A penhora eletrônica originou-se como sucedâneo da infinidade de ofícios que o Banco Central do Brasil respondia, em todo o país.18 Não é difícil imaginar a excessiva burocracia, os entraves burocráticos para uma autarquia federal que tem
16 SILVA, Ovídio Araújo Baptista da. Curso de processo civil: execução obrigacional, execução real, ações mandamentais, p. 88.
17 Art. 664 do CPC: “Considerar-se-á feita a penhora mediante apreensão e o depósito dos bens, lavrando-se um só auto se as diligências forem concluídas no mesmo dia.”
18 Sobre ofícios veja os seguintes precedentes: “O magistrado pode e deve expedir ofícios a bancos e repartições públicas objetivando localizar bens do executado que possam ser penhorados, sobretudo dinheiro, pois ele está enumerado em primeiro lugar na lista de bens passíveis de penhora ou arresto. Pela possibilidade de requisição de tais informes, a partir daí, precedentes outros no RT 737/438 (TRF, j. 13.08.1996, rel. Des. Célio Benevides, com referência ao STJ, REsp 25.039-l/SPm rel. Min. Peçanha Martins) 745/239-331 (TJMS, com remissão a outro arresto do STJ no REsp 71.180-PA, j. 07.11.1995, DJU 05.02.1996, rel. Min. Barros Monteiro), 759/307, 763/406 (TFR, invocando acórdão do Min. Moreira Alves, do STF, em RTJ 110/184) in AgIn 343750-4/9-00- 8ª. Câm.
De direito Privado- TJSP-j.02.06.2004- v.u. Des. Luiz Ambra. P. 21.06.2004.
servidores em número limitado para responder a todas as requisições constantes em execuções civis, fiscais e trabalhistas de todos os Estados da federação, tanto na justiça comum como na especial.
A solicitação através de site veio funcionalizar as respostas a esses pedidos tão numerosos e freqüentes advindos de juízes de todos os Estados da federação.
Somente veio simplificar e racionalizar uma tarefa já existente, mas não eficaz, como a eletrônica.
Com essa simplificação e racionalização de serviço público, o Banco Central do Brasil (BACEN) cumpre o art. 37, caput, da Constituição Federal, no que se refere ao princípio da eficiência na administração pública.
Como o sistema de ofícios no papel era lento e o réu acabava sabendo, previamente, do conteúdo, não se lamentavam tanto por tal procedimento dos ofícios no papel, mas quando a situação começou a ser funcionalizada, racionalizada, difundida e a ensejar resultados efetivos na execução e a afastar procedimentos burocráticos do papel, os devedores e seus procuradores judiciais iniciaram a luta contra tal expediente necessário à tutela jurisdicional efetiva.
Qualquer inconveniente de tal procedimento é potencializado nas argumentações dos que tentam obstaculizar a tutela efetiva e a duração razoável do processo prevista constitucionalmente após a emenda nº 45 de 2004.
Na realidade, ofícios no papel ao Banco Central e conseqüente penhora de dinheiro já existiam, mas eram ineficientes porque o executado antecipava o saque do dinheiro na conta, dada a morosidade e burocracia dos procedimentos e ciência do devedor da decisão interlocutória que deferia penhora de dinheiro.
Atualmente, tal sistema é eficaz,célere,simples e se multiplica no Poder Judiciário, principalmente na Justiça do Trabalho, e necessita ser altamente estendido à Justiça Comum.
Sensível ao tema, o legislador, com a lei processual que altera o Código de Processo Civil, positivou a penhora eletrônica. Mas, fatalmente, os causídicos defensores de quem têm dinheiro em conta, com interesses escusos, defenderão arduamente os inconvenientes e os gravames de tão eficaz método para a evolução processual, em detrimento de direitos fundamentais.
Provável e lamentavelmente, farão de tudo para que as contas bancárias restem ilesas, talvez até criem mecanismos junto aos bancos, como, por exemplo, efetuar depósito em conta bancária de outrem para afastar o bloqueio eletrônico,
como, lastimavelmente, já fazem com outros bens penhoráveis e fraudam a execução e ainda escapam das penalidades previstas na lei processual.
Felizmente, na atual ordem capitalista, dificilmente o cidadão pode afastar-se do sistema financeiro, ou seja, raramente alguém não tem uma conta bancária, aí está o motivo de tanta polêmica, pois assim se torna mais difícil desviar os bens que constituem o patrimônio do devedor. Ou seja, fica mais complicado violar o princípio da responsabilidade patrimonial inserido no art. 591 do CPC,19 como também o dever de transparência patrimonial, corolário da boa-fé processual, acolhido nas recentes reformas processuais.
