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Da ação e omissão; do dano e do nexo de causalidade

No documento DOUTORADO EM DIREITO CIVIL COMPARADO (páginas 57-61)

CAPÍTULO II RESPONSABILIDADE CIVIL: NOÇÕES GERAIS

2.2. Da ação e omissão; do dano e do nexo de causalidade

Pode-se afirmar que é da etiologia da responsabilidade civil a presença de três requisitos: ação/omissão culposas (violação a um direito); dano e nexo de causalidade. 95

Esses requisitos devem ter relevância jurídica para exsurgir o direito à indenização, ou melhor, a conduta ou a omissão devem “interessar” para o direito a       

94 Pontes de Miranda trata nesse capítulo de sua obra acerca do dano não-patrimonial e mostra-se indignado com a recusa dos tribunais em indenizar o dano moral quando não há repercussão patrimonial. Cf. MIRANDA, Francisco Cavalcante PONTES DE. Tratado de direito privado. Rio de Janeiro, Borsoi, 1972. Tomo LIII, § 5.509, p 229.

95 TAVARES DA SILVA,Regina Beatriz Responsabilidade civil: responsabilidade civil na área de

fim de merecer proteção. Como, por exemplo, há condutas humanas que, embora causem prejuízo, não dão ensejo à reparação. Da mesma forma, o dano não se traduz em um menoscabo patrimonial ou espiritual qualquer, uma vez que o simples incômodo não pode ser equiparado ao que a doutrina chama de dano moral. O nexo, por sua vez, é o necessário liame de causalidade entre a conduta comissiva ou omissiva do agente e o dano à vítima.

Ausentes esses requisitos, não há obrigação de indenizar.

Para o presente relato – e para que não se estenda em demasia – a conceituação de dano e seu desdobramento em dano moral e patrimonial é necessária para a fixação dos pontos controvertidos que se seguirão.

A questão principal hoje, como ressalta Sérgio Cavalieri Filho, não é saber se o dano moral é indenizável ou não, mas justamente o que vem a ser dano moral. Este é, na verdade, o ponto de partida para se equacionar todas as questões relacionadas com o dano moral. 96

Assim, passa-se a apresentar o conceito de dano. Por dano material ou patrimonial entende-se a diminuição causada no patrimônio de alguém decorrente da ação ou omissão, culposa ou não, de outrem. Há, assim, um menoscabo nos bens materiais que a vítima havia amealhado ao longo de sua existência, ou seja, há uma diminuição patrimonial. O indivíduo, antes de sofrer o dano, possuía 100. Agora, lesado seu patrimônio, passa a ter 50.

Mas muitas vezes, há perdas que não são materiais, não influindo na higidez do patrimônio amealhado e aí se está diante do dano imaterial, extrapatrimonial ou moral.

A doutrina costuma definir o chamado dano moral, imaterial ou extrapatrimonial (equiparando as nomenclaturas) por exclusão: o prejuízo não patrimonial; uma lesão ao patrimônio imaterial do sujeito; um agravo que não produz qualquer efeito econômico, ou seja, tem existência independente do patrimonial,

      

96 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 5. ed. rev., aum. e atual. São Paulo: Malheiros, 2003 p. 79.

convencionando-se chamar de “dano moral puro”, por não ser simples reflexo ou consequência do prejuízo patrimonial.

Mas ainda hoje não há um conceito uniforme como traçado alhures em breve referência acerca da evolução da responsabilidade civil, sendo que para alguns, o dano moral é a violação de um direito da personalidade e, para outros, o dano moral é o dano que decorre dos efeitos da lesão.

O Bürgerliches Gesetzbuch (BGB) alemão cuida do dano imaterial por exclusão, como aquele prejuízo que não é patrimonial, prevendo uma indenização em caso de ofensa (violação) ao corpo, à saúde e à liberdade ou à preferência sexual. Pode o prejudicado pelo dano reclamar eine billige Entschädigung¸ ou seja, uma indenização módica, percebendo-se a preocupação em não se desvirtuar a finalidade da reparação, que não poderá jamais ser fonte de enriquecimento sem causa.

As definições doutrinárias, em regra, correlacionam o dano moral ao sofrimento humano decorrente da lesão ao patrimônio ideal da pessoa. Mas não é qualquer sofrimento que acarreta dano moral.

