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DISSOCIAÇÃO ENTRE CONJUGALIDADE E PARENTALIDADE

I Capítulo

DISSOCIAÇÃO ENTRE CONJUGALIDADE E PARENTALIDADE

A referência ao sentimento amoroso presente na recomposição familiar enquanto amor louco razoável introduzida por Le Gall (1993), permite passar do registo da conjugalidade para o da parentalidade, dada a relevância que os laços parentais têm na definição dos laços conjugais nas famílias recompostas. O pressuposto de que partem estas famílias é diferente do que marca as famílias simples de primeiro casamento, uma vez que os laços parentais antecedem os laços conjugais. No entanto, nos tempos que correm, com a mudança verificada na natureza das relações conjugais, é possível falar numa dissociação generalizada entre conjugalidade e parentalidade. A banalização do divórcio veio alterar o modo como as relações conjugais e parentais são vividas.

4 De acordo com os sociólogos franceses, enquanto a lógica da substituição caracterizaria os meios populares, a

No que diz respeito à parentalidade, se, no passado, a relação parental só era reconhecida em termos legais e sociais quando associada à relação conjugal, mais especificamente ao casamento, hoje em dia, ela é encarada como uma relação autónoma que, em nome do bem- estar da criança, deve existir por si só. Mas que repercurssões terá a contratualização inerente às relações conjugais contemporâneas nas relações parentais? Estará a dissociação entre conjugalidade e parentalidade a produzir alterações nas relações parentais contemporâneas? Se sim, em que sentido é que essas alterações estão a ser produzidas? E quais são os protagonistas afectados por esta mudança de paradigma?

Num estudo realizado por Skevik (2006) a respeito dos pais não residentes noruegueses, a autora chama a atenção para o paradoxo que caracteriza a paternidade contemporânea: por um lado, os homens são incentivados a envolverem-se cada vez mais com os seus filhos, nomeadamente através de políticas públicas de incentivo ao envolvimento paterno praticamente desde o momento em que a criança é concebida, por outro, crescem as situações de ruptura conjugal, pelo que há cada vez mais pais a viverem separados dos seus filhos no dia-a-dia. Tendo como principal objectivo encontrar os padrões de contacto entre os pais noruegueses não residentes e os seus filhos, Skevik questiona-se sobre aqueles que poderão ser os factores explicativos do ter muito contacto com os filhos e do ter pouco ou nenhum contacto com os filhos, os dois pólos opostos de um mesmo continuum – contacto dos pais não residentes com os filhos. A ideia não é explicar as variações ao longo desse continuum mas sim avançar com explicações que permitam perceber as diferenças, sociologicamente relevantes, entre os pais que têm muito contacto com os filhos e os que têm pouco ou não têm nenhum. Para o efeito analisaram-se cerca de 600 inquéritos5.

Skevik considera serem três as perspectivas teóricas que podem explicar os padrões de contacto entre os pais não residentes e as crianças após a ruptura conjugal. Cada uma destas perspectivas corresponde, em sentido lato, às perspectivas salientadas por Stephens6 (1996 citada por Skevik, 2006, pp.117-121), estando ao mesmo tempo ligadas a debates sociológicos 5 A metodologia de estudo adoptada consistiu na selecção de uma amostra de 1035 homens registados no

“National Insurance’s Register of the Child Maintenance Payers”, onde estavam inscritos cerca de 90% dos pais não residentes noruegueses, a quem foram enviados inquéritos via correio tendo-se obtido um total de respostas na ordem dos 584 inquéritos.

6 STEPHENS, Linda (1996), “Will Johnny see daddy this week? An empirical test of three theoretical

mais profundos acerca da natureza da vida familiar moderna. A primeira perspectiva teórica diz respeito ao tipo de relação conjugal mantida com a mãe dos filhos (casamento vs. coabitação) - Marital-Involvement Parenting Perspective. A segunda perspectiva reporta-se à situação conjugal actual de cada um dos pais da criança, destacando-se aqui a situação conjugal paterna - Social-Parenting Perspective. A terceira perspectiva teórica está associada ao estatuto socioeconómico do pai, ou seja, à sua situação profissional e actual condição financeira - Socioeconomic-Advantaged Perspective.