Sempre houve interesses não revelados, misteriosos, por trás da cultura odiosa de obstaculizar a penhora de dinheiro.20 Penhorar dinheiro do devedor é uma busca inalcançável, parece uma lenda, mitologia da literatura forense.
Metaforicamente, poderia ser comparado à busca da Arca de Noé nos montes do Ararat,21 ou seja, nunca se consegue encontrar a pecúnia, embora as tentativas sejam inúmeras.22
Sempre existe uma justificativa em defesa do devedor inadimplente e executado para sua conta bancária ficar intocável em detrimento de direitos do exeqüente. Essa tradição atentatória à dignidade da justiça e de litigância de má fé é um mito que precisa ser desvendado e extirpado da ordem jurídica, pois esse contexto traduz ilicitude, jamais legalidade, legitimidade e constitucionalidade.
Num país como o Brasil, em que grande porcentagem da população mal ganha para sobrevivência digna, o Estado, por intermédio do Poder Judiciário, proteger demasiadamente a conta bancária de maus pagadores23, fraudadores, ou seja, de réus executados, em detrimento da dignidade humana do titular de direitos,
19 Art. 591 do CPC: “O devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.”
20 Neste sentido: “Recentemente, foi dado um grande passo, concretizando um avanço significativo no aprimoramento dos bens sujeitos à execução, sobretudo o mais difícil de ser apreendido, a saber, dinheiro. (GUERRA, M. L. Obra citada, p. 159).
21 Há inúmeros relatos sobre descobridores da referida arca, mas nunca houve comprovação, visto que não se trata de fato histórico bíblico e sim, uma narrativa pra transmitir mensagem religiosa.Neste sentido: “Quem constrói a sua vida com as medidas de Deus, sempre sobreviverá a qualquer tempestade.” VALDEZ, Ariel Alvarez. A arca de Noé existiu?.
22 Neste sentido: “penhora de dinheiro, verdadeira lenda da literatura forense, quase busca do Santo Graal. (MACEDO, Elaine Harzheim; SANTOS, Ernane Fidélis dos. Execução civil: estudos em homenagem ao professor Humberto Theodoro Junior, p. 46).
23 Veja-se entendimento do STJ “A execução se faz no interesse do credor e não para proteger o mau pagador (STJ, 1ª Turma, REsp 152.892-PR, rel. Min. Garcia Vieira, j. 31.3.1998, DJ 18.5.1998, p.38. Decisão: recurso especial improvido, v.u.).” (p. 1818).
da justiça, da máquina judiciária e de direitos fundamentais materiais e processuais é totalmente desproporcional, irracional e contrário ao interesse público existente na efetiva prestação jurisdicional no estado democrático de direito.
Não faz sentido deixar de satisfazer créditos alimentares e outros, ou seja, obstar a efetiva realização de direitos sob a alegação de menor onerosidade, que nada tem a ver com ordem legal de preferência, embora os julgadores sejam induzidos em erro neste sentido.
Marcelo Lima Guerra, ao comentar sobre penhora on-line, afirma:
Desnecessário dizer os benefícios que o emprego dessa tecnologia trará para a prestação de tutela executiva. Além disso, o uso dessa ferramenta, ao mesmo tempo em que confere poderes mais eficazes ao juiz, na investigação de patrimônio expropriável do devedor, contribui para sepultar, definitivamente, a mentalidade aqui combatida, que sustenta uma atitude passiva do juiz, sempre a transferir integralmente ao credor o ônus de colher informações sobre a situação patrimonial do devedor.24
Sobre o Sistema Bacen-Jud, assim foi exposto no XXXII Congresso Nacional de Procuradores de Estado realizado em Natal – RN:
As recentes alterações processuais dão preferência para penhora em dinheiro, como também pela indicação de bens pelo credor, portanto a penhora on-line que é o bloqueio do dinheiro do executado em conta corrente é bastante útil e eficiente.
O sistema Bacen-Jud propicia bloqueio e desbloqueio das contas correntes, de uma maneira a facilitar e agilizar a execução de dívida ativa.
O Banco Central do Brasil (BACEN) criou os programas e efetuou convênio com o Poder Judiciário, devido aos inúmeros ofícios escritos no papel e lentidão nas respostas. Este sistema anterior ineficaz, foi trocado pela celeridade e economia do sistema eletrônico. Sendo que o convênio é feito entre o Banco Central do Brasil e Judiciário, portanto não faz sentido que membros deste poder indefiram essa espécie de penhora.
Foi criado um site pelo Banco Central do Brasil, em que é fornecida uma senha para o juiz para que proceda os bloqueios de numerário em conta-corrente em instituições financeiras do país. Rápido, fácil e evita o desperdício de tempo e dinheiro. Não aceitar a penhora on-line é o mesmo que dizer que a Internet e a tecnologia é inútil para os operadores do direito.
