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Capítulo III. Barbara Medea et Barbari Romae:

7. Incognitae Medeae

Posteriores à de Sêneca, as duas trágicas Medeae latinas não sobreviveram – nem a de Lucano nem a de Curiácio Materno. Da primeira dá notícias Vacca, um gramático do século VI por cuja informação sabe-se que a única tragédia do mais jovem dos Annaei foi deixada incompleta, sendo por ele referida como uma tragoedia imperfecta539. No entanto, nenhuma indicação acerca de sua trama nem fragmentos de seus versos foram transmitidos, restando tão somente ao frágil

538 SEN. Med. 1018-1021: Misereri iubes./bene est, peractum est. Plura non habui, dolor, / quae tibi litarem.

539 VACCA: eius complures et alii, ut Iliacon, Saturnalia, Catachthonin, Silvarum X, tragoedia Medea imperfecta ....

exercício da suposição a reconstituição de qualquer sentido original do texto desaparecido. Porém, a referência à incompletude da obra permite supor que a época de sua composição tenha coincidido com o período da perseguição e com a morte de seu autor, no ano de 65 d.C., condenado ao suicídio como signatário na conjura de Pisão. Tal condição leva, porém, ao corolário de que, se composta depois da Medea de Sêneca, mister fora que a versão de Lucano apenas se empreendesse para refazer algum aspecto da tragédia homônima de seu tio; e que esse aspecto se relacionasse, de modo mais que verossímil, ao seu posicionamento político contrário à tirania do princeps e aos tempos neronianos. Medea, que servira a Sêneca de suporte simbólico para a descrição estoica da barbárie da alma e de contraexemplo teórico-poético do vir sapiens, pode ter sido recontada pelo anti- cesáreo autor da Pharsalia em contexto de instrumento ideológico de crítica ao regime imperial vigente, seja por meio da acentuação da tirania de Creonte, seja por intermédio da caracterização de Medeia como ainda mais bárbara e horrível do que normalmente se fazia, realçando não apenas seus atributos de feitiçaria, aos moldes daqueles sortilégios praticados pela bruxa Ericto no sexto livro da

Pharsalia, mas, sobretudo, ao reforçar os scelera possíveis e já existentes na tradição literária do

tema: o fratricídio e o duplo filicídio, como atos supremos de sua impiedade. A Medea de Lucano poderia, assim, potencializar-se, de modo a alicerçar o posicionamento do autor contrário a César e à dinastia júlio-claudiana, remontando, para tanto, à predileção do ditador pela colca. Entretanto, como a busca por esses indícios encontra-se impossibilitada pela inexistência atual da obra, apenas podem dar suporte a essa hipótese as raras ocorrências relativas à feiticeira da Cólquida existentes na Pharsalia. A primeira indicação do possivelmente novo caráter de Medeia pode ser extraída da heroica morte de Vulteio – o legionário de César cuja morte, provocada pelo ataque conjunto das tropas inimigas, foi comparada pelo poeta ao combate fratricida da coorte dirceia de Cadmo, às lutas entre os irmãos tebanos Etéocles e Polinices, e à mútua destruição dos terrígenos, plantados por Jasão em cumprimento da prova a ele imposta por Eetes e postos a guerrear entre si pelos encantamentos de Medeia540. À colca, portanto, foi imputada metaforicamente a causa das disputas

civis que dilaceravam Roma no final da República, sendo-lhe atribuído por Lucano, de modo expresso, esse crime abominável capaz de causar espanto até mesmo nela – expauit Medea nefas541.

Era a primeira aproximação possível de se estabelecer entre a princesa bárbara e o Ditador, considerando ambos responsáveis pelos funestos atos fratricidas, tema de todo epos de Lucano.

Por sua vez, sobre a natureza bárbara de Medeia, outra indicação existe na Pharsalia, dessa vez para realçar seus atributos de magia e, por conseguinte, sua feição bárbara. Trata-se da passagem existente exatamente na descrição dos interesses de Sexto Pompeu no tocante à feitiçaria, o que mais não faz do que ressaltar a natureza selvagem da colca por meio da descrição das ervas existentes na Tessália, presumivelmente não encontradas na ωólquida: “ali nascem muitas coisas capazes de empregar violência contra os deuses, e, nas terras da Hemônia, a estrangeira colca colheu ervas que não trouxera542”. Assim, Medeia foi alçada à condição de paradigma da feitiçaria.

