II Capítulo
PENSAR A PARENTALIDADE RECOMPOSTA NUM QUADRO DE PLURALIDADE PARENTAL
É nos países anglo-saxónicos como, por exemplo, EUA, Canadá e Reino Unido que, em nome do interesse da criança na preservação da relação com as pessoas que lhe são significativas, se tem vindo a assistir a um movimento no sentido de institucionalizar a pluriparentalidade do ponto de vista do direito (Fine, 2002). No Reino Unido (Inglaterra e País de Gales), país onde a adopção de medidas específicas com vista ao reconhecimento legal das novas figuras parentais foi, até agora, mais longe, a introdução do Children Act, em 1989 (entrou em vigor em 1991), veio permitir o reconhecimento do padrasto/ madrasta enquanto figura parental adicional (Fine, 1997; Gorell et al., 1998; Fine, 2002).
Na perspectiva da recomposição familiar, a principal novidade introduzida pelo Children Act reside na possibilidade dada ao padrasto/ madrasta que durante, pelo menos, dois anos, tenha sido casado (de facto/ de direito) com um dos progenitores, de requerer uma residence order após o fim da conjugalidade. Isto independentemente da vontade do progenitor não residente. Para o efeito, a criança deverá ter menos de 16 anos de idade. Segundo as palavras de Mark Fine (1997):
“A residence order provides additional flexibility in that it provides an option that lies somewhere between no legal relationship and adoption. Unlike adoption, it also increases the number of adults who have parenting responsibilities, which is likely to provide additional support for stepchildren” (idem, p.261).
Deste modo, a lei passa a reconhecer o papel desempenhado pelas novas figuras parentais no quotidiano da criança, apontando para a institucionalização da pluriparentalidade18. Se o juíz autorizar a ordem de residência interposta pelo padrasto, este passa a ter os mesmos direitos e os mesmos deveres dos progenitores. Conforme escrevem Gorell et al. (1998):
18 No entanto, conforme destaca Fine (1997), trata-se de uma possibilidade que contempla todos os que mantêm
uma relação quotidiana com a criança baseada no desempenho de responsabilidades específicas, como é o caso da participação nos cuidados parentais. Dito de outro modo, o Children Act não se dirige especificamente às situações de recomposição familiar, embora se lhes aplique na perfeição. Neste âmbito, ainda, Gorell at al. (1998) mencionam que o Children Act assume que os progenitores são os principais responsáveis parentais pela criança, pelo que, o direito da criança à manutenção/ contacto com o progenitor não residente é sempre acautelado, independentemente das condições específicas da vida em contexto de recomposição familiar (idem, p.261).
“The Children Act also, for the first time, acknowledges the existence of stepparents and goes some way towards clarifying their legal status: whereas under previous legislation a stepparent had no legal status at all (...), stepparents (and others, such us unmarried fathers) are now often accepted informally in procedings, and are entitled to apply through the courts for 'parental responsability' which, if granted, gives them equal legal status to a biological parent” (idem, p.261).
Ou seja, passa a ser reconhecido como um parent de facto da criança, o que constitui uma mudança de fundo na organização do sistema de parentesco ocidental (Fine, 2002), caracterizada pela exclusividade associada aos laços de filiação (Théry, 1993a; Dèchaux, 1995; Fine, 2002).
“Ces droits et ces devoirs ne remettent pas en cause ceux des deux parents légaux de l'enfant. (...) des juristes font des propositions pour lui (beau-parent) attribuer le statut juridique de parent de facto, statut qui créerait pour lui des obligations spécifiques, proportionnelles au temps de la prise en charge matérielle de son bel-enfant. Ce serait une manière de reconnaître que le temps de la corésidence et la situation de père nourricier créent une sorte de parentalité entre adulte et enfant, qu'il faut reconnaître et dans une certaine mesure institutionnaliser dans l'intérêt de l'enfant” (Fine, 2002, pp. 38-39).
O reconhecimento legal das novas figuras parentais só foi possível devido à introdução na lei do conceito de parental responsability, cujo significado remete para o facto da parentalidade implicar responsabilidade contínua e permanente face à criança. Esta mudança determina que a criança deixe de ser encarada como uma propriedade dos pais, tal como pressupunha o conceito de custody anteriormente utilizado, e passe a ser vista como uma responsabilidade tanto dos pais como de todos aqueles que no dia-a-dia desempenham um papel parental face à mesma (Fine, 1997).
