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Da rede social e do provedor de serviços de internet

Vem se causando, ao longo do tempo, vasta discussão acerca da responsabilidade dos provedores de serviços de internet e sites de rede social quando da divulgação, em seus campos, de conteúdo dotado de assédio virtual. Inicialmente, cabe referir que estamos a tratar de responsabilidade civil e jurídica, embora possível analisar sob o viés, moral, social, penal e administrativo.

A questão da responsabilidade civil da rede social e do provedor de serviços de internet é demais delicada, tendo em vista que envolve a aplicação de diversas legislações, analisadas por fortemente embasado entendimento jurisprudencial.

Neste sentido, de antemão, cabe tecer alguns argumentos, tomando o Código Civil brasileiro como única legislação aplicável, a título exemplificativo. Tal método tem a finalidade de demostrar a importância dos demais diplomas para o caso em análise, bem como expor os dois lados da discussão.

Quanto a natureza do dano, considerando que a situação coloca o site como terceiro responsável por omissão em sua obrigação de fiscalizar o conteúdo divulgado, trata-se de ato lícito, entretanto, causador de abalo à pessoa em razão do simples risco ocasionado por fato de terceiro.

Neste sentido, conforme dispõe o parágrafo único do artigo nº 927 do Código Civil, “haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos

casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.” (BRASIL, 2002) (grifo nosso)

Todavia, tem se decidido se a falta da fiscalização dos conteúdos divulgados nos sites pode ou não constar como único fundamento para a responsabilização, tendo em vista a impossibilidade de acompanhar o célere fluxo de dados que corre na internet.

Do mesmo modo, outra abrangente discussão se dá sobre o fundamento da responsabilidade, gerando correntes no sentido tanto da adoção da responsabilidade subjetiva, como regra geral, quanto da reponsabilidade objetiva, diante de uma culpa ocasionada por uma omissão, ou seja, a inércia na necessidade cumprimento de dever legal, de modo que, embora seja conduta lícita, gera riscos, os quais, conforme já discorrido, são peculiarmente graves, portanto indenizáveis.

Assim, o atrito da matéria restou por ora sanada pelo colendo Superior Tribunal de Justiça, não havendo, portanto, tais prerrogativas com a simples análise da lei e da doutrina. Existem diversos recursos especiais acerca do tema. Ora, nos atemos à análise dos Recursos Especiais nº 1.193.764/SP e nº 1.328.706/MG, onde a ministra relatora Nancy Andrighi traz um breve estudo acerca das funções desempenhadas pelos provedores de serviço de internet, nos seguintes termos:

Os provedores de serviços de internet são aqueles que fornecem serviços ligados ao funcionamento dessa rede mundial de computadores, ou por meio dela. Trata-se de gênero do qual são espécies as demais categorias, tais como: (i) provedores de

backbone (espinha dorsal), que detêm estrutura de rede capaz de

processar grandes volumes de informação. São os responsáveis pela conectividade da internet , oferecendo sua infraestrutura a terceiros, que repassam aos usuários finais acesso à rede; (ii) provedores de acesso, que adquirem a infraestrutura dos provedores backbone e revendem aos usuários finais, possibilitando a esses conexão com a

internet ; (iii) provedores de hospedagem, que armazenam dados de

terceiros, conferindo-lhes acesso remoto; (iv) provedores de informação, que produzem as informações divulgadas na internet ; e (v) provedores de conteúdo, que disponibilizam na rede as informações criadas ou desenvolvidas pelos provedores de informação. (BRASIL, 2010)

Quanto à natureza da responsabilidade, restou firmado entendimento no sentido de que não se trata de risco, haja vista que a fiscalização do conteúdo das postagens não se enquadra nas funções desempenhadas pela rede social e pelo provedor de serviços de internet, de modo que afastada a obrigação.

