Atualmente, o aparelho burocrático tem formalismo, ritualismo, excesso de papéis, centralização, rígida hierarquia, rigorosa disciplina, normas que conduzem à ineficiência. Olvidam que é preciso produtividade, obtenção de resultados. Também é mecanicista , e dificulta iniciativa, flexibilização e adaptação.
Os órgãos que efetuam a cobrança judicial de tributos, como os que efetuam a cobrança extrajudicial não estão com a interação necessária para um melhor
141 WEBER. Max. Ética protestante e o espírito do capitalismo, p. 42.
resultado na arrecadação de dívidas tributárias inadimplidas, ou seja, na cobrança de contribuintes inadimplentes. Essa racionalidade de realmente cobrar com profissionalismo, eficiência, com resultados e sem disfunções, está longe de ser cumprida no Estado Brasileiro, apesar de existir até mesmo preceito constitucional, como é o caso do caput do art. 37 da CF que dispõe:
A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (...).
Há um descaso cultural com essa cobrança de dívida do Estado por todos os lados, tanto dos governantes, como dos cidadãos que os elegem. No Estado democrático de direito e na complexa sociedade atual, muitas instituições necessitam ser repensadas, revitalizadas, adaptadas e racionalizadas. O Estado, por intermédio do Poder Executivo, necessita estar apto a cumprir objetivos fundamentais expressos na Constituição da República.
Realmente, existem muitas distorções no sistema tributário, mas isso não é justificativa para se realizar uma cobrança ineficaz, deficitária, omissa, imprópria e ofensiva ao artigo 37, caput, da Constituição Federal . São milhares de processos executivos fiscais paralisados e suspensos em todo o país, sujeitos a prescrições intercorrentes, com graves dificuldades nas penhoras de bens, sem uma atenção adequada dos poderes públicos, e sujeitos à extinção. Existe detentor de poder que ignora quem faz a cobrança judicial, ou seja, quem é o representante estatal encarregado dessa função prevista nos artigos 131 e 132 da Constituição Federal de 1988. Os que não o ignoram não estão conscientes da árdua e relevante missão, como também da importância desses agentes, no contexto da administração pública.
Os Estados e municípios, com suas respectivas secretarias, a União e seus ministérios, estão desorganizados, incipientes, morosos e sem uma efetiva cobrança administrativa e judicial de tributos. Há uma tendência de melhora e revitalização, com os recursos advindos da rede de comunicação eletrônica, mas ainda é incipiente, tímida e com graves disfunções.
Muitos Estados não têm o controle efetivo de seus créditos. Um processo executivo fica paralisado, ocorre a prescrição intercorrente, é extinto, e nada se faz para se alterar tal estado de coisas, conforme comprovam inúmeros acórdãos em
todo o País nesse sentido. Isso é facilmente constatável nos sites do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. Não há uma atenção dos governantes para a necessidade de uma estrutura adequada para cobrança de dívida ativa. Também não é possível que os detentores de poder entendam do funcionamento de todas as secretarias e ministérios.
Em outras palavras, o Estado é um credor que não se interessa tanto por seus devedores, um paradoxo. Na iniciativa privada, isso ocorre somente com perdulários, inconseqüentes e a caminho da estagnação, extinção e insolvência. Em suma, qualquer empresa ativa tem estrutura adequada de cobrança e o Estado, que arrecada milhões de reais, não a tem, principalmente na cobrança judicial, pois as procuradorias gerais de estado e procuradorias da Fazenda não têm autonomia financeira, e suas estruturas são visivelmente deficitárias, bem como os órgãos de arrecadação e fiscalização não contam com auditoria com nível técnico superior compatível com a demanda.
Sem dúvida é urgente, crucial e necessária uma alteração na política de recursos humanos, com aumento do número de representantes judiciais da Fazenda e contratação de auditores e especialistas da Administração, como também na mudança de mentalidade sobre o atual sistema deficitário de cobrança de tributos.
Não se pode esquecer que a cobrança judicial funciona como uma inibição, ou seja, o cidadão e a pessoa jurídica pagarão os tributos devidamente, pois sabem que esse débito pode transformar-se em dívida ativa e será realizada uma cobrança judicial, fato que deve evitar, tendo em vista o custo dessa operacionalização, que é ônus do devedor. Até essa inibição está fragilizada diante de um sistema inadequado. Veja-se a fragilidade deste contexto: a tão comentada coercibilidade do direito garantida pelo Estado resulta deficitária, devido a um sistema inadequado para inibir inadimplências tributárias. Em suma, somente há efetiva coercibilidade com instrumentos adequados para a realização de direitos de crédito.
Os escritórios particulares de advocacia que defendem grandes contribuintes, em geral grandes detentores de capital, ou qualquer outro devedor, utilizam todos os meios para reduzir a dívida de seus clientes. Os escritórios, quando defendem credores, realizam um trabalho individual, caso a caso, fato praticamente impossível na advocacia pública, devido ao volume excessivo de processos de execução fiscal, sem um número suficiente de representantes judiciais, sendo esse mais um exemplo das armas desiguais acima mencionadas.
Sem contar que os cobradores de impostos sempre foram mal vistos, e na antiguidade eram comparados às prostitutas, conforme relatos bíblicos.
Em suma, batedores de carteira são punidos, mas os sonegadores, os grandes fraudadores não o são. Há uma permissividade odiosa nesse sistema. O Direito e o capitalismo andam de mãos dadas, crimes patrimoniais dos excluídos do sistema são mais apenados do que os daqueles que estão dentro dele. Ou seja, quem faz a lei está dentro do sistema, não institui penalidades para seus pares, ou seja, os incluídos socialmente. Também é muito mais fácil denunciar os marginalizados do que os que realmente lesam gravemente a sociedade.
Até uma consciência social da importância dos que representam o Estado judicialmente na cobrança de dívida ativa é precária. Muitos não conseguem distinguir as diferentes funções dos ocupantes de cargos públicos nas carreiras jurídicas. É necessária uma adaptação do aparelho burocrático ao desenvolvimento tecnológico mundial, sendo que uma das idéias é a substituição do modelo burocrático pelo gerencial142, o que deve ser visto com reservas porque o modelo gerencial se inspira na eficiência da iniciativa privada, sendo que esta não tem o interesse público e fins estatais, como ocorre na administração do Estado.
Em geral, esses representantes não têm autonomia necessária para sua efetiva contribuição à sociedade. Como também não contam com auditorias de órgãos públicos para identificar os fraudadores contra o Estado. Tais representantes, advogados públicos, defendem o Estado, mas a máquina administrativa não fornece subsídios suficientes para que sua lesão seja reparada judicialmente, tendo em vista a ausência da ampla auditoria aqui mencionada.
8.3 INTERESSE PÚBLICO EM DUPLICIDADE NA PENHORA ELETRÔNICA EM