do que Merton (1968) nomina como meios legítimos e ilegítimos de sucesso individual no contexto social, afirmando que os indivíduos internalizam as metas-sucesso de sua sociedade e, não tendo acesso aos meios legítimos de conquistá-las, apelam aos meios ilegítimos como a força, a fraude e o crime.

Beato Filho (1998, 2012) sustenta sua argumentação no contexto das desigualdades socioeconômicas, direcionando sua observação para influência da privação. A privação relativa, em especial, valoriza a percepção do indivíduo em relação a sua situação econômica e os ideais de sucesso vigentes na sociedade, sendo esse o mecanismo responsável por uma maior ou menor incidência criminal. Nesse caso, a frustração do indivíduo por não alcançar aquilo que é desejável do ponto de vista socialmente legítimo desencadearia a violência. Na perspectiva da privação absoluta, o cerne para ocorrência da violência, é a pobreza absoluta. O contexto de limitação financeira associado aos problemas emocionais levaria a altos índices de violência.

Existem inúmeras teorias que procuram explicar a manifestação da criminalidade em ambientes urbanos. Longe de tentar identificar as teorias mais importantes, mas na esteira de reconhecer a complexidade envolvida na compreensão dos fenômenos, vale salientar apontamentos em parte da literatura que se preocupam com a questão.

Cohen e Machalek (1994) reconhecem o crime como um subproduto de padrões normais de organização social e de processos de interação. Para os autores, indivíduos criminosos são estrategistas e adotam os procedimentos que trazem melhores resultados em determinado momento.

Wolfgang e Ferracuti (1970) percebem o crime como resultado de uma subcultura a qual o indivíduo estaria exposto e o aprendizado seria o responsável por sua reprodução social. As subculturas sobreviveriam apenas em contextos de desorganização social.

Cloward e Ohlin (1970) propõem um entendimento sustentado na teoria da “estrutura diferencial de oportunidades”, na qual os indivíduos ocupariam posições não só na estrutura legítima da sociedade, mas também na ilegítima.

Miller (1970), por sua vez, postula a existência de uma cultura de classe baixa, diferente do sistema cultural próprio das classes médias. Ideia que se aproxima da privação absoluta proposta por Beato Filho (2012) para o caso brasileiro.

Gottfredson e Hirschi (1990) associam a criminalidade a características individuais ao dizerem que criminosos são pessoas que não adquiriram autocontrole durante o processo de socialização.

Em síntese, para estes autores, a exposição, proximidade e práticas sociais dos envolvidos no processo de vitimização estão relacionadas ao ambiente de oportunidades produzido pelo comportamento dos indivíduos em um determinado espaço. Felix (2002, p.78) reforça a ideia contida nessa teoria e salienta a importância do método de espacialização geográfica ao afirmar que

A análise geográfica pode levar a interessantes e relevantes hipóteses da espacialização da criminalidade, já que além da lei, do ofensor e do alvo, a localização das ofensas é uma importante dimensão que caracteriza o evento criminal [...]. (FELIX, 2002, p.78).

As distintas formas de se observar e analisar a questão da criminalidade no contexto urbano direcionam para o reconhecimento de múltiplas possibilidades de análise. Por ser um fenômeno complexo, dinâmico e multicausal a criminalidade possui uma multiplicidade de variáveis explicativas na expectativa de se construir uma compreensão flexível diante do contexto em que se manifesta.

Nesse sentido, vale salientar aquilo que pode ser considerado um agregado explicativo produzido pelas teorias orientadas pela Escola de Chicago que sustentam a compreensão do fenômeno baseado no mapeamento da criminalidade, vinculando a relação direta entre crime, características geográficas e fatores sociais. Essa perspectiva explica a criminalidade pelo enfraquecimento dos mecanismos de controle em ambientes de desorganização social, fazendo com que o indivíduo faça uma escolha racional em relação ao crime e/ou incivilidades.

No Brasil, extensão territorial e diversidade sociocultural evidenciam diferentes padrões de criminalidade. Exemplo disso é o estado de Minas Gerais que, localizado na região Sudeste do país, apresenta um quadro geográfico diversificado e aliado a fatores socioeconômicos e quadro de exclusão podem condicionar uma sociabilidade violenta e geograficamente desigual.