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3 – Da emergência dos estudos sobre a TAV

Capítulo I – A Tradução Audiovisual

I. 3 – Da emergência dos estudos sobre a TAV

Embora o final do século XIX tivesse testemunhado o nascimento do cinema, esparsas são as publicações em torno do fenómeno da tradução audiovisual, anteriores à década de oitenta do século que assistiu ao desenvolvimento do mundo audiovisual, que tanto tem marcado e influenciado a comunicação interlinguística e intercultural13. Portanto, não é de espantar que Díaz Cintas (2003b: 289) denuncie o paradoxo existente entre o volume de trabalho de TAV e a quantidade de trabalho investigativo nesta área, tendo em conta o enorme impacto social inerente a tal prática14.

Na verdade, o volume de trabalho produzido para os meios audiovisuais e a monumental quantidade de receptores que este produto abrange, principalmente a partir da última metade do século XX, validariam, por si sós, a inclusão deste tipo de tradução nas prioridades de investigação dos estudos sobre tradução nos cursos de formação inicial e de pós-graduação. As palavras de Frederic Chaume (1999: 210) corroboram bem esta necessidade, aduzindo a ideia da formação inicial na área da TAV:

[D]esde un punto de vista curricular, finalmente, la traducción audiovisual debría tener su lugar en los planes de estúdios actuales, no solo por dar respuesta a

una de las actividades de traducción con volumen de trabajo más creciente y cada vez más presente en nuestra vida cotidiana, sino también por su

potencialidad didáctica, como ejemplo de ejercicio de traducción que ayuda a desarrollar la creatividad, que permite de manera muy eficaz entender los márgenes de la libertad con que cuenta el traductor y que es extraordinariamente transparente, desde un punto de vista metodológico, por lo que respecta a la comprensión de la función de una traducción y de la finalidad de su encargo.

(negrito meu)

Efectivamente, o lugar da formação de profissionais da TAV e a actividade por eles exercida não podem ser relegados para um plano periférico, ou para um plano outro, no amplo campo de tipologias tradutológicas existentes.

13

Aproveito para fazer minhas as palavras de Dirk Delabastita (1989: 194): “[O]bviously, I am not claiming that subtitling or dubbing of films and T.V. programmes have never been seriously studied before; my bibliography, which is far from complete, testifies to the contrary. However it appears that the few translation scholars, sociologists, psychologists, film experts and technicians who have so far dealt with our topic, have only considered certain aspects of the problem and ignored others, depending on their particular line of approach or practical needs”.

14

José Lambert e Dirk Delabastita (in: Gambier, 1996: 33-58), no seu artigo intitulado “La traduction de textes audiovisuelles: modes et enjeux culturels”, indicam dois motivos pelos quais a tradutologia confere um estatuto marginal à comunicação, e consequentemente, à tradução audiovisual. Primeiramente, as explicações apresentadas pautam-se pelo grande desejo de autojustificação por parte da TAV, aliado à sua juventude enquanto ramo de ensino e de investigação em instituições universitárias. Neste grau de ensino, a pesquisa empírica da comunicação audiovisual afigura-se pouco prestigiante, na medida em que é negativamente conotada com o fenómeno da cultura de massas. Já anteriormente Dirk Delabastita (1989: 193) dava conta da impassibilidade das instituições académicas em face das questões tradutológicas nos seguintes termos:

[T]he social sciences have often tended to select their subjects for study on the basis of their high prestige according to the norms of the culture in which they function, or even according to the value of the cultural paradigm within which the scholars themselves operate. That is one of the underlying reasons why, for example, the scholarly study of popular culture has had such a slow start or why, for that matter, translation has so long been the Cinderella of linguistic and literary studies. Accordingly, it is hardly surprising that phenomena such as translation in mass communication have so far been ignored almost completely, however much the quantitative importance of these phenomena is in evidence, and however much they may be assumed to play a crucial role in the linguistic, artistic, ideological, etc. organisation of modern societies.

Em segundo lugar, ainda na perspectiva dos dois articulistas (Lambert e Delabastita

in: Gambier, 1996: 34-35), colocados de lado os mecanismos psico-sociais, os tradutólogos

têm-se revelado muito pouco dispostos a contemplar a legendagem ou a dobragem (entre

outras modalidades de TAV) como actos de verdadeira tradução, meritórios de uma pesquisa sistemática. De um modo implícito ou explícito, a crítica sobre tradução tende a considerar aquelas modalidades de TAV mais sob a óptica da adaptação do que sob o prisma da tradução. Assentando nesta lógica, se tomada a TAV como uma mera adaptação, então não fará muito sentido, por parte dos tradutólogos, dedicar uma especial atenção ao desenvolvimento dos estudos sobre aquilo que aqui se define como “tradução audiovisual”.

