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São usados muitos artifícios pelos que defendem o possuidor de dinheiro em conta, ou seja, pelos que não desejam a efetiva satisfação tempestiva do crédito, dimensionam amplamente o artigo 620 do Código de Processo Civil109, que prevê a menor onerosidade para o devedor. Propositalmente ou não, esquecem-se de cotejá-lo com o art. 613110 e 655 do mesmo código, os quais que prevêem execução a ser realizada no interesse do credor111 e dão preferência à penhora de dinheiro do executado, ou seja, a exegese deles é isolada e sem sistematização, sempre em favor do capitalista,112 e também como forma de procrastinação e descaso com a sentença judicial transitada em julgado.

Dinamarco entende que “A triste realidade da execução burocrática e condescendente, que hoje se apresenta como um verdadeiro paraíso dos maus pagadores, impõe que o disposto no art. 620 do CPC seja interpretado à luz da

109 Art. 620 do CPC “Quando por vário meios o credor puder promover a execução, o juiz mandará que se faça pelo modo menos gravoso para o devedor”.

110 “Ressalvado o caso de insolvência do devedor, em que tem lugar o concurso universal (art. 751, III), realiza-se a execução no interesse do credor, que adquire, pela penhora, o direito de preferência sobre os bens penhorados”. (Grifou-se).

111 A execução é feita no interesse do exeqüente e não do executado. J. 18.03.99. Ministro Garcia Vieira. Medida Cautelar MC 488. 1ª Turma. STJ.

112 Há exceções, como se pode verificar da seguinte decisão do Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira: A interpretação da lei processual, no tocante ao processo executivo, deve levar em consideração a harmonia entre o objetivo de satisfação do crédito e a forma menos onerosa para o devedor. A conciliação desses dois princípios contrapostos é que deve nortear a solução de cada caso concreto e mediar a aplicação dos arts. 655,656 e 620 do Código de Processo Civil. Ao escolher os bens para a penhora, o oficial de justiça deve adequar os interesses contrapostos de menor onerosidade para o devedor e de satisfação do interesse do credor, que limitam a sua liberdade de escolha, devendo atentar, sempre que possível, para a gradação legal. (Grifou-se). (Rel. Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. 4ª. Turma. J.13.09.2000, Resp. 264495, DJ 16.10.2000 p. 318 RSTJ vol 139, p. 395).

garantia do acesso à justiça, sob pena de fadar o sistema à ineficiência e pôr em risco a efetividade dessa solene promessa constitucional (CF, art. 5º, XXXV)”.113

É um descaso com o titular de direitos que possui um título judicial para executar, como também com a jurisdição e, em última análise, com o estado democrático de direito, pois este visa a isonomia, jamais a potencialização de desigualdades, por intermédio do Poder Judiciário.

Potencializar muito “a menor onerosidade para o devedor” é chegar ao extremo de entender que a satisfação do credor seria um interesse menor, ou seja, um interesse secundário. Em suma, qualquer penhora traz onerosidades, gravames, mas tais inconvenientes são imprescindíveis para a tutela de direitos do credor.

Quem não deseja ter diminuição patrimonial não pode causar danos a outrem, isto é básico, mas os que exageram na proteção de quem lesiona outrem parece esquecer-se desse manifesto detalhe.

Paulo Henrique dos Santos Lucon afirma:

Ainda sobre a questão de a execução desenvolver-se no interesse do credor, é importante salientar que o executado está em uma posição de sujeição na execução, pois toda atividade é preordenada de modo a agredir seu patrimônio com vistas a atingir-se a satisfação.114

Portanto, maximizar o princípio da menor onerosidade é tentar subverter a ordem legal de preferência de dinheiro115, como também destruir todo o sistema processual relativo à execução. Em suma, potencializar ao extremo o princípio da menor onerosidade é aniquilar princípios preponderantes do ordenamento jurídico e propiciar uma execução sem resultados.

