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2. ALGUMAS VERSÕES DA MALÍCIA

2.10 UM EPISÓDIO DE APRENDIZAGEM DA MALANDRAGEM

Igualmente relevante para a compreensão das formas em que a malícia é ensinada é atentar às ocorrências e as formulações em que esse traço é evocado durante os aprendizados práticos. Chegando no treino77, ao me aproximar do salão em que já tinha iniciado a aula, podia ouvir, pela janela aberta, a voz do professor interrompendo episodicamente o som do CD que cadencia a atividade. “Na malandragem!” lançava ele em voz alta, repetidas vezes. Um instante depois, quando pude presenciar a cena, constatei que se tratava de mostrar um movimento aparentemente simples, dito “chamada”, em que um dos dois jogadores, interrompendo a dinâmica do jogo na roda, convida o parceiro para um espécie de dança. Essa chamada é muitas vezes a ocasião de atacar de surpresa ou testar o nível de esperteza e de cautela do adversário, pois no meio da “dancinha” para frente e para trás, pode surgir um golpe de um dos jogadores. Também convém precisar que o movimento ou ritual de chamada, exclusivamente praticado na capoeira angola, é tido por muitos capoeiristas como um momento chave da mandinga78.

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Curiosamente, nunca tinha atentado aos modos orais de formulação sobre a malícia em situação de treino. Foi durante a escrita desse capítulo que ocorreu o episódio narrado. Por certo, a reflexão contínua sobre o tema da aquisição da malícia criou a disposição para ver, ouvir e dar sentido àquilo que era tão familiar que passava despercebido.

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Figura 3: chamada de frente. Roda de rua, Rio Vermelho. Foto: Abreu

No caso, era uma “chamada de costa”; assim, o movimento consistia em afastar-se do adversário em meio ao jogo, dando-lhe as costas, com braços abertos em cruz, ao tempo que se segue olhando em sua direção por cima do ombro. O professor pontuava cada exibição desse deslocamento pelo comentário: na malandragem! Isso tudo conjugado a uma expressão facial maliciosa, isto é, como quem manifesta um contentamento levemente disfarçado após ou, em previsão, de aplicar um bom golpe.

O que me chamou atenção então foi a formulação “na malandragem” – já ouvida tantas vezes como sua variante “na mandinga”, em situações semelhantes de aulas de capoeira ou nas narrativas do jogo de algum capoeirista na roda quando, para descrever a atuação de

um dos capoeiristas, o narrador afirma que veio, entrou, saiu ou voltou “na malandragem”. “Na malandragem” mais do que designar alguma coisa, ação ou movimento, indica a maneira em que se executa uma ação. A formulação qualifica um verbo ou, nos termos de uma análise sintática da oração, tem função adverbial. Refere ao como fazer – em oposição com o que fazer. O modelo fornecido pelo professor é uma composição do gesto (basicamente um deslocamento conjugado à posição dos braços e da cabeça), da expressividade do olhar e do meio sorriso, pontuado pelo dito: “na malandragem”. A imitação é o método de aprendizagem, sendo esta dinâmica a que predomina nos treinos de capoeira em geral. Ora a simplicidade do movimento, que qualquer um pode a priori reproduzir, sem precisar maior força, equilíbrio ou agilidade, torna evidente que o acerto está além de uma reprodução meramente “física”. Há algo da interpretação teatral; a malandragem precisa ser incorporada e, ao observar as tentativas da dúzia de alunos movimentando-se em torno do professor, percebi que poucos conseguiam ser convincentes!

Ser convincente seria, em primeiro lugar, um parecer, ou seja, expressar essa mistura de cordialidade ingênua e de cautela desconfiada. Obviamente, nem todos estão acostumados ou mesmo experimentaram alguma vez a conjugação desses dois sentimentos/posturas simultâneos ou, mais precisamente, não tiverem a oportunidade de expressar deliberadamente esse estado de indefinição. Mas seria também, além da aparência um estado de prontidão do corpo, o qual – seguindo com a dicotomia aparência/real – irá possibilitar que o jogador ataque ou se defenda inesperadamente com eficiência. Ora, esse segundo ponto envolve posição das pernas, distribuição do peso do corpo alternando entre a direita e a esquerda, proteção do rosto, amplitude da visão, etc. A incorporação da malícia, como se vê nesse caso, envolve tanto traços morais (a disposição para enganar ou desconfiar de um amigo) quanto físicos, no sentido de habilidades motoras e perceptivas.

A minha intenção com a apresentação dessa cena é de apontar para a inadequação das categorias aparência e realidade (ou essência) assim como para a oposição corpo/mente para dar conta da natureza peculiar da malícia. Com efeito, caberia perguntar-se se a malícia, enquanto postura (i)moral regendo interações de companheirismo conjugado à desconfiança é fruto ou fonte das habilidades físicas de prontidão para “o bom e o ruim” (a evasão, o ataque, a dança amistosa). Essa questão surge das observações empíricas que apontam para a dificuldade dos iniciantes em encenar e realizar a capoeira com malícia. É através dos treinos que ensinam ao corpo modos de relação ambígua, entrelaçando cooperação e confronto, que um novato pode se tornar um capoeirista malicioso e mandingueiro. Donde a hipótese de ocorrer um transbordamento de um fazer corporal para o âmbito mais amplo dos modos de

agir e de ser do capoeirista no seu cotidiano, sendo tal processo expresso na orientação didática proferida pelos mestres de que “precisa ser capoeirista na pequena roda de capoeira e na grande roda da vida”.