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Capítulo I. Barbara Medea:

2. Cum Medea proles necauerit

Que foi Eurípides quem fez Medeia matar os filhos parece ter sido um fato incontestável entre os escoliastas e os comentadores da Antiguidade. Afinal, até chegar sua vez de encenar sua narrativa, a tradição literária só já a havia feito matar Pélias e o irmão Absirto – e, ainda assim, com muitas variantes que ressalvavam ou até mesmo afastavam esses crimes. Quanto às crianças, como já no epos de Êumelo, elas de fato haviam morrido na versão coríntia, mas sem que para tanto incorresse qualquer culpa da estrangeira. Medeia apenas as ocultava no templo de Hera Akraia, lograda, porém, pela deusa que lhe prometera a imortalidade para os filhos, mas que os deixara morrer como parte da vingança exigida por seus ciúmes, já que Zeus, seu marido, havia tentado seduzir a princesa colca. Parmenisco, o gramático do século II a.C. e escoliasta da Medeia de

96 CHEVITARESE, André L.; GUEDES, Carolina. Magia e Infanticídio nas Representações de Medeia em Eurípides e nos Vasos Gregos do Sul da Itália de Figuras Vermelhas. In: THEML, Neyde; BUSTAMANTE, Regina M.; LESSA, Fábio (ed.). Olhares do Corpo. Rio de Janeiro: Ed. Mauad, 2003. p. 18-21.

Eurípides, forneceu uma versão em que as verdadeiras assassinas teriam sido as mulheres coríntias. Isso porque essas, não querendo aceitar uma maga estrangeira como governante de sua pólis, haviam tramado contra Medeia, matando seus quatorze filhos – sete de cada sexo. Foi esse mesmo escoliasta que disse que as crianças haviam se escondido da fúria das mulheres coríntias, na condição de suplicantes, no templo de Hera Akraia, mas que, embora estivessem sob o abrigo do altar, haviam sido assassinadas pelas mulheres da cidade, em repulsivo e injusto crime. Ainda de acordo com essa versão, a cidade foi por isso amaldiçoada e varrida por uma peste. Desesperados, então, seus habitantes consultaram o oráculo, que vaticinou que a peste apenas teria fim com a instituição de um culto anual em desagravo às mortes injustas dos filhos de Medeia. Consistia o ritual em sete meninos e sete meninas da aristocracia coríntia prestarem serviços religiosos de culto às crianças mortas, com incontáveis sacrifícios e procissões97. Trata-se de uma versão que coincide, ao menos no tocante aos infanticídios, com aquela tradição relatada por Pausânias. Na descrição que fez de Corinto, ao falar do poço de Gláucia, onde a filha de Creonte teria se jogado para apagar o fogo trazido pelas ervas da feiticeira, o viajante grego noticiou sobre a existência ali do túmulo dos filhos de Medeia, junto do qual os Coríntios realizavam anualmente uma procissão, e onde os filhos dos aristocratas, vestidos de negro, depunham sacrificialmente as mechas de seus cabelos. Nessa versão, os filhos de Medeia seriam Mérmero e Feres, e teriam sido apedrejados pelas mulheres coríntias pela razão de terem levado os presentes nefastos que mataram Gláucia e Creonte. As motivações que Pausânias deu para o crime diferem, portanto, daquela indicada por Parmenisco, embora as consequências se aproximem. No relato de Pausânias, a peste também campeou pela cidade; e os sacrifícios anuais foram instituídos pelo oráculo. Contudo, sua versão forneceu mais um detalhe – uma estátua do Terror, representado por uma velha assustadora, junto à qual eram

97 PARMENISCUS. Escólio a Medeia 264. Parmeniskos writes word for word the following: The Corinthian women, not wishing to be ruled by a foreign woman and sorceress, plotted against her and killed her children, seven boys and seven girls. (But Euripides says she only had two.) They were being pursued and fled into the temple of Hera Akraia and sat as suppliants at the altar. Even so the Corinthians did not keep their hands off them but slit all their throats right on the altar. A plague fell upon the city and many people perished of the disease. When they consulted the oracle the god told them to expiate their guilt for Medea's children. And so up to our own times every year seven boys and seven girls of the most notable citizen families among the Corinthians spend a year in the goddess'

oferecidos sacrifícios até a cidade ser arrasada pelos romanos98. Assim, em uma radical inversão da tradição, Medeia ligar-se-ia à proteção das crianças, na condição apotropaica de afastar delas o mal.

