ANTROPOLOGIA Doutrina do Homem
7. Cristo, a Imagem do Deus Invisível (Cl 1.15)
Uma vez que "Cristo é o primogênito de toda a criação", devemos entender o ato criativo de Deus como o modo de fazer uma nova criação espiritual "em Cristo Jesus". Jesus foi, em sua manifestação física, a verdadeira imagem de Deus, i.e., o reflexo daquilo que Deus queria para nós, criaturas humanas.
Devemos distinguir entre uma imagem divina que perdemos pelo efeito do pecado e uma imagem divina que, apesar do pecado, permanece em nós. Ao falarmos da "imagem divina" que o homem perdeu, referimo-nos à perda daquela condição de santidade e glória originais. Quanto ao aspecto da imagem de Deus que permanece em nós, apesar do pecado, referimo-nos ao fato de que o homem ainda tem condições racionais para rejeitar o mal e escolher o bem. Ele não se tornou, de modo algum, um ser irracional. Certas ações do homem são como as dos irracionais, mas ele as pratica de modo consciente e sabe o que deve e o que não deve fazer.
O Novo Testamento apresenta ao homem a possibilidade de recuperação através do novo nascimento em Cristo Jesus (Ef 4.24; Cl 3.10; Rm 8.29). Portanto, o novo homem é criado em Cristo, segundo Deus, e é renovado "segundo a imagem daquele que o criou". Essa recuperação é, de fato, uma nova criação (2Co 5.17; Gl 6.15) que precisa ser vigiada, desenvolvida e amadurecida na experiência cristã cotidiana.
A Criação do Homem
1 A Doutrina da Natureza do Homem
Os três temas mais atacados pelas seitas são a Trindade, a Natureza do Homem e o Inferno. Um estudo sistemático sobre estes assuntos haverá de equipar melhor o aluno para o estudo das seitas.
2. O Monismo
O monismo, também uma cosmovisão, remonta "aos filósofos pré-socráticos que apelavam a um único princípio unificador para explicar toda a diversidade da experiência observada". No entanto, pode adotar um enfoque muito mais estreito e o faz quando se aplica ao estudo dos seres humanos. Os monistas teológicos argumentam que os vários componentes dos seres humanos descritos na Bíblia perfazem uma unidade indivisível e radical. Parcialmente o monismo era uma reação neo-ortodoxa ao liberalismo, que havia proposto uma ressurreição da alma, mas não a do corpo.
Os monistas defendem que, onde o Antigo Testamento emprega a palavra "carne" (basar), os escritores no Novo Testamento aparentemente empregam tanto "carne" (sarx) quanto "corpo" (soma). Qualquer desses termos pode referir- se ao ser humano inteiro porque, nos termos bíblicos, ele era considerado um ser unificado. Segundo o monismo, pois, devemos considerar o ser humano como um todo unificado, e não como vários componentes que podem ser individualmente identificados e classificados. Quando os escritores sagrados falam de "corpo e alma..." deve-se considerar uma descrição exaustiva da personalidade humana. No conceito do Antigo Testamento, cada pessoa individual "é uma unidade psicofísica, carne animada pela alma".
A dificuldade do monismo, obviamente, é o fato de não deixar lugar para um estado intermediário entre a morte e a ressurreição física no futuro. Esse ponto de vista discorda de numerosos textos bíblicos. Jesus também faz clara referência ao corpo e à alma como elementos divisíveis quando adverte: "Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma" (Mateus 10.28).
Existem ainda duas outras correntes teológicas de interpretação para a composição físico-espiritual do ser humano. Essas correntes de interpretação se identificam como dicotômica e tricotômica.
3. A Dicotomia
Esta palavra significa duas partes ou divisões. Esta teoria é seguida por um grande número de teólogos: que o homem se compõe de duas partes ou divisões: a material e a espiritual. Mesmo sobre esta teoria dicotômica há pontos de vista diferentes. A corrente mais forte da teoria dicotômica é a que considera o homem composto de duas substâncias: a material e a imaterial. Alma e espírito são, nessa teoria, a mesma coisa. Usam vários textos bíblicos que são empregados na Bíblia representando a parte imaterial do homem e que, segundo eles, parecem transmitir a mesma idéia. Para os defensores desta corrente, a alma aparece como espírito e vice-versa, e apegam-se aos seguintes versículos: Mt 10.28; At 2.31; Mc 8.12; Jo 11.33; 12.27; 2Co 7.13; 1Co 16.18. Estes textos são atribuídos à alma e ao espírito como tendo as mesmas funções. Entretanto, se estudarmos o assunto à luz do contexto escriturístico e doutrinário, perceberemos facilmente a diferença.