Para Singly(1996), a responsabilidade consiste em tornar um constrangimento de lugar numa decisão. No seu livro Le soi, le couple et la famille, o autor analisa a nova configuração do papel parental e defende que o postulado moderno de existência de uma personalidade latente na criança – postulado com origem na psicologia - tornou os pais e restantes pessoas próximas da criança responsáveis pela revelação do seu potencial, através da criação de condições propícias à actualização desse potencial, daí o recurso à expressão famille relationelle (Singly 1993, 1996). Ao afastar-se da defesa de um modelo moral, hierarquizado, imposto pelo adulto
à criança, que determina a conduta a seguir e a respeitar, a responsabilidade parental aproxima-se de um modelo onde a figura parental é encarregue de revelar os talentos escondidos na criança, bem como de promover as suas competências escolares. Daí a constante participação da criança em actividades extracurriculares e práticas culturais tidas como enriquecedoras, cujo principal objectivo é abrir o horizonte dos possíveis à criança. Neste sentido, a coerção dá lugar à confiança como base da relação entre pais e filhos. Hoje em dia, contudo, os pais são, muitas vezes, suspeitos de não saberem quais são as “verdadeiras” necessidades das crianças e daí o apelo constante aos diagnósticos dos especialistas – sociólogos; juízes; antropólogos e psicanalistas.
Contudo, apesar da imposição moderna do novo modelo de parentalidade centrado na componente relacional dos laços familiares (Singly, 1993) e na revelação do potencial da criança (Singly, 1996), persiste uma forte desigualdade no impacto e na acessibilidade à nova parentalidade tanto por parte dos indivíduos pertencentes a distintos meios sociais (Martin, 2003), nomeadamente os oriundos de contextos sociais desfavorecidos, como por parte das mulheres, sobre quem continua a recair o peso da responsabilidade parental face às crianças, nomeadamente em termos de prestação de cuidados primários no quotidiano.
O debate em torno da parentalidade, longe de se limitar a uma discussão entre especialistas - sociólogos; juízes; antropólogos e psicanalistas - a respeito das fronteiras entre parentalidade e parentesco, encontra-se assim estritamente ligado à controvérsia em torno de numerosos problemas sociais associados aos jovens, como é o caso da delinquência juvenil. Os pais são, muitas vezes, suspeitos de não saberem quais são as “verdadeiras” necessidades das suas crianças, cabendo-lhes a maior fatia da responsabilidade sempre que algo de mau acontece. Martin (2003) expõe bem esta questão ao afirma que:
“(...) une politique de ou pour la parentalité ne peut se limiter ni à un discours de dénonciation et de culpabilisation des parents, ni à l’énoncé de sanctions de leurs incapacités. Si les parents éprouvent des difficultés à jouer leur rôle, cela ne correspond pas nécessairement à une attitude de démission” (idem, p.53).
O autor defende, por isso, a necessidade de compreender a forma como no decurso da sua trajectória de vida os indivíduos elaboram um sentimento de competência e de
responsabilidade parental. Para o efeito, é necessário ter em atenção as condições de existência dos pais, bem como as práticas do exercício do papel parental. Mais que aplicar um manual acerca do modo como se deve ser pai e mãe, igual para todos, é tempo de ajudar os pais a construirem por si mesmos um sentimento de competência e de responsabilidade parental, através de uma reflexão aprofundada sobre os significados associados ao ser pai/ mãe (v. Capítulo III, neste trabalho).
Ao adaptar o trabalho desenvolvido por Finch e Mason (1993) em torno da negociação das responsabilidades familiares ao estudo das responsabilidades parentais, Martin (2003) menciona que é necessário adoptar uma perspectiva mais fluída do efeito das variáveis estruturais associadas à posição do indivíduo no espaço social, de modo a possibilitar a integração de uma dimensão dinâmica, processual e interactiva na construção do sentimento de responsabilidade parental. Neste sentido, o sociólogo francês propõe uma operacionalização do conceito de responsabilidade parental com base em três eixos analíticos principais: i) variáveis estruturais clássicas; ii) ciclo de vida individual; iii) delegação das responsabilidades parentais em terceiros. O último eixo analítico tem como principais componentes a socialização; a educação e a prestação de cuidados primários (caring). Ou seja, as componentes que no relatório Houzel (1999, citado por Neyrand, 2007) surgem associadas à dimensão objectiva da parentalidade, isto é, à prática da parentalidade.