A atribuição do filicídio de Medeia à narrativa de Eurípides mais se afirma sabendo-se que esse tema não era estranho ao autor. Em As Bacantes, ele faria Agave matar o filho Penteu. Entretanto, a morte do tebano, ainda que contrária à natureza, não foi ali motivo de horror pela abominação do filicídio. Agave tornou-se uma desgraçada, mas apenas foi considerada como um instrumento de Dioniso – que julgava aquela morte justa e merecida por ser a retribuição a uma afronta ao novo deus, cujo culto havia sido perturbado e desrespeitado pelo príncipe99. Em Medeia, porém, como o assassinato dos filhos ligava-se à vingança pessoal; e como o crime abominável era a retribuição à afronta que ela sofrera, o filicídio transformou-se em um supremo horror, superior ao parricídio que ela inspirara nas pelíades e ao fratricídio que ela mesma cometera. O ato de Medeia era superiormente execrável, era a máxima transgressão à natureza à qual se chegava apenas no transe da inteira força da ira, quando a civilização se perdia e só restava a barbárie do estado inicial da alma – como mais uma vez, em direção contraposta, viu-se em Prometeu, na descrição da evolução dos homens a partir da selvagem inconsciência100. Afinal, tamanho amor defraudado, tantos sacrifícios desconsiderados e tantos penhores não resgatados somente conseguiriam ser ressarcidos pela mais excruciante dor a ser suportada por aqueles que a causaram. Somente tornando Jasão tão desgraçado quanto fora Cadmo, avô de Penteu, Medeia teria sua vingança

98 PAUS. 2. 3. 6-7: As you go along another road from the market-place, which leads to Sicyon, you can see on the

right of the road a temple and bronze image of Apollo, and a little farther on a well called the Well of Glauce. Into this they say she threw herself in the belief that the water would be a cure for the drugs of Medea. Above this well has been built what is called the Odeum (Music Hall), beside which is the tomb of Medea's children. Their names were Mermerus and Pheres, and they are said to have been stoned to death by the Corinthians owing to the gifts which legend says they brought to Glauce. But as their death was violent and illegal, the young babies of the Corinthians were destroyed by them until, at the command of the oracle, yearly sacrifices were established in their honor and a figure of Terror was set up. This figure still exists, being the likeness of a woman frightful to look upon but after Corinth was laid waste by the Romans and the old Corinthians were wiped out, the new settlers broke the custom of offering those sacrifices to the sons of Medea, nor do their children cut their hair for them or wear black clothes.

99 E. Ba. 1748-1750: Esta foi a causa/da morte de Penteu pela mão de parentes, ao mesmo tempo justa e contra a

natureza. In: EURÍPIDES. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. Tradução de M. G. Kury, Mário. Rio de

Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. p. 269.

100 A. Pr. 568-570: Falar-vos-ei agora das misérias todas/ dos sofrimentos mortais e em que circunstâncias/ fiz das

crianças que eles eram seres lúcidos,/ dotados de razão, capazes de pensar. In: ÉSQUILO, SÓFOCLES,

EURÍPÍDES. Prometeu Acorrentado, Ájax, Alceste. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. p.35.

saciada.

O filicídio integrou-se, pois, à narrativa de Medeia a partir de então. Daí, as repercussões deram-se de pronto a conhecer. Em Néofron, Medeia matou os filhos101 e recuperou o dom oracular ao ser procurada por Egeu para se aconselhar quanto à descendência102. Ela manteve o caráter humano típico da personagem construída por Eurípides antes do gesto fatal. A proximidade entre as tragédias dos dois autores foi tanta que, ainda na Antiguidade, levou à discussão da cronologia das peças, em busca da possível anterioridade da obra de Néofron sobre a de Eurípides. Não restam dúvidas, porém, de que a tradição da narrativa ficou assentada a partir de Eurípides103, afinal, ao menos a se crer em uma notícia final dos escoliastas de Medeia, os debates se concluiriam de forma fácil perante a informação de que a razão de Eurípides incriminar a colca teria sido um suborno que os coríntios lhe pagaram para atribuir à feiticeira a fama pelo crime que pesava contra as mulheres de Corinto104.

Ainda que a versão do suborno jamais possa ser confirmada por fatos, sendo por isso relegada à condição de anedota, pode-se seguramente reconhecer a importância que teve Eurípides para a nova representação artística de Medeia. Tanto que parece ter sido essa a versão utilizada pelo pintor de Íxion, na representação da ânfora do Louvre (figura 7). A cena recompõe o momento em que a mãe matou um dos filhos. Suas roupas definitivamente não são gregas: sob um peplos, ela usa uma túnica estampada de mangas compridas, à moda bárbara. Medeia segura o jovem pelos cabelos e o mata, com uma faca. Seu sangue esguicha e a face da criança revela medo. Em uma coluna ao fundo, Eros acompanha a cena, impassível diante do olhar com o pedido de misericórdia que lhe dirige o menino degolado, em provável acepção de inspirador dos atos da mãe.

Outro exemplo ainda mais marcante da nova feição bárbara de Medeia encontra-se no kratêr

101 Pelos relatos antigos, a Medeia de Néofron foi considerada anterior à de Eurípides. A Suda informava que esse poeta trágico fora quem primeiro introduzira no mito o papel do pedagogo e Diógenes Laércio disse que Eurípides teria seguido Néofron. Entretanto, o testemunho de Aristófanes, presente em As Rãs, v. 1419, o mesmo Eurípides declamou o primeiro verso de sua tragédia, o que seria um indício capaz de afastar essa hipótese. Cf. MELERO, Antonio. Op. Cit. p. 324.

