• Nenhum resultado encontrado

5 O OFÍCIO DOCENTE

5.2 De volta ao Liceu (1913-1921)

5.2.3 Das faltas

O controle do Estado sobre o Liceu Maranhense tornou-se mais perceptível na relação com outros espaços de poder, então ramificações do governo: Secretaria do Interior e Secretaria de Fazenda, quando aquela informava as deliberações do governador à segunda

57 O ofício n°. 165, de 17 de junho de 1914, do Secretário do Interior em São Luís, Raul Machado, era destinado

ao diretor do Liceu Maranhense comunicando sobre o corpo docente por determinação do governador do Estado. Havia também o ofício nº. 166, com a mesma data e conteúdo do anterior, mas endereçado ao Secretário da Fazenda. Esse último documento seria para dar ciência das nomeações proferidas no Liceu Maranhense, cuja equipe de professores obedecia aos critérios postos na lei nº. 666 de 28 de abril de 1914. “Art. 12°. Para constituir o corpo docente do Liceu, aproveitará o governo, tanto quanto possível, os atuais professores do Liceu e da Escola Normal, de preferência os vitalícios”. ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. (Documento nº. 3331: cópias de telegramas enviados pelo secretário do interior a diversas autoridades).

instância, sobre convocação para compor ou presidir mesas examinadoras, autorização de pagamento de funcionários ou mesmo justificação ou não das faltas ao trabalho nessa instituição de ensino secundário.

Por exemplo, a lista de professores liceístas foi enviada com a proximidade dos exames finais no dia 6 de novembro de 1914 pela direção da escola estadual. Nesta relação apresentava as disciplinas e os professores que formariam a banca examinadora, onde Nascimento Moraes se encarregaria pelo parecer das matérias de: Geografia, Álgebra, Geometria, Trigonometria e Inglês. O novo Secretário do Interior Bento Moreira Lima respondeu ao documento enviado, informando as alterações feitas na composição das mesas examinadoras58.

Concomitantemente, Nascimento Moraes continuava lecionando no Liceu Maranhense como efetivo desde o ano de 1914 e trabalhando no órgão federal desde o ano de 1911. Nesse sentido, havia uma certa flexibilidade para ocupar ambas as profissões. Isso pela relação direta que construiu com a Imprensa Oficial59, no que tange à divulgação de denúncias, irregularidades e atividades realizadas, e com a Secretaria do Interior60 quando ocupava o cargo de Encarregado do Expediente da Subcomissão de Estudos e Melhoramentos do Porto. É importante salientar que essa comunicação para fins educacionais era comum entre a direção da escola e depois ele era informado, caso fosse de seu interesse.

No que tange às faltas ao trabalho, Nascimento Moraes deixou de comparecer algumas vezes no Liceu Maranhense, entre os anos de 1915 e 1920, conforme informações de ofícios entre as Secretarias do Interior e de Fazenda. Essas ocorrências se deram nos governos de Herculano Parga e Urbano Santos, sendo que o conteúdo de cada documento não

58 O ofício nº. 815, de 10 de novembro de 1914, do Secretário do Interior Bento Moreira Lima ao diretor do Liceu

Maranhense, composto de três laudas, sendo a primeira folha datilografada e as demais manuscritas, informava das alterações feitas na lista das mesas examinadoras, até então anexadas ao ofício nº. 153, de 6 de novembro corrente enviado pela direção desse estabelecimento. ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. (Documento nº. 3332: cópias de telegramas enviados pelo secretário do interior a diversas autoridades).

59 O documento nº. 142, de 27 de janeiro de 1915, do Secretário do Interior Bento Moreira Lima era destinado a

Nascimento Moraes, que ocupava o cargo de Encarregado do Expediente da Subcomissão de Estudos e Melhoramentos do Porto. O presente conteúdo acusava o recebimento do ofício, datado de 22 do corrente mês, comunicando a instalação dos escritórios do referido órgão federal, localizado à Rua do Sol, nº. 55. ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. (Documento nº. 3335: cópias de telegramas enviados pelo secretário do interior a diversas autoridades).