Com o propósito de contrariar esta tendência, assume-se, neste trabalho, uma posição diametralmente oposta à visão que aqui se acaba de delinear: a TAV deve ser examinada nas suas múltiplas vertentes, justamente devido à sua abrangência nos planos da tradução

propriamente dita (em que se verte uma mensagem de uma língua/cultura para outra, através de diferentes mecanismos) e no do seu receptor15.

Na minha opinião, isto equivale a dizer que, desde a estreia da tradução dos primeiros intertítulos à legendagem, pouco ou quase nada se estudou acerca do modo como se processou este trabalho tão importante e que, desde cedo, co-implicou um público vasto. Mais: se reflectirmos sobre o papel primacial que a TAV desempenha enquanto promotora de uma cultura – na sua dimensão interlinguístico-cultural – junto de muitas línguas/culturas à escala planetária, talvez se afigure não só necessário, mas mesmo urgente, o incremento dos estudos relativos a este fenómeno.

Inequivocamente, subscrevo o que Frederic Chaume (1999: 209-210) propõe de um modo assertivo para os investigadores e para os profissionais de ensino:

[L]a traducción audiovisual es un ejemplo concreto de âmbito de investigación que debe encontrar su sitio en los Estúdios sobre Traducción. Es responsabilidade de los docentes y investigadores centrar precisamente nuestra atención en aquellos aspectos que la singularizan frente al resto de modalidades, esforzándonos porque el marco teórico global de nuestra disciplina sea capaz de incluir lo singular de esta modalidad. En este sentido es aconsejable que la Traductologia abandone o dote de nuevo significado a concepciones estáticas como las de equivalência16 o de fidelidad, entendidas durante muchos años de forma demasiado estricta, para dar cabida a las estrategias y las soluciones de traducción que los profisionales ponen en práctica a diário.

(negrito meu)

Na verdade, os Estudos sobre Tradução deveriam expandir o seu campo de acção e de análise, aglutinando e acolhendo as novas modalidades de tradução. Assim, e de modo a dar resposta às diversas direcções seguidas pelas diferentes modalidades de TAV, criar-se- ia um espaço de comunhão entre os estudos audiovisuais (cinematográficos e multimédia) e os estudos sobre tradução (que pressupõem, entre outros campos disciplinares, os vários ramos da linguística)17.

15

O receptor a que aqui me refiro não é apenas o público em geral a quem se dirige prioritariamente o filme. O lexema “receptor” recobre igualmente o mediador entre o texto original e o texto traduzido, i.e., o tradutor. 16

A equivalência não é um conceito estático é um conceito dinâmico, como se terá oportunidade de verificar ao longo dos dois capítulos que se seguem.

17

Nesta área de pesquisa, Dirk Delabastita (1989: 213) faz menção a um esforço combinado entre os especialistas da comunicação de massas, os investigadores da tradução, os linguistas, os sociolinguistas, os psicólogos, entre outros.

Devido ao seu carácter multidisciplinar, torna-se, pois, indispensável promover um espaço definido e definitivo, um lugar próprio para os estudos sobre tradução que incorporem os estudos da TAV, permitindo um olhar flexível sobre os fenómenos tradutológicos mais recentes. Jorge Díaz Cintas (2003b: 34) confirma esta convicção:

[E]s necesario entender la traducción desde una perspectiva más flexible y

heterogénea, menos estática, que dé cabida a un amplio conjunto de realidades

empíricas y tenga en cuenta la naturaleza cambiante de esta práctica. El tradicional concepto de fidelidadd formal, tan venerado por los estructuralistas de la linguística de los años 60, ha de ser revisado y flexibilizado para el caso de la subtitulación y demais modalidades de traducción audiovisual. El one-to-one translation approach pierde toda su validez en nuestro terreno y el concepto de equivalência formal se debe entender desde una perspectiva mucho más flexible que en otras esferas de la traducción.

(negrito meu)

Detenhamo-nos no conteúdo desta citação, dado que nela se encontra a conceptualização germinal daquilo que neste trabalho se denomina como “tradução audiovisual”, aplicada às práticas de legendagem. A flexibilização da noção de “tradução” prende-se com a permeabilidade e a adequação das várias acepções do termo à multiplicidade experiencial, e isto sem nos adentrarmos na velha questão da longevidade de uma determinada tradução, em permanente mutação. Deste modo, os teóricos têm-se debatido com o carácter heterogéneo de textos e de géneros cinematográficos com que os profissionais da TAV se deparam no cumprimento das suas tarefas quotidianas.

A perspectiva dinâmica e flexível que os estudos sobre a tradução deve assumir, e no caso particular da TAV, prende-se também com a compreensão da natureza das traduções a efectuar, sejam elas implicadas pelos diversos meios de difusão da TAV, pela combinatória de modalidades da TAV contidas (a discutir no ponto I.4), por vezes, num só programa e, para terminar, pelas tipologias textuais (os géneros) dos programas (a tratar no Capítulo II). Resta dizer que, de momento, a TAV ainda se encontra à procura de um espaço no cânone dos Estudos sobre Tradução.