I Capítulo
SENTIMENTO AMOROSO E CONJUGALIDADE
No entender de Torres (2004), parece constituir ideia convergente entre os autores que se dedicam à problematização teórica em torno do amor e das relações afectivas no campo das ciências sociais3, a passagem do casamento-instituição ao casamento-romântico e, mais recentemente, a passagem do amor-romântico ao amor-confluente de acordo com a proposta de Giddens (1992) ou ao amor-construção conforme proposta da própria autora. A cada uma destas perspectivas teóricas corresponde uma visão específica sobre a relação entre os sexos. Assim, enquanto nas perspectivas do casamento-instituição e do casamento-romântico/amor- romântico impera uma visão de desigualdade entre os sexos, na perspectiva do amor- confluente a ideia de igualdade entre homem e mulher tornou-se uma componente fundamental da relação amorosa.
No entanto, a realidade analisada por Torres (2002) não sustenta a proposta de Giddens a respeito do amor-confluente. Apesar da escolha amorosa ser uma das condições necessárias ao casamento, a mesma não é suficiente para explicar a durabilidade da relação. Para que o amor perdure é necessário que a relação tenha qualidade, e esta está associada a uma perspectiva do amor enquanto construção (Torres, 2004, p.39). Com base na sua pesquisa em torno do
3 De entre os autores de referência destacam-se: Goode; Luhmann; Gilberto Velho; Giddens; Beck e Beck-
fenómeno do casamento, Torres (2002) propõe o conceito de amor-construção pois através dos discursos dos entrevistados, em particular dos mais jovens, foi possível perceber que se a paixão incondicional foi o pretexto para o casamento, rapidamente essa paixão deu lugar a um sentimento mais estável e mais construído. Apesar do amor-construção implicar a existência de uma maior igualdade entre homens e mulheres, este conhece ainda muitas assimetrias, assistindo-se a uma contradição entre os ideais igualitários e a persistência de práticas desiguais na maioria dos casais (Torres, 2004, p.40). Neste sentido, Torres conclui que, apesar da perspectiva do amor-confluente proposta por Giddens nunca ter estado tão próxima da realidade como actualmente, o facto desta pressupôr a existência de uma relação entre iguais demonstra que há ainda um longo caminho a percorrer (idem, p.41).
Por seu lado, Allan, Hawker e Crow (2001) defendem que a mudança verificada na natureza das relações conjugais contemporâneas tornou-as mais contingentes mas isso não se traduziu numa mudança do significado que os indivíduos atribuem à relação. Apesar de, hoje em dia, a durabilidade do amor estar sujeita a certas condições partilhadas por ambos os membros do casal como, por exemplo, a sua satisfação com a relação, nomeadamente, do ponto de vista afectivo, o significado atribuído pelos indivíduos ao estar na relação parece ter-se mantido inalterado. Para estes autores, o que mudou foi a natureza do compromisso amoroso mas não o seu significado, o que explica a dor e o sofrimento associados às situações de ruptura conjugal. Embora, actualmente, as relações sejam mais contingentes do que eram há umas décadas atrás, tal como argumenta Giddens, o facto de o fim das relações estar associado a sentimentos de perda por parte dos envolvidos faz repensar a visão desprendida dos relacionamentos amorosos proposta pelo sociólogo inglês (idem, pp. 827-828).
Tanto Torres (2002, 2004) como Allan, Hawker e Crow (2001) parecem assim partilhar da opinião de Lynn Jamieson (1999) a respeito da teoria de Giddens. Num artigo intitulado “Intimacy transformed? A critical look at the «pure relationship»” a autora põe em causa a aplicabilidade prática da teoria de Giddens a partir da análise de diversos estudos empíricos cujas conclusões contradizem os argumentos por ele defendidos. Jamieson conclui o seu artigo com as seguintes palavras:
“Although the evidence suggests most individuals now approach couple relationships with expectations which include mutual emotional support and treating each other like equals, this tells us relatively little concerning how people actually behave towards each other. Empirically, intimacy and inequality continue to coexist in many personal lives. Personal relationships remain highly gendered. (…) While agreeing with Giddens’s rejection of the more pessimistic account of personal life at the century’s end, I note that the creative energies of many social actors are still engaged in coping with or actively sustaining old inequalities rather than transforming them” (idem, p.491).
Traços largos, pode dizer-se que a autora considera que todas as relações interpessoais por pouco estruturadas que sejam, como acontece com a amizade, servem para reforçar divisões de género e/ou de classe e/ou de etnia. Por detrás destas relações há, regra geral, uma intencionalidade. Daí que, em seu entender, nem mesmo as amizades possam ser baseadas simplesmente na auto-estima mútua e na compreensão, conforme pressupõe o conceito de relação pura.
Em relação às relações conjugais, Jamieson considera que, nas relações heterossexuais igualitárias identificadas por alguns investigadores, os casais parecem pôr em prática algo diferente da relação pura defendida por Giddens. Ao centrar a relação na existência de uma democracia interna, o casal cria projectos que inevitavelmente se reportam ao mundo institucionalizado que existe para além da relação que os une. Isto significa que o contexto no qual a relação ocorre tem tanta importância como a intensidade da mesma. Assim, a autora conclui que Giddens tem uma visão optimista das relações amorosas e considera que os resultados empíricos a que diversos estudos têm chegado não corroboram as suas propostas em torno do ideal tipo – pure relationships.