• Nenhum resultado encontrado

1 A RESPONSABILIDADE CIVIL E A CONCESSÃO DE RODOVIAS COM

1.2 Da Responsabilidade civil

1.2.2 Da teoria da responsabilidade subjetiva

Os conceitos e linhas da teoria subjetiva se originaram no Direito Francês,

sendo considerado que a origem legal dessa teoria se baseia no art. 1382 do Código

de Napoleão, o qual teve influência nos códigos civis de vários países, dentre os

quais o do Brasil.

No Direito Brasileiro, o princípio da responsabilidade subjetiva está previsto

no art. 186 do Código Civil Brasileiro

63

.

62

LIMA, Alvino. Culpa e risco. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,1999, p. 41.

63

“Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.

Por essa teoria clássica, também chamada de teoria da culpa ou subjetiva, a

culpa

64

tem de restar provada por se constituir no fundamento da responsabilidade

civil e ser pressuposto necessário do dano indenizável, ou seja, em não havendo

culpa, não há responsabilidade. Nessa teoria, portanto, a responsabilidade do autor

do dano só se concretiza se ele agiu com dolo ou culpa.

Os elementos essenciais da responsabilidade civil pela teoria subjetiva são:

a ação ou omissão do agente, a culpa, a relação de causalidade e o dano.

Conforme previsto no art. 186, CCB, qualquer pessoa que, por ação ou

omissão, venha a causar dano a outrem é responsável, ou seja, a responsabilidade

pode advir tanto da conduta comissiva como da omissiva.

Sobre esse assunto Sérgio Gilberto Porto

65

afirma:

Algumas discussões têm emergido da proposta legal, mormente no que diz respeito com a conduta omissiva. Com efeito, a indagação pertinente diz respeito à circunstância de se saber se somente aquele que possui o dever

jurídico de impedir certa circunstância danosa é que será responsabilizado

pela omissão ou também qualquer pessoa que desenvolver conduta omissiva será atingida pelo dever de indenizar?

A omissão é uma conduta negativa, ou seja, configura-se quando uma

pessoa deixa de realizar uma determinada ação, ou de agir de determinada forma.

Quanto à omissão, Rui Stoco

66

afirma: “A omissão é um non facere

relevante para o Direito, desde que atinja a um bem juridicamente tutelado”.

64

“A culpa, uma vez que se configura, pode ser produtiva de resultado danoso ou inócua. Quando tem conseqüência, isto é, quando passa do plano puramente moral para a execução material, esta se apresenta sob a forma de ato ilícito. Este, por sua vez, pode ou não produzir efeito material, o dano. À responsabilidade civil só esse resultado interessa, vale dizer, só com a repercussão do ato ilícito no patrimônio de outrem é que se concretiza a responsabilidade civil e entra a funcionar o seu mecanismo”. (DIAS, 2006.. p. 134).

65

PORTO, Sérgio Gilberto. Responsabilidade civil - responsabilidade objetiva e dano nuclear. Revista

da AJURIS, Porto Alegre, p. 186-210, [s.d.], Edição temática de responsabilidade civil, p. 189. 66

STOCO, Rui. Responsabilidade civil e sua interpretação jurisprudencial. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, p. 65.

A culpa

67

, no sentido lato sensu, envolve o dolo e a culpa ‘stricto sensu’ que

se desmembra na negligência, na imprudência e na imperícia.

O conceito de culpa é um dos pontos mais delicados da responsabilidade

civil.

Para Alvino Lima

68

: “Culpa é um erro de conduta, moralmente imputável ao

agente e que não seria cometido por uma pessoa avisada, em iguais circunstâncias

de fato”.

A culpa, que é caracterizada no Direito Francês pelo vocábulo faute,

representa os elementos subjetivos que direcionam a conduta do agente causador

do dano, sendo que, no seu sentido amplo, a culpa é o elemento subjetivo

indispensável à caracterização da responsabilidade subjetiva.

O art. 186 do Código Civil Brasileiro traz previsão do dolo através da

expressão ação ou omissão voluntária e da culpa pela expressão negligência ou

imprudência, sendo que para conseguir, com base na responsabilidade subjetiva, a

reparação do dano, a vítima, em regra, terá de provar dolo ou culpa stricto sensu do

agente.

Quando há vontade de violar direito, ou seja, é um agir consciente,

intencional, estamos diante do dolo. A culpa stricto sensu é quando a violação do

direito ocorre por falta de diligência.

Para se configurar a responsabilidade subjetiva ou aquiliana e o dever de

indenizar, basta que haja levíssima culpa, ou seja, um pequeno erro de conduta

conforme a expressão: “In lege Aquilia et levissima culpa venit”.

