5. MOVIMENTO, ESTILO E TRADIÇÕES
5.2 DA SINERGIA PARA INTERCORPOREIDADE
O fenômeno inicialmente chamado por Merleau-Ponty de sinergia ou síntese corporal foi rebatizado “reversibilidade” em obra ulterior (1964). A noção de “reversibilidade” constitui-se como alternativa à versão da síntese corporal ou sinergia corporal, exposta em
Fenomenologia da percepção que inspirou a reflexão acima. Na primeira proposta analítica, a
percepção encontrava-se ainda sob o viés da consciência, e consequentemente conservava, mesmo que em segundo plano ou relativizadas, as posições do sujeito e do objeto. Diferentemente, ao apontar para uma relação de reversibilidade entre sentiente e sentido, o filósofo não mais toma a percepção como distribuída entre um pólo ativo e um pólo passivo, dando destaque ao movimento entre as duas experiências, como quando ao tocar uma mão com a outra, posso ser o tocador e o tocado, vivenciando a percepção dos dois lados, de sentiente e de sentido186.
Esse conceito me parece apropriado para descrever os vínculos entre as diferentes percepções, tais como são solicitadas pelo engajamento do corpo nas tarefas simultâneas que descrevi. Como sugeri na secção anterior, no contexto de engajamento do corpo numa tarefa que visa a um horizonte maior (no caso, jogar), não faz sentido perguntar se vi ou ouvi o berimbau chamar como se fossem canais perceptivos independentes. O fato é que percebo o
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O constato da reversibilidade do tato, da visão – e de algum modo da audição, já que posso ouvir a vibração interna da minha voz quando falo ou emito algum som – não implica em dizer que os dois lados da percepção, sentiente e sentido, se encontrem confundidos. Isso porque não há uma coincidência ou simultaneidade das duas experiências: “sempre estou do mesmo lado do meu corpo” (MERLEAU-PONTY, 1964, p. 192). De fato, fazendo a experiência de tocar uma mão com a outra, no momento que reverto a posição de tocado, a de tocante se me escapa. Há um hiato entre esses dois momentos da minha vida tátil talvez semelhante ao deslocamento do ver e do ser visto que perpassa o jogo de ilusão visual na capoeira.
berimbau com meu corpo e que atribuo significado a esse toque específico, finalizando o jogo, por exemplo. Caso contrário, o mestre irá cantar para mim versos de cantigas improvisados (e ao mesmo tempo clássicos): “menina preste atenção, berimbau está chamando”. Nota-se, “Preste atenção”, pode significar ver, ouvir, sentir...
Além dessa conjunção entre modos de percepção sensorial, o conceito de reversibilidade dos sentidos vem questionar a repartição das atividades perceptivas em domínios de atividade (sujeito) e passividade (objeto). No contexto de fazeres imbricados de modo indissociável, como aqueles que eu listei acima, ver e ser visto (iludir), cantar e ouvir, tocar e seguir o berimbau são saberes corporais em relações de continuidade, revezamento, complementaridade, fusão.
De fato, todas essas habilidades medeiam tarefas ativas cuja eficiência é adquirida de modo interdependente: ouço mais se aprendi a tocar, vejo os jogos de ilusão à medida que sou capaz de iludir, e assim adiante. Podem assim ser definidas como as duas faces de uma mesma habilidade e de uma mesma ação. Em vez de classificar as habilidades em categorias ativas e passivas, dizer que são reversíveis retrata a integração das percepções tal como ocorre no jogo de capoeira, onde as “ações” mais relevantes e valorizadas são justamente aquelas que seriam caracterizadas como passivas numa apreensão mais clássica e polarizada da percepção sensorial.
Com efeito, vale sublinhar que as habilidades centrais da malícia giram em torno de perceber intenções, saber ouvir, evadir-se, evitar, parecer. Nesse contexto, faz todo sentido afirmar que toda percepção é também uma ação.