60 Revezando-se entre o ofício docente e a atividade de 2° escriturário da subcomissão de Estudos e Melhoramentos

do Porto, Nascimento Moraes prestou queixa na polícia contra “o sr. Joaquim Couto de Souza, funcionário da Estrada de Ferro de S. Luiz a Caxias, por haver mandado retirar do material flutuante da referida subcomissão, várias vigas da carreira para concertos de pequenas embarcações” (PACOTILHA, 1914, p. 4). Com isso, abriu-se o inquérito, segundo o jornal Pacotilha de 31 de outubro de 1914, edição nº. 257 com o título “Pela Polícia”, envolvendo esta e outras notas não relacionadas a essa questão.

especificava o motivo pelo qual o professor tenha faltado e também houve faltas justificadas sem remuneração.

QUADRO 10 - Demonstrativo de Faltas Justificadas de Nascimento Moraes

Ano 1915 1917 1920

Tipo de Documento Ofício nº. 757 Documento nº. 38 Ofício nº. 1991

Data 14 de junho 11 de janeiro 30 de agosto

Remetente Secretário do Interior Bento Moreira Lima Demosthenes Macedo Secretário do Interior Secretário do Interior Domingos Barbosa

Destinatário Secretário da Fazenda Secretário da Fazenda Secretário da Fazenda Número de Faltas

Justificadas 4 1 4

Descrição das Faltas 2 com ordenado e 2 sem vencimento, referente a

maio de 1915 Dezembro de 1916

2 com ordenado e 2 sem vencimento do final de julho de 1920

Fonte: Elaborada pela autora com dados extraídos do APEM - Arquivo Público do Estado do Maranhão.

De modo geral, podem-se considerar essas faltas normais, não excessivas dentro do regulamento61 vigente. Provavelmente, Nascimento Moraes tenha feito nesse tempo um requerimento prévio destinado ao Secretário do Interior, comprovando suas ausências com atestado médico ou outro documento aceitável, antes do fechamento da folha de pagamento, para que não tivesse prejuízo ou desconto salarial.

No caso do professor liceísta ausentar-se do trabalho, a justificação de sua falta caberia ao governo do Estado, havendo a comunicação entre as Secretarias do Interior e de Fazenda. Se a nomeação de professor do Liceu Maranhense feita pelo próprio governador denotava uma relação de dependência e domínio do Estado sobre essa escola estadual, o poder de colocar, retirar ou justificar faltas trabalhistas encerrava uma dimensão complexa nessa relação. Não poderia, portanto, o diretor do Liceu Maranhense, mesmo sendo chefe imediato, justificar as faltas dos funcionários, uma vez que suas funções descritas no próprio regulamento se limitavam a fiscalizar o funcionamento escolar.

61 Tomando como parâmetros os regulamentos do ensino público de 1896 e 1923, mesmo distantes temporalmente

apresentam o mesmo sentido. Capítulo XVI – Das licenças e faltas. Art. 207°. As faltas serão justificadas até ao último dia do mez, a requerimento dos interessados dirigido ao Secretário do Interior. (MARANHÃO, 1923, p. 45). Capítulo VI – Dos prazos e faltas. Art. 30°. O professor público que, por espaço de tempo menos de trinta dias, faltar sem licença, à eschola, incorrerá, além das outras especificadas neste Reg., nas seguintes penas: a) Desconto, nos vencimentos, da gratificação correspondente ao número de faltas, que houver dado, si determinadas por motivo justo, comprovado com documento; b) Perda de todos os vencimentos correspondentes aos dias em que se derem as faltas, si não houver motivo justo. (MARANHÃO, 1896, p. 39). Em relação às faltas ao trabalho seguia-se a tônica de haver desconto no vencimento, caso o docente não comprovasse por documento o motivo de ter faltado ás aulas ou não fizesse um requerimento dentro do mês do referido pagamento.