Os “protetores” do devedor renitente realizam interpretações altamente extensivas e temerárias a artigos constitucionais sobre privacidade, sigilo de dados e também a normas legais sobre sigilo bancário, sendo que a penhora de dinheiro e a atual penhora eletrônica não ofendem e jamais ofenderam tais direitos.

113 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil, p. 58.

114 LUCON, Paulo Henrique dos Santos. Art. 612. In: MARCATO, Antonio Carlos (Coord.).

Código de processo civil interpretado. São Paulo: Atlas, 2004. p. 1815.

115 Neste sentido,veja o entendimento do STJ “O princípio segundo o qual a execução deve realizar-se da forma menos onerosa possível para o devedor não tem o condão de subverter o procedimento contemplado em lei, um dos sustentáculos do devido processo legal. (Ac. Unân. da 4ª.

T. do STJ no Rec Esp 1813, relator Ministro Sálvio de Figueiredo: DJ: 19.03.90).

A diferença é que atualmente ela é eficaz, mas com ofícios no papel, era morosa e ensejava saques do valor em conta bancária antes do bloqueio, ou seja, antes da decretação da indisponibilidade da pecúnia.

Portanto, a atual simplificação e funcionalidade e rapidez da penhora on-line é o motivo de tanta polêmica e inconformismo dos que estavam habituados à não efetiva tutela executiva processual, pois agora a penhora de dinheiro, auxiliada pela comunicação e bloqueio eletrônicos, tem funcionalidade e resultados efetivos, e cresce numericamente a cada ano, conforme relatório estatístico do Banco Central do Brasil.

Vale tudo para livrar-se da penhora de dinheiro, mas tudo tem limite, e a jurisdição não pode se quedar inerte a tal problemática, visto que o direito processual civil e o processo de execução necessitam ser interpretados à luz da Constituição e dos direitos fundamentais, em especial da dignidade humana.

Exageros necessitam ser evitados. Evitar excessos e insuficiências constituem sabedoria prática (phronesis) já difundida há mais de 2300 anos na visão filosófica aristotélica.116 Realmente, ceder às pressões do detentor de dinheiro em conta e proteger demasiadamente o devedor renitente é um excesso que necessita ser evitado. Ensejar também que a vítima de ilícitos reste sem a efetiva tutela de seus direitos é insuficiência jurisdicional condenável.

Por outro lado, é necessário respeitar a dignidade humana, princípio inserido nas normas sobre impenhorabilidade de bens. O meio termo, o equilíbrio, a eqüidistância entre os extremos, é satisfazer o crédito plenamente, com garantia de direitos fundamentais, em especial o direito fundamental de ação e a dignidade humana, tanto do devedor como do credor!

Veja-se que o extenso rol de bens impenhoráveis já exagera ao proteger o devedor em seu direito fundamental da dignidade humana e a execução pessoal, ou seja, responder com seu próprio corpo por dívidas é fato do passado remoto. Não são necessários, atualmente, tantos expedientes de proteção ao devedor inadimplente que causa danos a outrem e/ou não paga suas contas. No sistema atual brasileiro, somente é possível prisão civil em caso de devedor de pensão alimentícia e depositário infiel.

116 Aristóteles. Ética a Nicômaco. Bauru, p. 79.

É tanta a facilidade de acesso à técnica eficaz aos que possuem dinheiro em conta, que potencializam efeitos dos reduzidos artigos de lei em favor do devedor inadimplente, aniquilam ou minimizam os efeitos de vários artigos a favor do credor titular de direitos fundamentais lesados.

A consciência dos operadores em afastar as interpretações extensivas e inadequadas ao princípio da menor onerosidade, a flexibilização das impenhorabilidades nos moldes de outros países com vista a sua constitucionalidade e a conseqüente sedimentação da penhora de dinheiro on-line contribuirão fortemente para amenizar a crise da execução, observância de direitos fundamentais e para garantir a integridade da ordem jurídica brasileira.

7 PENHORA PARCIAL DE SALÁRIOS E DIGNIDADE HUMANA