3. UMA VISÃO DO MUNDO
3.1 O OLHAR MALICIOSO: A OITIVA E O OLHAR DE SOSLAIO
Referindo às lembranças da aprendizagem da capoeira de Mestre Waldemar da Paixão, por volta dos anos trinta a quarenta do século passado, o historiador Frede Abreu afirma que a iniciação no jogo se dava na própria roda de capoeira, num procedimento chamado de “oitiva”: “era na roda, sem a interrupção de seu curso que se dava a iniciação com o mestre pegando nas mãos do aluno para dar uma volta com ele” (ABREU, 2003, p. 20). Por “oitiva”, entende-se tanto a observação quanto à vivência do jogo, como via de iniciação dos pretendentes capoeiristas. Embora não se tenha descrição mais detalhada desse processo, a referência ao mestre pegando na mão do iniciante, as narrativas de velhos capoeiristas que entraram na capoeira após semanas “colando” com mestre, prestando-lhe pequenos serviços,
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até serem aceitos como alunos88, sugerem que esse processo envolvia tanto o olhar quanto diversos fazeres, sem esquecer, é claro, o ouvir89. Pode-se assim associar a aprendizagem por oitiva à aprendizagem in loco, presencial e/ou participativa. Ou, nos termos da antropologia dos sentidos, a oitiva diz respeito à sinergia das percepções.
Era observando como também convivendo com os grandes capoeiristas que se aprendia os principais movimentos assim como os rituais e códigos do jogo, e a filosofia da malandragem numa época em que não existiam academias nem ensino sistematizado da capoeira. Com a estruturação de locais e formatos próprios à aprendizagem (principalmente a partir dos anos 50), os processos de transmissão se diversificaram sem, no entanto, destituir a habilidade visual da sua importância, inclusivo porque a imitação do modelo dos “mais velhos” ainda permanece fundamental na aquisição das habilidades corporais dos “mais novos”.
Não tratarei específica e diretamente aqui da aprendizagem através da imitação, questão que constitui uma problemática extensa e controvertida na área das ciências cognitivas, principalmente alimentada pelos aportes das neurociências90. O que está em pauta é a relevância da percepção visual no conjunto do processo de aprendizagem, contextualizado dentro dos grupos de capoeira, com suas diversas configurações de saber e poder. A imitação precisa então ser compreendida ao mesmo tempo em termos de habilidades perceptivas e motoras e de relações interpessoais e hierárquicas. A esse propósito, cabe lembrar as observações originais de Marcel Mauss a respeito das “técnicas corporais”. Nesse texto fundador dos estudos da corporeidade, o autor dedicava umas linhas à aprendizagem dos modos de andar peculiar às mulheres maori da Nova Zelândia, um saber corporal passado de mãe para filha, através de uma imitação reforçada pelo recurso ao “adestramento” (MAUSS, 2003, p.215-6).
Na capoeira, tampouco a imitação ocorre por si só, sem esforços do aprendiz e incentivos de parte dos modelos e “formadores”. O olhar implica assim um engajamento
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O relato de Sapoti. líder do Bando Tupinambá (capoeira angola de rua) sobre sua aprendizagem com os “velhos mestres”, no início dos anos 90, deixa claro que este tipo de convivência ainda estava se mantendo até uma época bem recente. Reproduzo a seguir um trecho dessa narrativa: “Aprendi as coisas assim. A informação não chegava assim. Tinha que colar no mestre. O mestre na marra dele. Você tinha que vir: „Mestre uma geladinha‟; „Conhaque aqui pro mestre‟; „Mestre, tira gosto, pá!‟. Você sentava aí do lado e o mestre ia se afeiçoando a você, né? Menino bom! [...]Aí começava a falar as coisas, começava a contar os causos dele. Aí que você aprende a capoeira, o que era a capoeira”[Entrevista Sapoti, janeiro de 2012]. Ainda ressalta que hoje, a convivência com os grandes mestres ocorre no âmbito de eventos e “worshops‟ de capoeira, “virou mercado”, pois o aprendiz paga para ter contato com quem tem esses saberes tradicionais.