No trabalho aqui apresentado interessa explorar a segunda perspectiva teórica. De acordo com a Social-Parenting Perspective (Stephens, 1996, p.468 citada por Skevik, 2006, p.119) é expectável que o contacto entre pai e filho diminua assim que o pai estabelece uma nova relação, sobretudo se a nova companheira também tiver filhos a viverem na mesma casa que o casal. Esta perspectiva enfatiza a parentalidade social sugerindo que o envolvimento parental dos homens que são pais depende, sobretudo, do factor “partilhar a mesma casa”, isto é, o mesmo espaço residencial. São várias as razões apontadas: em primeiro lugar, os contrangimentos inerentes à própria relação conjugal podem alterar a rotina do contacto entre pai e filho; em segundo lugar, as necessidades emocionais do pai podem ficar preenchidas pela nova parceira, o que fará diminuir a necessidade de ver o filho; em terceiro lugar, como das novas relações também poderá resultar um novo filho, o pai pode sentir-se mais envolvido com o filho da actual relação do que com o filho fruto da sua anterior relação que falhou. A Social-Parenting Perspective, ao fornecer uma imagem do indivíduo como alguém que se move de uma relação para a outra centrando-se, em cada dado momento, apenas na sua companheira actual, residência actual e crianças com quem vive, aproxima-se muito dos conceitos de pure relationship e confluent love avançados por Giddens (1991, 1992). No entanto, não é claro como é que Giddens introduz no conceito de pure relationship a relação parental, dado que: “Children do not feature in his consideration of intimate relationships” (Smart, 1997, p.313 citada por Skevik, 2006, p.120).

Embora o sociólogo inglês não se debruce sobre as questões parentais, a sua imagem de “amor confluente” é facilmente combinável com a Social-Parenting Perspective analisada por Skevik (2006), dado que o indivíduo irá amar a/o companheira/o e a criança que no presente

estão em posição de lhe oferecer a melhor relação pura. Também Jamieson (1999) destaca a contradição inerente à teoria de Giddens entre parenting e pure relationship. Apesar de Giddens tentar desmontar esta contradição partindo do pressuposto que a relação entre pais e filhos, à semelhança da relação entre cônjuges, está a caminhar no sentido de uma relação pura, ou seja, no sentido de uma maior igualdade e democracia interna, no entender de Jamieson, pensar as relações pais-filhos enquanto relações igualitárias é deturpar a sua natureza. Ao pressupôr que, à semelhança das relações conjugais, também as relações parentais são igualitárias ou que caminham nesse sentido, Giddens não explica como é que a segurança ontológica e a confiança básica que os pais transmitem aos filhos no decurso do seu crescimento se estabelecem numa relação cuja durabilidade está sujeita à qualidade da relação.

Contrariamente ao carácter condicional que marca as relações conjugais actuais, as relações parentais surgem marcadas por um carácter que se pressupõe incondicional. A contratualidade inerente aos laços conjugais não é, por isso, aplicável aos laços parentais, uma vez que parentalidade e conjugalidade pertencer a ordens diferentes. Em primeiro lugar, na relação parental está-se perante uma escolha que parte dos pais, pois são eles que decidem se querem ou não ter um filho, enquanto na relação conjugal a escolha amorosa parte de ambos os membros do casal. Em segundo lugar, na relação parental há uma dependência efectiva dos filhos face aos pais, pelo menos, até atingirem a maioridade, enquanto na relação amorosa, tendo em conta a emancipação feminina, parte-se do princípio que as mulheres deixaram de depender dos maridos/ homens.

Em síntese, a ideia de uma maior igualdade tanto na relação conjugal como na relação parental parece dominar a análise de Giddens a respeito da relação pura, um ideal tipo para o qual o autor diz caminharem as relações sociais contemporâneas. No entanto, se em relação à conjugalidade se torna difícil provar que a igualdade entre cônjuges constitui uma realidade de facto (Torres, 2002, 2004; Jamieson, 1999), relativamente à relação parental é ainda mais complexo perceber os moldes em que essa igualdade se processa (Jamieson, 1999; Skevik, 2006).