4. A Tricotomia
Corpo, Alma e Espírito. O conceito popular da constituição dos seres humanos é dualístico: alma e corpo. Segundo este pensamento a alma é a parte espiritual invisível,
interior, enquanto que o corpo é a parte material visível, exterior. Embora haja alguma verdade nisso, ela não é, todavia, precisa. Tal opinião procede do homem caído, não de Deus; à parte da revelação de Deus, nenhum conceito é digno de confiança. Que o corpo é o revestimento exterior do homem é, sem dúvida, correto, mas a Bíblia nunca confunde espírito e alma como se fossem idênticos. Não somente são diferentes em termos, mas suas próprias naturezas diferem entre si. A Palavra de Deus não divide o homem em duas partes, i.e., corpo e alma. Ela trata o homem antes como sendo tripartido: espírito, alma e corpo. Assim, lemos em 1Ts 5.23: "E o próprio Deus de paz vos santifique completamente; e o vosso espírito, e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo". Este verso mostra precisamente que o homem todo é dividido em três partes. O apóstolo Paulo refere-se aqui à santificação completa dos crentes dizendo "vos santifique completamente". Como, segundo o apóstolo, uma pessoa é santificada completamente? Pela conservação do seu espírito, alma e corpo. Por isso podemos facilmente entender que a pessoa toda abrange essas três partes. Esse verso faz também uma distinção entre o espírito e a alma, senão Paulo teria simplesmente dito "vossa alma". Visto que Deus distinguiu o espírito humano da alma humana, nós concluímos que o homem é composto não de duas, mas de três partes: espírito, alma e corpo.
Será assunto de qualquer consequência dividir espírito e alma? É uma questão de suprema importância, pois afeta grandemente a vida espiritual de um crente. Como um crente pode entender a vida espiritual se não sabe qual é a extensão da esfera do espírito? Sem tal entendimento, como ele pode crescer espiritualmente? Falhar em distinguir o espírito da alma é fatal para a maturidade espiritual, e por isso permanecem num estado pertencente à alma, não buscando o que é realmente espiritual. Como escaparemos do prejuízo, se confundirmos o que Deus separou?
O conhecimento espiritual é muito importante para a vida espiritual. Devemos acrescentar, entretanto, que é igualmente importante, se não mais, que o crente seja humilde e esteja desejoso de aceitar o ensino do Espírito Santo. Se assim for, o Espírito Santo lhe concederá a experiência da divisão do espírito e alma, mesmo que ele não tenha muito conhecimento a respeito desta verdade. Por um lado, o cristão mais ignorante, sem a menor idéia da divisão do espírito e alma, mesmo que ele não tenha muito conhecimento a respeito desta verdade. Por um lado, o cristão mais ignorante, sem a menor idéia da divisão do espírito e alma, pode, contudo, experimentar tal divisão na vida real; por outro lado, o crente mais informado e completamente versado na verdade concernente ao espírito e alma, pode, não obstante, desconhecer tal experiência. O ideal é que a pessoa possua tanto o conhecimento como a experiência. A maioria, entretanto, carece de tal experiência. Portanto, no início, é bom conduzi-los no conhecimento das diferentes funções do espírito e alma, para depois encorajá-los a buscar o que é espiritual.
Outras porções das Escrituras fazem a mesma diferença entre espírito e alma. "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração" (Hb 4.12). O escritor, neste verso, divide os elementos não corpóreos do homem em duas partes: "alma e espírito". A parte corpórea é aqui mencionada como que incluindo as juntas e medulas - órgãos de movimento e sensação. Quando o sacerdote usa a espada para cortar e dissecar completamente o sacrifício, nada no interior pode ficar escondido. Cada junta e medula é separada. Da mesma forma o Senhor Jesus usa a Palavra de Deus em Seu povo para separar completamente, para penetrar até à divisão do que é espiritual, da alma e do físico. Visto que alma e espírito
podem ser divididos, conclui-se que eles devem ser diferentes em natureza. Aqui é evidente, portanto, que o homem é um composto de três partes.