Assim, retorna-se à regra geral, aplicando a responsabilidade subjetiva. Em amparo ao referido, segue trecho da decisão proferida no REsp nº 1.193.764/SP, que se deu nos seguintes termos:

Do quanto exposto até aqui, conclui-se que não se pode considerar de risco a atividade desenvolvida pelos provedores de conteúdo, tampouco se pode ter por defeituosa a ausência de fiscalização prévia das informações inseridas por terceiros no site, inexistindo justificativa para a sua responsabilização objetiva pela veiculação de mensagens de teor ofensivo. (BRASIL, 2010) (grifo nosso)

Colhendo o ensejo da discussão, é de se analisar os efeitos do entendimento embasado na ausência de obrigação, dos agentes elencados no presente tópico, de promover a fiscalização dos conteúdos inseridos em suas redes. Tal tese de formou com a aplicação do Código de Defesa ao Consumidor ao caso, tendo em vista o caráter da relação entre os sites e o usuário. Neste sentido, segue a relatora sustentando nos seguintes termos:

Vale notar, por oportuno, que o fato de o serviço prestado pelo provedor ser gratuito não desvirtua a relação de consumo, pois o termo “mediante remuneração” contido no art. 3º, § 2º, do CDC deve ser interpretado de forma ampla, de modo a incluir o ganho indireto do fornecedor. (BRASIL, 2010)

No presente caso, o fator a ser analisado à luz do CDC, no tocante da omissão e do dever jurídico não cumprido, é o da prestação de serviço defeituoso. O referido diploma trata deste tema no artigo 14, surgindo, portanto, novo dispositivo para a análise da responsabilidade civil, além dos artigos nº 186, 187 e 927 do Código Civil. In verbis:

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem

como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.

§ 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I - o modo de seu fornecimento; II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam; III - a época em que foi fornecido. [...]

§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste; II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. [...] (BRASIL, 1990)

Diante de todo o acima exposto, verifica-se que, dentre as funções desempenhadas pelos sites de rede social e provedores de serviço de internet, não se inclui a fiscalização dos conteúdos, motivo pelo qual se firmou o entendimento de que, diante da ausência de obrigação, resta inaplicável o parágrafo único do artigo nº 927 do Código Civil e, consequentemente, afastando o dever de indenizar para a rede social e o provedor de serviços de internet.

Corroborando com o referido, assim segue a relatora do REsp nº 1.193.764/SP com a seguinte fundamentação:

Apesar de o STJ já ter decido que a exploração comercial da Internet sujeita as relações de consumo daí advindas à Lei nº 8.078/90 (REsp 1.193.764/SP, 3ª Turma, minha relatoria, DJe de 08.08.2011. No mesmo sentido: REsp 1.316.921/RJ, 3ª Turma, minha relatoria, DJe de 29.06.2012; e AgRg no REsp 1.325.220/MG, 3ª Turma, Rel. Min.

Paulo de Tarso Sanseverino, DJe de 26.06.2013), a

responsabilidade dos sites de hospedagem de blogs deve se restringir à natureza da atividade por eles desenvolvida que, como visto, corresponde à típica provedoria de conteúdo. [...]. No que tange especificamente àquilo que é postado pelos usuários, não se pode exigir do provedor de hospedagem a fiscalização preventiva de conteúdos potencialmente ilícitos, na medida em que não se trata de atividade intrínseca ao serviço prestado, sendo inaplicável o art. 14 do CDC. (BRASIL, 2013) (grifo nosso)

Ainda, cabe ressaltar que o serviço é defeituoso quando apresenta características das quais o consumidor não esperava, o que não deve ser aplicado ao presente caso, tendo em vista a vasta gama de informações acerca da ocorrência de assédio virtual nas redes sociais.

Nesta senda, o CDC bem explicita tal enquadramento no § 1° do artigo 12, no seguinte sentido:

§1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I - sua apresentação; II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam; III - a época em que foi colocado em circulação. (BRASIL, 1990)

O Facebook, por exemplo, oferece a oportunidade, ao usuário, de oferecer denúncia ao conteúdo do qual entende ser ilícito. Esta opção, assegurada dentro do próprio quadro da postagem, possui o intuito, mediante boa-fé, de garantir, na forma extrajudicial, os direitos descritos no tópico nº 1.2.