Ao contrário do que se supõe ser a teoria de Giddens sobre o “amor confluente” e as “relações puras” quando aplicadas às relações parentais, Beck e Beck-Gernsheim (1995 [1990]) argumentam que a actual sobrevalorização do íntimo e do sentimento amoroso está a ter implicações importantes a nível do investimento parental. Ao mesmo tempo que se intensifica o discurso em torno da intimidade e do amor nos contextos conjugais e familiares, verifica-se uma preocupação crescente com a vulnerabilidade da criança e com as repercurssões das acções parentais. A ênfase é colocada na individualidade e no desenvolvimento do próprio “eu”, o que faz com que as relações hierárquicas entre pais e filhos sejam cada vez menos valorizadas. No entanto, isto não significa que elas deixem de existir. Actualmente, as relações parentais assumem um papel central para os indivíduos. A criança funciona como uma espécie de âncora num mundo cada vez mais instável em termos relacionais. Ao contrário da instabilidade associada ao compromisso amoroso, o compromisso parental surge como o último reduto da estabilidade afectiva e emocional para o indivíduo, uma espécie de garantia de amor eterno.

Neste sentido, a forma tradicional de organização da guarda parental após o divórcio, caracterizada pela atribuição da custódia da criança à mãe guardiã, deixou de ser atractiva para os homens (Beck, 1992). A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, pulverizou o modelo das famílias de duplo emprego, tornando os membros do casal independentes entre si do ponto de vista económico. Com o divórcio, as mulheres ficam com o trabalho e com os filhos e os homens ficam com o trabalho e sem os filhos, o que é visto como um factor de desigualdade de género.

Tal facto, parece estar na base da criação das associações de defesa dos interesses dos pais homens um pouco por todo o mundo, designadamente nos países ocidentais. Com base no argumento que a criança deve manter o contacto com ambos os progenitores após a ruptura conjugal, estas associações defendem que, em nome do superior interesse da criança, a mesma deve passar tanto tempo com a mãe como com o pai. Neste sentido, declaram-se contra o modelo de um fim-de-semana de quinze em quinze dias para o pai e a favor do modelo da guarda conjunta de residência alternada. No entanto, conforme se verá a seguir, a introdução deste modelo acarreta diversas dificuldades como, por exemplo, a necessidade constante de negociação entre os progenitores.

Até aqui falou-se no efeito que uma nova relação do pai pode ter na frequência do contacto entre pai e filho, mas quais serão os efeitos nesse mesmo contacto caso seja a mãe a ter um novo companheiro? De acordo com Skevik (2006) há, pelo menos, duas alternativas possíveis. Por um lado, a mãe pode querer que o filho passe o máximo tempo com o pai por forma a poder ter tempo para desenvolver a sua nova relação mas, por outro, pode querer encenar uma nova família e para isso dificultar a relação da criança com o pai. Ora, a primeira alternativa vem pôr em causa a teoria de Beck e Beck-Gernsheim da criança como uma âncora para os pais, uma vez que, segundo os autores alemães, a criança estaria sempre em primeiro lugar, o que nem sempre acontece. Por este motivo, conforme salienta Skevik, também esta teoria se revela insuficiente para explicar a complexidade de que se reveste o fenómeno parentalidade na sociedade contemporânea: “It appears from this discussion that ‘modernity’ theories of the family give us very little to build on when it comes to predicting behaviour after separation and repartnering” (Skevik, 2006, p.121). O que parece ficar a dever-se ao facto de tanto Giddens como Beck e Beck-Gernsheim apresentarem como unidade de análise o casal, conforme destacam Smart e Neale (1999) na sua crítica ao trabalho daqueles autores:

“(...) while they contextualize fully 'the family' in modernity and see families as part of change rather than as a group which merely reacts to changes that are generated elsewhere, they depict intimate relations and/or love in very narrow terms. There are no mothers-in-law, no cousins, no grandchildren, step-grandparents and so on. The field of intimicy seems very empty of players” (idem, p.19).

Tendo em conta que, por um lado, a natureza das relações parentais é distinta da natureza das relações conjugais e, por outro, as tendências demográficas actuais apontam para uma dissociação entre sexo, casamento e nascimento, impõe-se perguntar: De que forma é que o divórcio e a recomposição familiar estão a influenciar as formas de relacionamento entre pais e filhos? Em que medida a dualização entre parentalidade biológica e parentalidadade social está a alterar a definição do que é a parentalidade na sociedade contemporânea? Estarão os significados associados ao que é ser pai e ao que é ser mãe a mudar?