67

“Das noções expostas, ficou-nos a concepção de culpa genérica, que se desdobra em dolo e culpa propriamente dita; aquele não é o vício de vontade, mas o elemento interno, que reveste o ato da intenção de causar o resultado, ao passo que na culpa, em sentido restrito, a vontade é dirigida ao fato causador da lesão, mas o resultado não é querido pelo agente. A culpa é falta de diligência na observância da norma de conduta, isto é, o desprezo, por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com resultado, não objetivado, mas previsível, desde que o agente se detivesse na consideração das conseqüências eventuais da sua atitude”. (DIAS, 2006. p. 149).

68

José Aguiar Dias

69

assevera sobre a dificuldade de provar a culpa na

responsabilidade extracontratual:

Se é relativamente fácil provar o prejuízo, o mesmo já não acontece com a demonstração da culpa. A vítima tem à sua disposição todos os meios de prova, pois não há, em relação à matéria, limitação alguma. Se, porém, fosse obrigada a provar, sempre e sempre, a culpa do responsável, raramente seria bem–sucedida na sua pretensão de obter ressarcimento. Os autores mais intransigentes na manutenção da doutrina subjetiva reconhecem o fato e, sem abandonar a teoria da culpa, são unânimes na admissão do recurso à inversão da prova, como fórmula de assegurar ao autor as probabilidades de bom êxito que de outra forma lhe fugiriam totalmente em muitos casos. Daí decorrem as presunções de culpa e de causalidade estabelecidas em favor da vítima: com esse caráter, só pela vítima podem ser invocados.

Entretanto, como essa prova muitas vezes se torna difícil de ser conseguida,

o nosso direito positivo admite, em hipóteses específicas, casos de responsabilidade

sem culpa, que é objeto de análise na seqüência do trabalho.

Para haver responsabilidade civil tem de ter havido prejuízo real, o qual deve

restar provado e que se constitui no dano causado pelo agente e sem o qual

ninguém pode ser responsabilizado civilmente.

Se não se verificar prejuízo, mesmo havendo violação de um dever jurídico,

e que tenha existido culpa e até mesmo dolo por parte do infrator, nenhuma

indenização será devida. A inexistência de dano impede o pedido de reparação, por

falta de objeto.

José Aguiar Dias

70

enfrenta a matéria assinalando que:

O que o prejudicado deve provar, na ação, é o dano, sem consideração ao seu quantum, que é matéria da liquidação. Não basta, todavia, que o autor mostre que o fato de que se queixa, na ação, seja capaz de produzir dano, seja de natureza prejudicial. É preciso que prove o dano concreto, assim entendida a realidade do dano que experimentou, relegando para a liquidação a avaliação do seu montante.

69

DIAS, 2006, p. 110.

70

Essa lesão pode se refletir em bens suscetíveis de valoração econômica e,

portanto, um dano patrimonial, também chamado de dano material. Quando a

violação atinge bens que não tenham conteúdo econômico, estamos diante de um

dano extrapatrimonial, também chamado de imaterial ou, ainda, de dano moral. É

possível que, a partir de um mesmo fato, a pessoa sofra dano material e dano moral,

podendo ser cumuláveis as indenizações, nos termos do previsto na súmula n° 37,

do Superior Tribunal de Justiça.

Assim sendo, só ocorre responsabilidade civil, resultando na obrigação de

ressarcir, se houver dano efetivo.

A relação de causalidade é o vínculo existente entre a ação ou omissão do

agente e o dano sofrido pela vítima, ou seja, é uma relação de causa e efeito

decorrente da ação ou omissão do agente que causou o dano. Essa ligação entre a

conduta do agente e o dano dela decorrente é o nexo causal e em nosso

ordenamento está expressa no verbo causar, no art. 186, do CCB.

Para que haja a obrigação de indenizar, a causa do dano deve estar

relacionada com o comportamento do agente, ou seja, tem de haver o nexo causal,

uma vez que o dano nada mais é que o reflexo da conduta do agente. É através do

nexo causal que se define quem é o responsável pelo dano.

Quando o fato é único, é possível apurar o nexo causal sem maiores

dificuldades, porém, quando ocorre causalidade múltipla torna-se mais difícil verificar

qual das causas realmente foi a causadora do resultado. Nesses casos, como se

trata de matéria de fato, a solução dependerá de produção de prova.

No caso de haver vários agentes contribuído para o resultado danoso, terá

ocorrido o denominado nexo causal plúrimo, podendo todos os agentes ser

responsabilizados, de forma solidária, pelo dano causado, nos termos do previsto no

art. 942, 2ª parte, do CCB.