Neste sentido, cabe salientar que a lei do Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) rege as principais diretrizes para a configuração do dever de indenizar das redes sociais e provedores de serviços de internet, conforme o seguinte entendimento doutrinário:

Em termos processuais, é razoável inferir que encontram-se sujeitos ao comando legal do Marco Civil os provedores de conexão à internet e os provedores de acesso às aplicações de internet, sejam pessoas físicas ou jurídicas, sediados no país ou no exterior, ressaltando-se que, neste caso, deve haver oferta do serviço a usuários do Brasil, no domínio “.br”. (LEITE; LEMOS. 2014, p. 1.003) (grifo nosso)

A referida legislação trata, no artigo nº 19, acerca da limitação da responsabilidade civil dos provedores de serviços de internet, o que se faz pelos seguintes termos:

Art. 19. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário. (BRASIL, 2014)

Na mesma oportunidade, a lei do Marco Civil da Internet dispõe uma regra geral que isenta os provedores de serviço de internet da responsabilização civil por fato de terceiros – leia-se os usuários tratados no tópico nº 2.1 – no artigo nº 18, assim dependendo da aplicação das exceções para o seu afastamento, in verbis:

Art. 18. O provedor de conexão à internet não será responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros. Art. 21. O provedor de aplicações de internet que disponibilize

conteúdo gerado por terceiros será responsabilizado

subsidiariamente pela violação da intimidade decorrente da divulgação, sem autorização de seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado quando, após o recebimento de notificação pelo participante ou seu representante legal, deixar de promover, de forma diligente, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço, a indisponibilização desse conteúdo.

Parágrafo único. A notificação prevista no caput deverá conter, sob pena de nulidade, elementos que permitam a identificação específica do material apontado como violador da intimidade do participante e a verificação da legitimidade para apresentação do pedido. (BRASIL, 2014)

Assim, a doutrina, de igual forma, tratou acerca do tema, ao analisar os casos concretos, concluindo pela ausência de obrigação da rede social e do provedor de serviços de internet em responder pela mantença do conteúdo em seus sites mediante ação judicial, eis que oportunizada a solução do impasse na via administrativa.

Portanto, passa-se a ser aplicada a excludente de ilicitude descrita no inciso I do artigo nº 188 do Código Civil, in verbis:

Art. 188. Não constituem atos ilícitos:

I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido;

II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente.

Parágrafo único. No caso do inciso II, o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. (BRASIL, 2002) (grifo nosso)

Em amparo ao referido, a doutrina entende de igual forma, ao passo que, para que o site seja responsabilizado pelos danos morais, oriundos de assedio virtual ocorrido em sua rede, o fato gerador do dever de indenizar deve ser o descumprimento de sua função.

Tendo em vista a hipótese de o site dispor de ferramenta de denúncia, a ser utilizada pelo usuário lesado, cria-se uma obrigação de cumpri-la. Todavia, se o usuário não se utilizou de tal ferramenta, optando em ajuizar ação indenizatória, resta vago o principal requisito para que fosse devidamente demonstrado o dever de indenizar. Isso é o que se ilustra do entendimento jurisprudencial e doutrinário, como no seguinte trecho:

[...], há a possibilidade do contato direto e imediato como provedor de serviços (extrajudicial), apenas sendo necessário apresentar, para a empresa responsável, elementos de identificação do material danoso. Notificada sobre o conteúdo, a mesma empresa deve retirar a postagem ofensiva no prazo de 24 horas; caso contrário, poderá ser responsabilizada por sua negligência. Com o advento do novo texto, porém, e aqui não andou bem o

legislador, a empresa somente poderá ser alvo de

responsabilização se descumprir ordem judicial, exceto para as hipóteses de pornografia e pedofilia, exemplificativamente. A necessidade de ordem judicial, assim, em razão da sobrecarga, burocracia e consequente morosidade que assolam o Poder Judiciário, inquestionavelmente será um obstáculo a mais a ser enfrentado por todos aqueles que buscarem a responsabilização civil decorrente dos danos advindos de eventual publicação ofensiva. (LEITE; LEMOS. 2014, p. 1.003) (grifo nosso)

Em suma, verifica-se que as redes sociais e provedores de serviços de internet buscam se aprimorar de forma com a qual estes fiquem devidamente adequados à legislação vigente. Caso contrário, logicamente, de pronto poderia ser determinado o desligamento dos sites.