Em sua nova reflexão sobre a propriedade sinérgica do corpo, Merleau-Ponty observa que esse fenômeno extrapola os limites do corpo próprio operando nas relações intersubjetivas. A reversibilidade no âmbito de dois ou mais organismos – que o filósofo denominou intercorporeidade (1964, p. 185) – faz com que as ações se ajustem de forma exata em um mundo partilhado. A relação perceptiva se afasta ainda mais do modelo clássico, sujeito/objeto inserindo a dimensão coletiva no sujeito da percepção, como o ressalta a leitura de Rabelo dos aportes de Merleau-Ponty para o estatuto dado ao corpo nas Ciências Sociais:
A reflexão sobre o corpo produz assim um descentramento do sujeito [...] Ao mesmo tempo enfatiza a cumplicidade operante entre corpo e mundo, não apenas expondo a presença do mundo e do “outro” no fundo da própria subjetividade, como também revelando a sociabilidade enquanto condição existencial que funda qualquer processo de subjetivação. Minha existência encarnada se tece sob o horizonte da existência do outro; meus gestos retomam e respondem ao outro, nos seus gestos descubro minhas intenções.
Através dos nossos corpos, nossas ações entrecruzam-se, referem-se mutuamente e por vezes adquirem uma fluência ou um ritmo que nos configura enquanto um nós, sujeito coletivo de práticas e discursos. (2008)
Isto é, habitar o mundo da capoeira pressupõe sintonizar suas percepções e orientar seus gestos em um espaço/ritmo/sentido partilhado. As interações entre jogadores dão maior visibilidade a referência mútua dos gestos e, portanto, das percepções que subjaz a qualquer ação coletiva187. Se no quotidiano, a partilha de um mesmo mundo é, no mais das vezes, implícita e não consciente, no jogo ela é constantemente reelaborada no sentido de um reajustamento das percepções e ações entre os parceiros. Aliás, uma das grandes dificuldades (e aprendizagens) do jogo reside nesse ajustamento dos ritmos, das ações, dos estilos e dos potenciais físicos e perceptivos para alcançar aquilo que os praticantes chamam de “linguagem comum”. Nas duplas que entram em jogo (em princípio aleatórias), são postos em diálogo jovens e velhos, mestres e novatos, crianças e adultos independentemente das suas competências ou experiência. Assim, o jogo repousa sobre uma adequação mútua de universos perceptivos e motores dos parceiros que possibilita a partilha de uma experiência sensível chamada de jogo.
Figura 8: Jogo do Mestre João Grande com Leozinho. Roda no Nzinga Foto: Zonzon
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Hall destaca a importância da sincronia de movimentos corporais durante as interações como fator que incide sobre a qualidade da comunicação. Afirma que “pessoas em interações movem-se juntas em um tipo de dança mas elas não têm consciência de seu movimento sincrônico e o fazem sem música ou orquestração consciente. (HALL apud BIZERRIL, 2007, p. 193)
Muitos capoeiristas não gostam de jogar com um iniciante, pois este, por ter pouca abertura perceptiva, não “responde”, isto é, não se sintoniza com seu par – e, menos ainda, com o ritmo e os preceitos rituais. Cabe ao mais experiente encontrar meios de comunicar ao alcance do novato para que possa haver um jogo. Isso significa conseguir cativar a sua atenção, levando-o a ver, ouvir e responder às interpelações sensórias. Por exemplo, a cadência da música ou a chamada do berimbau não sendo ouvida pelo novato, seu parceiro pode mostrar visualmente (com gestos, expressões) aquilo que a música está pedindo188. Há uma reiteração da mesma “mensagem” em diferentes linguagens, comparável às estratégias comunicativas que costumamos usar com quem não fala a nossa língua.
Nota-se que a redundância é uma dimensão central dos métodos de aprendizagem da capoeira e do próprio universo ritual da roda, não sendo, portanto, um procedimento exclusivo da situação narrada acima. Como veremos a seguir, as mesmas formas e figuras se repetem nas configurações da bateria musical, nas letras das cantigas e nos movimentos corporais propriamente ditos. Deste ponto de vista, as orientações para modos de ação são oferecidas e aprendidas no decorrer de todas as aprendizagens, seja com foco em habilidades visuais, musicais, sinestésicas ou mesmo nos ensinamentos orais. As diferentes facetas das práticas corporais mediante as quais se pode aprender/conhecer/compreender a tradição se reforçam mutuamente e confluem para promover certa(s) forma(s) de se mover no mundo. Assim, os grandes princípios filosóficos e/ou éticos da capoeira são incorporados (vistos, ouvidos, vivenciados sinestesicamente) tanto quanto elaborados verbalmente.