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CAPITULO II: FUNDAMENTOS TEORICOS

1.2 Cultura Matristica

Outro conceito que se apresenta para minha analise nesta tese é a cultura matristica, uma vez que ele envolve características que fundamentam a necessidade de vincular os atos educativos num sentido “mais humano”. Sendo a Cultura Corporal o conteúdo da Educação Física escolar, o conceito cultura aparece aqui como chave para compreender o desenvolvimento humano, precisamente como um processo construído historicamente e que caracteriza a nossa existência como sociedade e individuo. E em relação ao conceito cultura, amplamente desenvolvido por diversos autores, escolhi falar sobre aquela que Maturana trata nas suas obras, uma vez que aparece como uma forma de explicar os conflitos de poder e hierarquia.

Maturana (2007), fala de uma cultura matristica na qual a mulher tem uma presença mística que implica a coerência sistêmica de aconchego, fora do autoritarismo e do poder hierárquico. Esse conceito é contrario à palavra matriarcal, significando esta última, o mesmo que o conceito patriarcal, em uma cultura na qual as mulheres têm o rol dominante. O conceito matristica é usado para referir-se a uma cultura na qual, homens e mulheres podem participar de um modo de vida centrado na cooperação sem lutas de poder, precisamente porque a figura feminina representa a consciência não hierárquica do mundo natural à qual pertencemos os seres humanos, em uma relação de participação e confiança.

Segundo Maturana, o pensamento patriarcal é essencialmente linear e se localiza em um contexto de apropriação e controle, e se dirige primariamente para a obtenção de algum resultado particular porque não atende às interações da existência. O pensamento matrístico, pelo contrário, tem lugar em um contexto de consciência da inter-conectividade de toda a existência, e, portanto, não pode senão viver continuamente no entendimento implícito de que todas as ações humanas têm sempre conseqüências na totalidade da existência.

A relação desse conceito com os atos educativos está na relevância que nossas atitudes têm para nossos alunos, já que ser matrístico implica o respeito por si mesmo e respeito aos outros, principalmente entendendo que as ações humanas existem numa rede dinâmica de conversações (os gestos ou a linguagem corporal de interação que permite a comunicação) estabelecidas emocionalmente e orientadas culturalmente.

Essa cultura matristica nos permite respeitar as diferenças e respeitar o outro como legitimo outro, unificando as ações humanas no equilíbrio das responsabilidades compartilhadas, já que ela existe na cooperação e não na dominação. Na prática, o respeito do legitimo outro existe quando o professor corrige o “fazer” do aluno evitando criticar seu “ser”.

Com relação à Educação Física escolar, uma aula que orienta os conteúdos pelo gênero dos alunos e determina atividades diferentes para meninos e meninas, formatando dessa maneira comportamentos masculinos e femininos, alimenta o preconceito de “forte” (homem) e “fraco” (mulher), já que supostamente as meninas não poderiam realizar atividades consideradas masculinas e os meninos não deveriam realizar atividades consideradas femininas.

Nesse sentido, segundo Daolio (2004, p.109), pode-se afirmar que há uma construção cultural do corpo feminino diferente da construção do corpo masculino. Isto nos leva a reforçar comportamentos de obediência e poder, nos quais as atitudes de aconchego, ternura, carinho, afetividade e amor, ficam caracterizados como condutas femininas e se estimulam nos homens as atitudes de força física e proteção da prole, características próprias da cultura patriarcal, na qual as relações humanas existem em uma ordem de autoridade, poder e obediência. A cultura matrística evita a luta pela dominação e o poder, porque ela não está centrada no controle e na apropriação. Ela é aceitação mútua no compartilhar e na cooperação, na participação, no auto-respeito e na dignidade, em um conviver social que surge e se constitui no viver em comunidade cooperando com os outros para o próprio desenvolvimento.

O professor, e, nosso caso, o professor de Educação Física, deveria ofertar um meio ambiente matrístico, no espaço de vivência das aulas (Pérez Gallardo et. al. 2003), de tal forma que cada um dos seus alunos seja respeitado em suas características individuais, e que todos os alunos possam vivenciar em liberdade as emoções próprias da sua idade. Segundo o autor, a Educação Física escolar deve considerar na aplicação de conteúdos, a cultura patrimonial do aluno, começando pelas características, costumes e tradições da família.

Dessa forma, considerando nossa natureza e respeitando os valores culturais, colocando nas aulas vivências sócio-afetivas, estaremos contribuindo na formação humana de nossos alunos.

A questão cultural faz referência a valores. E cada sociedade estabelece os próprios de acordo a costumes e crenças desenvolvidas historicamente. Nesse sentido é importante que o educador leve os alunos a reconhecer esses valores orientando-o no respeito dos mesmos em relação a outras manifestações sócio-culturais. Com relação a isto é importante lembrar o que nos fala Medina (1983, p.24): O homem só poderá crescer – isto é, ser cada vez mais – através da expansão gradual e contínua da percepção de si em relação a si mesmo, e em relação aos outros, em relação ao mundo.

Alias, segundo o professor Humberto Maturana (1999): Os problemas da adolescência não são conflitos de cambio psicológicos; são câmbios de cultura que surgem ao passar de uma cultura a outra que a nega completamente, (de uma cultura matristica a uma vida adulta patriarcal).

O conceito cultura também é analisado por Neira e Nunes (2006, p.209) quando dizem: A expressão ‘cultura corporal’, apesar de bastante disseminada no meio acadêmico, é pouco compreendida no âmbito profissional da Educação Física.

Os autores também fazem referencia à abordagem crítico-superadora, defendida por Soares et. al. (1992, p. 212), enfatizando que o que lhes parece fundamentalmente importante na perspectiva desses autores é a preocupação em possibilitar uma visão ao aluno e/ou aluna, capaz de fazê-lo compreender a dinâmica das relações sociais nas quais está inserido.

Importante ressaltar aqui o que Maturana (2007, p.262) responde frente à pergunta: dá o mesmo qualquer viver cultural?

Não, não dá no mesmo. (...) O único viver cultural no qual se é pessoa, no qual se pode ser responsável do próprio fazer, no qual se é espontaneamente ético, é o que surge na epigeneses do viver na matriz biológica da existência humana a qual é a relação amorosa materno-infantil na total aceitação e desfrute da cercania corporal na brincadeira. Quando isto não acontece na infância, tem que se dar, seja de uma maneira acidental, seja intencional, uma relação que crie com algum adulto um conviver equivalente (...).

Finalmente, cultura, Educação Física, formação humana e matristica são conceitos que deveriam morar juntos na pedagogia de qualquer professor, uma vez que é difícil educar sem o auxilio de tais conceitos, pelo menos no sentido da minha tese.