Na presente data, ainda segue em tramitação o Recurso Extraordinário nº 1.037.396, interposto perante o Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de discutir a constitucionalidade do artigo nº 19 da Lei nº 12.965/2014, eis que seu teor restou afrontado mediante a decisão do tribunal recorrido.

O tribunal recorrido reconheceu a inconstitucionalidade do referido dispositivo, aplicando a responsabilidade objetiva ao caso, de modo que a reforma se deu com a condenação da rede social Facebook pelos danos morais ocasionados por fato de usuário praticante de assédio virtual. Em 04 de abril de 2018, fora publicado acórdão, reconhecendo a existência de repercussão geral para a admissão do recurso. No momento, ainda se aguarda a prolação de decisão final.

CONCLUSÃO

Hodiernamente, o usuário de rede social deve tomar alto teor de precaução, sendo medida essencial a busca de informações sobre o destino do conteúdo que passará a inserir no vasto mundo virtual, ao passo que, muito embora a lei disponha de instrumentos para a reversão de desventuras atinentes à divulgação indevida de conteúdo não autorizado ou inverídico, o assédio virtual constitui dano moral na mais pura concepção do termo, eis que promove risco que ultrapassa a segurança da simples reparação de danos.

O assédio virtual, conhecido como Cyberbullying, somente poderá ser assim qualificado quando constatada uma conduta invasiva que transpassa os limites da boa-fé, das garantias constitucionais da liberdade de expressão e do acesso à informação, afrontando gravemente o direito à intimidade, tendo como principal consequência a lesão à honra, à imagem, ao bom nome, dentre outros elementos que culminam na definição de dano moral.

Ao passo que o assédio virtual constitui dano moral, este é indenizável, na forma da lei ordinária de direito civil em vigência. Portanto, o surgimento do Marco Civil da Internet confere aos usuários desprevenidos, aos fornecedores de serviço de internet e administradores de aplicativos de internet o resgate aos seus direitos constitucionais quando diante de uma situação de assédio virtual.

Nos dias atuais, a internet trouxe ampla e preocupante dependência aos cidadãos que dela detém acesso. Deste modo, faz-se cada vez mais necessária a busca de informações acerca da sua utilização.

Deve se ter em vista que, ao passo que existem os usuários de má-fé, cuja conduta ofensiva é dolosa, de igual forma ocorrem os casos em que o conteúdo divulgado não passa de simples informação, como uma notícia sobre a prisão em flagrante, por exemplo, a qual não transpassa limites de prudência, motivo pelo qual também merecem tutela jurisdicional os responsáveis pela mantença do conteúdo nas redes de pesquisa.

Com a tutela dos direitos relacionados ao uso da internet, o ordenamento jurídico avança, muito embora seja inviável estar sempre acompanhando a mais mutável e célere das tecnologias. Ademais, inexiste certeza de que os mecanismos de pesquisa, como o Google, e os sites de relacionamento em redes sociais, como o Facebook, serão utilizados com a frequência com a qual vêm ora sendo.

A legislação, ao lado da doutrina e da jurisprudência, veio a fixar os parâmetros da responsabilidade civil por assédio virtual com a finalidade de reduzir o índice de abuso de imagem na internet, o aumento da cautela no momento de citar o nome de outrem, bem como impedir que os sites de pesquisa e redes sociais sejam desligados por desproporcional razão, levando em conta a sua importância social, administrativa, informativa, organizacional e até mesmo econômica.

Frisa-se, por derradeiro, que o entendimento atual, acerca da responsabilidade civil por assédio virtual, não é absoluto, tendo em vista a necessidade de amplo estudo, as peculiaridades de cada caso, o surgimento de novos elementos de aprimoramento dos próprios sites, e a constante mutação da forma de funcionar da tecnologia.

REFERÊNCIAS

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