102 EURIPIDE. Op. Cit. p. 112

103 BOEDEKER, Debora. Becoming Medea. Assimilation in Euripides. In: CLAUSS, James; J. JOHNSTON, Sarah I (ed.). Medea. Princeton: Princeton University Press, 1997. p. 127.

de colunas de Munique, do pintor do Mundo Inferior (figuras 8 e 9). Trata-se de uma cerâmica de c. 320 a.C., em que toda a saga trágica está representada. No centro (figura 8), sob a destacada moldura branca do palácio de Creonte, Gláucia tomba morta nos braços do pai encanecido. Ela fora envenenada pelos presentes que Medeia lhe enviara. Jasão, à direita, tenta sem êxito tomar-lhe da mão o diadema funesto. Abaixo, à direita (figura 9), Medeia, com uma espada em punho, está a ponto de matar um de seus filhos, enquanto Jasão tenta salvar o outro. Espera por ela, como um auriga, o próprio deus Sol, em seu carro puxado pelas serpentes.

Houve muitas outras Medeias trágicas gregas depois da de Eurípides, e todas elas, decerto, com alguma variante. Um exemplo dessas Medeias é a Mórsino. Sua popularidade foi suficientemente vasta para ser citada jocosamente n’A Paz, de Aristófanes105. Aristóteles mencionou

a Medeia de Cárcino para exemplificar a construção dos entimemas demonstrativos, provados por meio do uso de argumentos contrários. Ali, para se defender da acusação de infanticídio, Medeia teria alegado que não matara os filhos, porque, se pensasse em fazê-lo, antes mataria Jasão do que as crianças106.

Ao que se vê, a brutalidade assassina tornava-se o elemento central da narrativa em que se transformava o mito, e toda nova representação seria um esforço ou para afirmá-la ou para refutá-la. E Medeia, vestida de bárbara desde a representação de 431 a.C., transformava-se no símbolo de tudo aquilo de terrível e de amedrontador a que pode levar a desmedida humana provocada pelo ciúme e pela ira.

Sob esses limites, Medeia, tirando os coturnos para calçar os socos na Comédia Média, tornou-se objeto risível das inversões paródicas que, como em Estrátis, fizeram-na uma perfumista que gracejava contra a aparência física de Creonte, ou como Antífanes, que mostrara Pélias

105 Aristófanes. A Paz. 1009-1015: qu’ensuite εélanthios arrive trop tard au marcheν qu’il les trouve vendues, se lamente et chante une monodie de εedéeμ “Perdu, jê suis perdu! Car on me l’a volée en dês bettes couchée”ν et les gens de se gaudir! Cf. ainda a nota 3, ao verso 804: Mélanthios (cf. 1009) était sourtour acteur et avait joué le principal role dans Médée, tragédie de son frère où il avait chanté de sa “voix aigre” les monodies de Jason”.

106 Arist. Rh. 2.23: Outro tópico consiste em acusar ou defender-se a partir dos erros da parte contrária. Por exemplo,

na Medeia, de Cárcino, os seus acusadores acusam-na de ter matado os filhos, porque não se encontravam em parte nenhuma (o erro de Medeia consistiu em ter enviado os filhos para longe); mas ela defendeu-se argumentando que teria matado, não os filhos, mas Jasão, uma vez que teria sido um erro não o ter feito, se é que, na verdade, pensava fazer uma dessas duas coisas. Este tópico e esta espécie de entimema constituem toda a Arte anterior a Teodoro.

reclamando da temperatura do banho107.

Por fim, já bárbara e quase humana, perdendo os derradeiros resquícios de divindade em um mundo que deixava o platonismo em troca da Stoa, ela foi submetida ao derradeiro golpe da racionalização, na obra ora peripatética, ora estoica, de Palefato108. O divino poder sobrenatural da feiticeira foi ali inteiramente desmontado. Seus poderes mágicos transformaram-se em conhecimentos eminentemente humanos e em sabedoria prática médica. Mesmo o assassinato de Pélias foi reavaliado pelo mitógrafo. Medeia, que tinha por fama conseguir remoçar corpos velhos os cozendo com ervas, teria, na verdade, descoberto uma flor cuja virtude terapêutica era a de enegrecer cabelos brancos, conferindo a quem a usasse a aparência da juventude. Dizendo que Medeia tinha também inventado um processo de cura pela exsudação, chamado de calefação, e que resolvera usá-lo com Pélias, o autor afirmou que foi por não conseguir salvar o sogro que ela fora acusada de matá-lo. E explicou isso a partir da descrição do processo terapêutico que consistia em submeter o paciente a uma câmara de vapor quente. Porém, como a velhice e a fraqueza de Pélias tivessem impedido a cura, ele morreu; e os cidadãos de Iolcos, vendo o rei morto, o caldeirão, a lenha e o fogo, simplesmente concluíram pelo seu assassinato por cozimento, imputando-o erroneamente a Medeia109.