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III Capítulo

D ELIMITAR O O BJECTO DE E STUDO

Num texto datado de 1987, a que Théry regressa em 1993 para produzir uma versão mais sintetizada e revista do mesmo, a autora revisita a produção anglo-saxónica, em particular a abundante produção americana em torno da temática da recomposição familiar (Théry 1987, 1993b). Em sua opinião, são duas as dificuldades que se colocam a quem se propõe estudar este fenómeno, por um lado, a questão da denominação, por outro, a questão da definição do objecto de estudo em si mesmo. Estas dificuldades encontram-se, no entanto, interligadas entre si, uma vez que, no entender da socióloga, o problema da denominação está no centro de todo o trabalho de pesquisa associado à recomposição familiar. Assim, avança com a hipótese

de que aquilo que na literatura americana surge como uma progressiva problematização do objecto de estudo não passa afinal de um problema de denominação desse mesmo objecto. Em seu entender, é possível dividir em três grandes linhas de orientação os trabalhos americanos dedicados à temática da recomposição familiar depois de 1945: recasamento (anos 50-60); famílias reconstituídas (anos 70) e famílias (re)compostas (anos 80-90). Estas diferentes orientações, apesar de terem surgido em épocas distintas, convivem entre si na actualidade.

RECASAMENTO

Apresentando como pano de fundo o crescimento do número de recasados após divórcio e uma representação social do recasamento enquanto tentativa de institucionalização do desvio a que a condição de divorciado corresponde, no decurso da década de 50 os estudos de Smith (1953)24 e de Bernard (1956)25 inauguraram uma tradição de pesquisa denominada evolução comparativa. Este tipo de pesquisa procede, regra geral, à comparação das famílias de recasados com as famílias de primeiro casamento, tendo por base uma série de oposições binárias: casamento/recasamento, filho/enteado, pai/padrasto, etc., em que as diferenças são sistematicamente interpretadas como desvios.

Segundo Théry, os principais efeitos dos estudos desenvolvidos no âmbito da temática do recasamento são: i) confirmar os estereótipos dominantes em relação ao recasamento; ii) construir uma oposição norma-desvio; iii) e, por último, fazer desaparecer a especificidade e a heterogeneidade subjacentes às situações de recasamento uma vez que, para efeitos de comparabilidade, os recasados são todos agrupados no mesmo grupo, isto independentemente da origem da situação de recasamento (divórcio/ viuvez) e da existência ou não de crianças fruto de uniões anteriores (1987, pp.127-129).

De facto, tendo em conta que as situações de recasamento analisadas incluem, para além dos divorciados com filhos anteriores, os divorciados sem filhos e os viúvos, o estudo deste fenómeno parece não permitir captar toda a especificidade inerente às recomposições familiares por divórcio. Por outro lado, com o aumento do número de casais a viver em união de facto, o estudo do recasamento, enquanto união legítima, tornou-se insuficiente para dar

24 SMITH, William C. (1953), The Stepchild, Chicago, The University of Chicago Press. 25 BERNARD, Jessie (1956), Remarriage, New York, Dryden.

conta da diversidade inerente às situações de recomposição familiar após divórcio. FAMÍLIA RECONSTITUÍDA

Num tal contexto, o aparecimento da expressão reconstituted family no anos 70 deve-se, sobretudo, à vontade dos académicos em aprofundar o conhecimento em torno das especificidades associadas à recomposição familiar após divórcio, superando assim a confusão gerada pela associação entre as expressões stepfamily e recasamento. O termo famílias reconstituídas passa então a designar todas as famílias formadas após o divórcio que incluem um padrasto/ madrasta, independentemente do estado civil dos membros do casal (casados ou a viver em união de facto). Isto significa que os casais reconstituídos coabitantes passam também a integrar a análise da recomposição familiar.

As pesquisas desenvolvidas no âmbito desta perspectiva apontam para três grandes categorias de problemas tidos como específicos das famílias reconstituídas: i) a diversidade e a complexidade estrutural associada ao parentesco – a família reconstituída como família complexa; ii) a anomia – a família reconstituída como família anómica; iii) e, por último, a constituição de uma entidade familiar – a família reconstituída como uma família “de verdade” (Théry, 1993b, pp.10-13).

Em primeiro lugar, a complexidade das famílias reconstituídas está associada à forma como no seu interior se estruturam as relações de parentesco herdadas do passado. De facto, as crianças trazidas de um casamento/ união anterior podem ser do homem, da mulher ou dos dois e a estas podem ou não juntar-se as crianças comuns ao casal actual. Toda esta complexidade só se torna problemática ao ser acompanhada por uma relativa indefinição em relação aos novos papéis a desempenhar, destacando-se aqui o papel de padrasto/ madrasta (Théry, 1987, p.134).

Em segundo lugar, a anomia das famílias reconstituídas está relacionada com o facto das suas especificidades permanecerem como um espaço vazio no sistema dominante de representações e de normas, ou seja, com a sua incompleta institucionalização (Cherlin, 1987a [1978]), da qual os melhores exemplos são talvez o vazio que se verifica em duas das principais instituições do nosso tempo: o sistema de linguagem e o sistema legal.

Em terceiro e último lugar, a dificuldade associada ao processo de constituição de uma nova entidade familiar relaciona-se com dois riscos principais: a interferência do ex-cônjuge na família actual e a relação padrasto/ madrasta-enteados. Por um lado, é possível falar no risco associado à interferência da família do passado na família do presente através da figura do ex- cônjuge, uma vez que a sua presença pode pôr em causa a integridade e a autonomia do agregado doméstico recomposto. Por outro, há o risco associado ao desenvolvimento de uma relação entre padrasto/madrasta e enteados, em que a forma extrema de ameaça parece ser o perigo do incesto, que alguns consideram ser maior nas famílias reconstituídas dada a inexistência de laços de sangue a unir adultos e crianças.

Pondo em causa os resultados do estudo de Lucile Duberman (1975)26,Théry conclui que os trabalhos sobre as famílias reconstituídas vieram afinal confirmar o que os próprios contestavam na perspectiva da evolução comparativa casamento/ recasamento: a ideia de que as famílias reconstituídas são famílias com problemas e até mesmo de alto risco (1987, p.138).