A jurisprudência também tem acolhido as teses desenvolvidas pelos juristas para quem os transtornos enfrentados no cotidiano não caracterizam dano moral, elevando o conceito a um patamar valorativo significativo sob pena de inviabilizar-se a convivência social. 97

      

97 1. “Ação de indenização por danos morais – Multa de trânsito – Digitação de placa errada –

Improcedência do pedido decretada em primeiro grau – Decisório que merece subsistir – Hipótese em que não restou demonstrada efetivamente maiores conseqüências psíquicas ou emocionais na vida do promovente em decorrência do fato descrito na inicial – Episódio narrado, outrossim, que carece de potencialidade para afetar direitos da personalidade, como honra e imagem, a ponto de acarretar abalo psicológico e/ou psíquico relevante – Negado provimento ao recurso.” (v.u., TJSP, Apelação 620.785-5/0-00, rel. Des. Rubens Rihl) e 2. “Apelação cível. Responsabilidade civil. Poder Público. Responsabilidade objetiva. Danos morais. Não configuração. Meros aborrecimentos. (...) 4. O único incômodo que teve o autor foi de, intimado da penhora, esclarecer, nos autos da execução, que não se tratava do devedor. No mais, e justamente pelo fato de não ter sido o ora autor o réu da ação de execução, não sofreu qualquer tipo de restrição típica daquela espécie de demanda. 5. Inocorrente o dano moral. Qualificam-se as circunstâncias do caso concreto como meras contrariedades a interesses pessoais dos autores, normais dentro do grupo social em que se inserem. As pequenas contrariedades da vida, os dissabores, aborrecimentos, não são tidos como causa de indenização econômica. Se assim fosse, inviabilizar-se-ia a convivência social. Não bastam meros aborrecimentos a embasar pedido de indenização por danos morais. Responsabilidade civil não configurada. Desprovido o apelo do autor e provido o apelo do réu. Unânime.” (v.u., TJRS, Apelação 7001648332, Des. Helena Medeiros Nogueira).

Sérgio Cavalieri Filho, ao discorrer sobre a configuração do dano moral, com a simplicidade de quem debruçou-se detidamente sobre o tema, assegura que o dano moral é, à luz da Constituição vigente, nada mais do que agressão à dignidade humana.

“Que consequências podem ser extraídas daí? A primeira diz respeito à própria configuração do dano moral. Se dano moral é agressão à dignidade humana, não basta para configurá-lo qualquer contrariedade”.

(...)

“Nessa linha de princípio, só deve ser reputado como dano moral a dor, vexame, sofrimento ou humilhação que, fugindo à normalidade, interfira intensamente no comportamento psicológico do indivíduo, causando-lhe aflições, angustia e desequilíbrio em seu bem-estar”. (....)

“Dor, vexame, sofrimento e humilhação são conseqüência, e não causa. Assim como a febre é o efeito de um agressão orgânica, dor, vexame e sofrimento só poderão ser considerados dano moral quando tiverem por causa uma agressão à dignidade de alguém”. 98

Em recente decisão monocrática, Emílio Migliano Neto99, sensível ao crescente número de ações de indenização envolvendo o Poder Público e fundamentadas na responsabilidade objetiva do artigo 37 parágrafo 6º da Constituição Federal, ressalta, em frase de efeito, ser “inadmissível a pausteurização dos danos morais, com iniciais cujas causas de pedir são manifestamente deficientes”. Ressalta que pedidos sem lastro comprobatório suficiente, banalizam a conquista fundamental da indenização por danos extrapatrimoniais e se convertem em instrumento de voracidade de quem nada sofreu, mas antevê a possibilidade de obter algum ganho com determinado ato ilícito.

Exsurge aí a sensibilidade do julgador em delimitar a abrangência do conceito de dano moral ou extrapatrimonial e a real exegese do artigo 5º incisos V e X da Constituição Federal e dos artigos 186 e 927 do Código Civil.

      

98 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. São Paulo: Atlas, 2008. p. 83-84. 99 7ª Vara da Fazenda Pública do Estado de São Paulo ação ordinária autos 053.08.113729-6

Mas não basta a configuração do dano e a conduta ou omissão culposas para que o lesado faça jus à indenização. Há a necessidade de se estabelecer um liame de causalidade entre o dano e a conduta lesiva. Se não houver nexo causal, o suposto causador do prejuízo não poderá ser acionado a repará-lo.

De modo que o nexo causal é elemento essencial da etiologia da responsabilidade civil. Não se olvidando, entretanto, que em certas circunstâncias há o rompimento da cadeia causal, quer por ato de terceiro, que interfere na trajetória da ação; quer pela ocorrência do caso fortuito e da força maior, que por serem fatos imprevisíveis ou inevitáveis, impedem a responsabilização do agente causador do

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