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Embora o termo oitiva em seu sentido original refira à audição, como, aliás, o conhecemos na linguagem jurídica, os capoeiristas referem hoje à oitiva no sentido de observação.
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O antropólogo e capoeirista estadunidense Greg Downey consagrou um artigo à discussão da imitação na aprendizagem na capoeira ressaltando os limites desse modo de enculturação. (DOWNEY, 2010).
(como no caso da dita “oitiva”), em parte intencional, reunindo a percepção visual às demais percepções e esse conjunto perceptivo à realização motora, dentro de quadros de sentidos coletivos. Para ilustrar esse processo complexo, sugiro interpretar um ditado repetitivamente citado por Mestre Valmir, líder de um grupo de capoeira angola de Salvador. Em momentos do treino em que os alunos ficam observando os exercícios sem executá-los, o mestre costuma proferir, em tom irônico, a seguinte máxima: “se se aprendesse olhando, cachorro seria açougueiro!” 91
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Assim, o olhar do capoeirista precisa ser associado ao fazer, à experiência prática. Embora existam momentos específicos para observar, assistindo à roda notadamente, tal observação, além de envolver um estado de prontidão do corpo - questão sobre a qual voltarei ulteriormente, tornar-se-á esclarecedora e “didática” à medida que se aprende a ver como um capoeirista, isto é saber o que olhar e qual é o significado do que se vê: perceber detalhes, avaliar movimentos, situar os jogadores na escala dos saberes/poderes, etc.
Ainda no registro das fontes nativas mais tradicionais versando sobre as habilidades e as técnicas visuais, ao lado da dita “oitiva”, há frequentes alusões ao “olhar de soslaio” – termo já encontrado nos depoimentos sobre a malícia do capítulo precedente. Trata-se de um recurso tático, diretamente associado à astúcia, que visa em ocultar as intenções (MOURA, 1991). Com efeito, ao seguir o movimento dos olhos de um jogador, o adversário é capaz de adivinhar em que direção este se prepara a atacar. Com o olhar de soslaio, isto é, olhando seu alvo pelos cantos do olho, por baixo ou em um relance de olhos, esconde-se o objetivo do movimento pretendido. Isso porque a intenção já está prefigurado no olhar.
O olhar de soslaio e outras habilidades visuais que eram adquiridas fundamentalmente através da experiência na roda, são atualmente o objeto de um aprendizado mais sistematizado. É nessas condições, em que formas específicas de olhar são tematizadas e (parcialmente) explicitadas no processo de formação do capoeirista, que se torna possível vincular mais precisamente esse saber aos demais saberes corporais e morais do capoeirista.
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Concordo com esse adágio e diria que é justamente esse motivo que embasa a metodologia da “observação participante” adotada em inúmeras etnografias, e justifica a proposta de “participação observante” pregada por Wacquant (2002). Se o objetivo da pesquisa é de conhecer mundos culturas alheios, implica em submeter-se à experiência do fazer. Embora o antropólogo não pretenda (nem possa) transformar-se em seu objeto definitiva ou integralmente, a partilha da experiência de vida envolve o conjunto das experiências sensórias – aliás, extensamente comentadas nos relatos etnográficos clássicos. A observação dos jogos de capoeira, notadamente, fornece informações não só empobrecidas como diferentes sobre a dinâmica da interação do que o engajamento corporal do pesquisador. Além do ritmo, do calor, de emoções como o medo, a alegria que perpassam a experiência corporal e são relativamente inacessível aos olhos, o próprio olhar focal, fixo e intencional do observador não engajado na cena difere radicalmente do olhar em movimento do qual o capoeirista lança mão. Como já ressaltei na introdução desse trabalho, não é o mesmo mundo que está sendo visualizado desde uma posição sentada com (ou sem) caderno de notas e rodando, pulando, dançando, de cabeça para baixo, em estado de alerta.