• Nenhum resultado encontrado

A impenhorabilidade absoluta de rendimentos da pessoa natural chega a ofender o próprio ordenamento, pois nada adianta previsão de direitos sem uma execução e penhora idôneas.125 Na realidade, nenhum direito pode ser absoluto, pois extremar um direito prejudica alguém, certamente.

Não existe direito absoluto. Um excesso de um direito fatalmente lesiona direito de outrem. Tudo tem limites, e a impenhorabilidade dos salários, como tradição jurídica constitui um excesso que viola direitos de quem está em busca de reparação de danos sofridos.

Na realidade, as normas de impenhorabilidade excessiva, como é a de salários independentemente do valor, padecem de vícios de inconstitucionalidade,

122 Inciso XXXV do art. 5º da CF – “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.

123 Inciso LXXVIII do art. 5º da CF– “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. (incluído pela Emenda constitucional nº 45, de 2004).

124 Inciso V do art. 5º da CF: “é assegurado o direito de resposta proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.

Inciso X do art. 5º da CF: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano matéria ou moral decorrente de sua violação.”

125 Aristóteles. Política. Obra citada, p. 225.

pois ferem direitos fundamentais, direito fundamental de ação e dignidade humana de quem teve danos provocados pelo executado, visto que também é indigno sofrer violação de direitos sem um sistema processual apto a efetivar a recomposição.

O direito fundamental de ação compreende o meio executivo adequado126, pois sem este não há como garantir tutelas prometidas pelo direito material. A limitação de impenhorabilidades constitui avanços para concretização do meio executivo adequado.

A impenhorabilidade de rendimentos sem limitação de valor também afronta a jurisdição estatal. Se uma norma enseja ineficácia e fracassos na execução civil, também por esse fato viola a Constituição da República.

Portanto, impenhorabilidade excessiva, em especial a absoluta de salários, sem limitação de valor, constitui grave vício de inconstitucionalidade.

A autora deste trabalho apresentou a tese “Penhora de salários e direitos fundamentais” no XXXIII Congresso Nacional de Procuradores de Estado em outubro de 2007, ou seja, depois do veto na reforma processual que obstaculizou a adaptação das normas processuais de impenhorabilidade com a Constituição Federal. Referido congresso conta com a participação de representantes de todos os Estados brasileiros,como também do Distrito Federal.

Referida tese foi aprovada por maioria das unidades federadas, sendo que os procuradores de Estado que atuam em execução fiscal eram os mais receptivos com a necessidade da limitação da impenhorabilidade de salários, porque percebem dia a dia os fracassos e a crise da execução no Brasil.

Assim está exposto o assunto na tese aprovada no XXXIII Congresso Nacional de Procuradores de Estado:

As regras de impenhorabilidade no Brasil são radicais, não possuem fundamento plausível no ordenamento atual, ou seja, exageram na proteção do devedor e oportunizam a denegação da justiça, ou seja, deixam o credor sem a devida tutela de seus direitos. Não possuem a flexibilidade necessária para afastar o excesso de salário que não se destina à proteção do mínimo indispensável à vida digna do devedor.Além disso, tal rigidez viola direitos fundamentais do exeqüente, vítima de ilícitos ofensivos à sua dignidade humana causados pelo executado.

Os excessos são condenáveis. Exceder na proteção do devedor, fatalmente, viola direitos do exeqüente, pois tudo tem limite, sendo

126 “Na verdade, mais do que direito à sentença, o direito de ação, hoje, tem como corolário ao meio executivo adequado”. (MARINONI, L. G. Curso de processo civil. Teoria Geral do Processo. Obra citada, p. 112).

necessário um equilíbrio, um balanceamento, para verificar o maior peso nesses princípios em rota de colisão.

Entende-se humanitário proteger o devedor radicalmente e olvida-se que não é humanitário deixar a vítima de ilícitos sem a efetiva tutela de seus jamais poderá ser considerado impenhorável, sob pena de manifesta inconstitucionalidade, lesão a direitos fundamentais do autor, bem como violação ao relevante interesse público da efetiva prestação jurisdicional.129

Veja-se o absurdo que é entender impenhorável parcela excedente de rendimentos que se destinam à manutenção de alto padrão de vida, como viagens ao exterior, restaurantes caros, cirurgias plásticas e outras aquisições proporcionadas pelo capitalismo, consumismo e publicidade. Tais parcelas não podem ser consideradas impenhoráveis em detrimento de quem está em busca de seus direitos. Isso é manifesto, de clareza solar, mas o Brasil persiste nessa inconstitucionalidade. O magistrado necessita estar sensível ao tema e declarar essas inconstitucionalidades no caso concreto, por intermédio do controle difuso de constitucionalidade. Visivelmente, os que possuem maior poder aquisitivo estão beneficiados indevidamente com a impenhorabilidade absoluta de salários. Trata-se de privilégio condenável em detrimento de quem já sofreu danos morais e materiais.

O causador de danos, o devedor renitente não pode continuar seu alto padrão de vida130 sem recompor direitos por ele violados, e isso é elementar, mas a cultura jurídica elitista se nega a visualizar o que está claro.

As leis de impenhorabilidade de salários sem a devida limitação, que ensejam proteção de altos rendimentos, merecem ações diretas de

127 CARUSO PUCHTA, Anita. Penhora de salários e direitos fundamentais. Obra citada, p. 452.

128 NASCIMENTO, Bruno Dantas; KÖHLER, Marcos Antônio. Aspectos jurídicos e econômicos da impenhorabilidade de salários no Brasil, p. 444.

129 CARUSO PUCHTA, Anita. Obra citada, 455.

130 “A utilização do padrão de vida pessoal do devedor como critério é método interpretativo absolutamente equivocado, para nortear o entendimento sobre a impenhorabilidade, pois, como é sabido, é crescente e constante, especialmente nas classes média e alta, a pressão exercida pelos meios de comunicação, que, lançando mão da técnica publicitária das “necessidades criadas”, faz com que se incorporem ao sentimento de bem-estar do ser humano sempre mais e mais bens.

Ademais, a adoção de critério como esse, parece de algum modo violar o princípio da igualdade, na exata medida em que privilegia os já privilegiados, permitindo que mantenham padrão de vida superior ao da média da população, em detrimento de seus credores e, em última análise, da efetividade do sistema jurídico”. (WAMBIER, L. R. Anotações sobre a crise do processo de execução:

algumas sugestões voltadas à sua efetividade. Obra citada, p. 247-254).

inconstitucionalidade, ou seja, controle abstrato, bem como controle difuso, ou seja, também no caso concreto deve ser argüida a inconstitucionalidade dos dispositivos que ensejam privilégios inaceitáveis no ordenamento.131 Na realidade, a ausência de limitação da impenhorabilidade constitui omissão legislativa, sendo que o juiz, no caso concreto, pode supri-la em respeito ao direito fundamental de ação, dignidade humana da vítima de ilícitos e tutela de direitos.