Finalmente, a última recorrência ao nome da maga existente na épica de Lucano retomou a primeira linha argumentativa, no sentido mais uma vez de aproximar César e a princesa estrangeira. Desta vez, em uma referência direta ao tema, César, que havia tomado o jovem rei Ptolomeu como refém durante a cilada armada por Potino, foi comparado a Medeia, quando esta, perseguida pelas tropas do pai, teve junto a si Absirto, no momento em que segurava a espada para matá-lo e assim atrasar a perseguição do pai: “Assim, se crê que a bárbara colca, temendo o vingador do reino e da fuga, esperasse pelo pai ao mesmo tempo com sua espada e com a nuca do irmão preparada”543. Vê-

se que foi ressaltada não apenas a natureza bárbara da princesa colca, mas, sobretudo, foi evidenciado seu crime de fratricídio, a fim de dar realce ao ato de impiedade existente nos combates travados nas Guerras Civis, cujas piores consequências teriam sido o fim da República e o do advento do Império.

Contudo, toda essa argumentação elaborada na busca pela reconstrução do caráter da protagonista da tragédia de Lucano ganha consistência a partir da análise de outra estrangeira

541 LUC. 4.555-556: ipsaque inexpertis quod primum fecerat herbis/ expauit Medea nefas.

542 LUC. 6.440-442: Ibi plurima surgunt/ uim factura deis, et terris hospita Colchis/ legit in Haemoniis quas non

aduexerat herbas.

543 LUC. 10.464-467: Sic barbara Colchis/ creditur ultorem metuens regnique fugaeque/ ense suo fratrisque simul

referenciada na Pharsalia. Trata-se de Cleópatra. Lembre-se que essa aproximação já havia sido estabelecida desde a geração anterior, quando Virgílio compôs sua Dido, no canto IV da Eneida, tendo a rainha egípcia como possível modelo. Assim, a análise do perfil de Cleópatra talvez permita a inferência do caráter de Medeia, ao se atribuir a esta última a esperada semelhança literária com Cleópatra. É de se crer, portanto, que o tratamento despendido à colca deva tê-la considerado como uma ameaça ao mundo civilizado, do mesmo modo como a egípcia, que teria aumentado os furores hespérios, aterrorizado o Capitólio e perseguido as insígnias romanas544. Medeia deveria ser, então, algo como ωleópatra, ou uma espécie de “Erínia feral do δácio”545. E, por isso mesmo, se a egípcia

foi epicamente descrita, logo em sua apresentação na Pharsalia, como “pronta a conduzir (Augusto) ωésar (prisioneiro) nos triunfos fários”546, a princesa colca, do mesmo modo, deve ter ameaçado

muito mais a existência do mundo civilizado, representado ou por Creonte, como uma ameaça à casa imperial, ou por Jasão e sua descendência, como uma ameaça a todo o ocidente. Porém, dado o caráter soturno e cruel de Júlio César por todo o enredo da Pharsalia, e o tratamento nada benevolente emprestado a ele pelo poeta, presume-se também que Medeia tenha se tornado mais cruel e soturna na perdida tragédia, talvez evidenciando, além dos aspectos da magia, os atos de impiedade e de fúria, como os filicídios, como uma forma de acentuar a tirania de César e de sua dinastia, ou talvez sublinhando o fratricídio, como recordação das Guerras Civis e do fim da República.

Assim, ainda que em um exercício hipotético de reconstrução do sentido da tragédia de Lucano, é bastante convincente a compreensão de que de sua Medea tivessem sido retirados os traços de simpatia com que ela fora tratada no período republicano; e de que o perigo representado pelas suas afecções de ira e fúria houvesse perdido as justificativas e interpretações filosóficas, como na obra de Sêneca, para representar a crueza da selvageria bárbara que, afastando a civilização do convívio da humanitas, arrastaria os homens à destruição final e completa, como

544 LUC. 10.63-69: terruit illa suo, si fas, Capitolia sistro/ et Romana petit inbelli signa Canopo/ Caesare captiuo

Pharios ductura triumphos; / Leucadioque fuit dubius sub gurgite casus, / an mundum ne nostra quidem matrona teneret./ hoc animi nox illa dedit quae prima cubili/ miscuit incestam ducibus Ptolemaida nostris.