É necessária adaptação do processo a toda esta evolução nos meios de comunicação.
Não é plausível que o magistrado se exima de deferir a penhora eletrônica, pois é um procedimento simples, eficaz e de resultados.Há necessidade que o exeqüente solicite estes bloqueios, caso seja indeferida, é imperioso que a Fazenda Pública interponha recurso. A fundamentação tanto do pedido como do recurso é de que o magistrado necessita prestar a tutela jurisdicional adequada. Tendo à disposição meios céleres e efetivos não há como se eximir desta prestação, sob penha de macular a Constituição Federal da República.
24 GUERRA, M. L. Obra citada, p. 160.
Foi o Banco Central do Brasil que deixou a disposição este sistema para o Poder Judiciário, existindo até mesmo um convênio para tal mister. A justificativa de que os magistrados não tem como acessar sem prejuízo do serviço é temerária, sem conformidade com a tutela jurisdicional adequada, que é o reclamo do processo civil contemporâneo, e isto necessita ser revisto em grau de recurso pelos Tribunais.
O Banco Central do Brasil (BACEN) atento às dificuldades apresentada por milhares de ofícios de bloqueio de dinheiro em execução elaborou programa para agilizar e funcionalizar estas operações. Certamente, esta instituição, com este procedimento, está cumprindo o princípio constitucional da eficiência previsto no art. 37 da Lei Maior.
A utilização deste sistema torna a penhora mais eficaz, tendo em vista que o executado não prevê o momento do bloqueio tornando o desvio do dinheiro mais difícil.
Os Tribunais Superiores têm improvido os recursos contra a penhora on- line,25 os executados se apegam na circunstância de que o bloqueio que é feito pode atingir verbas maiores do que a execução, pois a ordem é emitida a vários bancos de uma só vez, fato que com a nova versão do programa bacen jud isto se torna irrelevante, pois o desbloqueio ocorre no prazo 48 horas. Esta argumentação contrária à penhora on-line de que o valor bloqueado pode ser maior que o penhorado,em breve estará prejudicada, tendo em vista de que está sendo criado um outro programa em que haverá o bloqueio de um valor limitado à execução.26
Não faz sentido deixar de utilizar um sistema rápido, de maior segurança e controle sob o argumento de que o valor da penhora pode ultrapassar o valor do débito, ora na versão atual tanto o bloqueio como o desbloqueio são rápidos,27 portanto estas exceções não podem obstaculizar um convênio tão útil ao sistema de execução.28
25 Processual civil. Agravo regimental. Execução. Penhora sobre dinheiro. Banco.
Onerosidade. Súmulas N. 83 e 7 DO STJ.
I. Esta Corte Superior tem fixado o entendimento que preconiza a possibilidade de a penhora recair sobre saldo existente em conta-corrente sem que ocorra ofensa ao princípio da menor onerosidade para o devedor. (AgR-REsp n. 528.227. RJ, Relatora Ministra Nancy Andrighi, DJU de 15.12.2003; AG n. 535.011-RS, Rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, DJU de 20.09.2004; AgR-AG n. 406.229- SP, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU de 08.08.2005; REsp n. 256.900-RS, Rel. Min. Barros Monteiro, DJU de 27.09.2004).
Processual civil. Execução. Nomeação de imóvel de difícil venda. Gradação legal. Penhora de numerário à disposição da executada. Admissibilidade.
Indicado bem imóvel pelo devedor, mas detectada a existência de numerário em conta-corrente, preferencial na ordem legal de gradação, é possível ao juízo, nas peculiaridades da espécie, penhorar a importância em dinheiro, nos termos dos arts. 656, I, e 657 do CPC. (4a. Turma, REsp 537667/SP, rel. Min. Cesar Asfor Rocha, j. 20.11.03, DJ 09.02.04).
No sentido de que o Juiz pode recusar penhora de bens móveis quando exista dinheiro suficiente em contas bancárias para garantia do débito: STJ-4a. Turma, REsp 703033 / MA, rel. Min.
Jorge Scartezzini, j. 19.04.05, DJ 09.05.05).
26 Neste sentido: REINALDO FILHO, Demócrito. A penhora on line: a utilização do sistema Bacen Jud para constrição judicial de contas bancárias e sua legalidade.
27 “O sistema permite maior agilidade para o desbloqueio (total ou parcial) de contas, o que ameniza os efeitos de um eventual bloqueio a maior do que o valor da dívida executada”. (REINALDO FILHO, Demócrito. Obra citada).
28 CARUSO PUCHTA, Anita. Penhora eletrônica em execução fiscal e reforma processual. Congresso Nacional de Procuradores, 22. Natal, 2006. CDROM.
3.3 ECONOMICIDADE DA PENHORA ON-LINE E ENTRAVES PROCEDIMENTAIS