545 LUC. 10.59: dedecus Aegypti, Latii feralis Erinys. 546 LUC. 10.65: Caesare captiuo Pharios ductura triumphos.

apenas o fratricídio poderia alcançar, a exemplo da Pharsalia, que narra o fim da República nas Guerras Civis. Medeia, por fim, mais uma vez como um símbolo literário, deve ter respondido os questionamentos do jovem Lucano acerca do convívio com a barbárie invencível, pelo viés agora da reflexão sobre o poder.

Ainda desse período foi a outra Medea de que se tem apenas uma breve notícia547. Trata-se da obra escrita por Curiácio Materno, um orador que, no auge da carreira forense, teria decidido largar as atividades jurídicas pela vida de poeta548, mas que teria sido condenado à morte anos mais tarde por Domiciano, em razão de excessos de liberdade cometidos em seus discursos549. A essa tragédia perdida, porém, ainda menos acesso é franqueado que à peça de Lucano, dada a inexistência de outras obras do autor. Entretanto, pode-se inferir que algum conteúdo político fosse presente na intriga, ao menos pelas indicações dadas por Tácito acerca do Catão e do Tiestes, cuja leitura tanto teria incomodado os poderosos que motivara todo o Dialogus de Tácito. Entretanto, esse dado não se desenvolve e logo aborta, por completa falta de notícias acerca da datação da obra ou do contexto de sua elaboração. Pode-se tão só imaginar que Jasão ali tenha sido representado como exemplo de eloquência550, o que apenas reforça o posicionamento de Materno, dado o caráter sempre reprovável desse herói na porção trágica da fabula. Pode-se também imaginar que os excessos típicos da literatura praticada pela geração de Sêneca e de Lucano não estivessem presentes em sua versão, dado seu posicionamento contrário às incorporações da retórica ao gênero poético, quando ele próprio, no texto de Tácito, afirmou que: “o uso dessa eloquência lucrativa e sangrenta é recente e nascido da ruindade dos costumes” 551. Assim, pode-se crer que as cenas de

547 TAC. Dial. 3: "Adeo te tragoediae istae non satiant," inquit Aper "quo minus omissis orationum et causarum

studiis omne tempus modo circa Medeam, ecce nunc circa Thyestem consumas, cum te tot amicorum causae, tot coloniarum et municipiorum clientelae in forum vocent, quibus vix suffeceris, etiam si non novum tibi ipse negotium importasses, [ut] Domitium et Catonem, id est nostras quoque historias et Romana nomina Graeculorum fabulis adgregares.".

548 TAC. Dial. 4: Et Maternus: "perturbarer hac tua severitate, nisi frequens et assidua nobis contentio iam prope in

consuetudinem vertisset. Nam nec tu agitare et insequi poetas intermittis, et ego, cui desidiam advocationum obicis, cotidianum hoc patrocinium defendendae adversus te poeticae exerceo.

549 D. C. 67.12.5: Also Maternus, a sophist, was put out of the way because in a practice speech he had something

against tyrants.

550 TAC. Dial. 9: licet haec ipsa et quae deinceps dicturus sum aures tuae, Materne, respuant, cui bono est, si apud te

Agamemnon aut Iason diserte loquitur?

magia fossem menos dramáticas – ou menos sangrentas, conforme o uso do termo dado por Materno no Dialogus de Oratoribus – do que em Sêneca e que o filicídio não se desse no palco, de acordo com o que fora preceituado por Horácio no já citado verso 185 de sua Epistula ad Pisones:

Ne pueros coram populo Medea trucidet. Contudo, as feições bárbaras dessa Medeia não podem ser

imaginadas, uma vez que outra qualquer suposição careceria de fundamentos.