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5 O OFÍCIO DOCENTE

5.2 De volta ao Liceu (1913-1921)

5.2.2 O corpo docente

No Liceu Maranhense, as oportunidades se multiplicaram para Nascimento Moraes, com participação em congresso, publicação de sua produção literária mais conhecida Vencidos

sido convocado diversas vezes para presidir mesas examinadoras dentro e fora desse ambiente educacional.

Além disso, essa instituição escolar foi o lugar basilar de Nascimento Moraes, sendo também uma ramificação do poder do Estado. Como concursado de lá, teria que assumir os compromissos que lhe foram impostos, o que não lhe impedia de transitar em outros lugares sociais (a imprensa periódica, as obras do Porto, a maçonaria, a Academia Maranhense de Letras, etc.) que, de certa maneira, concorriam para a mesma órbita, a ordem estatal. De acordo com Certeau (2014, p. 98):

Cada vez mais as táticas vão saindo de órbita. Desancoradas das comunidades tradicionais que lhes circunscreviam o funcionamento, elas põem a vagar por toda a parte num espaço que se homogeneiza e amplia. Os consumidores se tornam migrantes. O sistema onde circulam é demasiadamente regulamentado para que possam escapar dele e exilar-se alhures.

Sucedendo ao governo do Estado, Herculano Nina Parga (1914-1918) foi empossado em 26 de abril de 1914. Do ponto de vista econômico, era um momento próspero no setor agroexportador. Segundo Meireles (2008), sua gestão desdobrou a Secretaria Geral do Estado em duas: Secretaria do Interior, Justiça e Segurança e Secretaria da Fazenda. Tudo referente à instrução pública era tratado na primeira secretaria, ao passo que na segunda, as questões financeiras.

No campo educacional, esse governo baixou o decreto n°. 27, de 25 de julho de 1916, o qual o Liceu Maranhense se sujeitaria à fiscalização federal para equiparar-se ao colégio Pedro II (FERNANDES, 2003). E decretou a lei nº. 666 de 28 de abril do corrente ano de reforma da instrução pública do Estado, oferecendo pelo primeiro artigo, um ensino público leigo e gratuito para todos. Quanto ao ensino secundário, o diretor do Liceu Maranhense seria indicado pelo governador do Estado, dentre os membros do corpo docente, com atribuições regulamentadas, dentre as quais de fiscalizar o funcionamento institucional.

No que se refere ao pagamento do corpo docente e de funcionários do ensino público, passava necessariamente pelas instâncias: Secretaria do Interior, Imprensa Oficial, Secretaria da Fazenda e direção do Liceu Maranhense. A comunicação entre esses espaços de poder dava-se por meio de ofícios, sendo que a Secretaria do Interior funcionava como articuladora entre eles. Como exemplo a seguir, o procedimento desses órgãos públicos em providenciar a remuneração do mês de maio de 1914 dos funcionários do Liceu Maranhense, onde trabalhava Nascimento Moraes.

Primeiramente, o diretor do Liceu Maranhense requisitou as folhas em branco por meio de ofício54 no dia 27 de maio para o pagamento do professorado, junto ao Secretário do Interior Raymundo Leôncio Rodrigues que, por sua vez, efetuou o encaminhamento do pedido ao diretor da Imprensa Oficial do Estado. Em seguida, a instituição de ensino recebia a resposta de que havia sido autorizada a solicitação feita. Em 2 de junho, a escola estadual e a Secretaria de Fazenda eram comunicadas de que havia sido conferida a folha de pagamento dos funcionários e lentes, na importância total de 7.000$47855 (sete mil, quatrocentos e setenta e oito reis), referente ao mês de maio findo. Praticamente, uma semana para que fosse efetuada a remuneração salarial.

Em relação ao corpo docente56 do Liceu Maranhense, o representante da Secretaria do Interior Raul Machado comunicou no dia 17 de junho de 1914 ao diretor desse estabelecimento de ensino que o governador do Estado, por portaria desta data e de acordo com a lei de reforma da instrução pública do corrente ano, resolveu designar as seguintes cadeiras da referida instituição, bem como os professores para nelas terem exercício, incluso na lista Nascimento Moraes ministrando Geografia.

Portuguez - Domingos Affonso Machado, Literatura – Dr. Antonio Lopes da Cunha, Latin – Conego João dos Santos Chaves, Inglez – José Feliciano Moreira de Souza, Mathematica – Drs. Juvencio Odorico de Mattos e Oscar Duarte de Barros, Chimica – Dr. José de Almeida Nunes, Physica – Dr. Luis Serra de Moraes Rego, Geographia – José do Nascimento Moraes, Logica – Antonio Francisco Leal Lobo, Desenho – Luiz Ory, Gymnastica – João da Matta Lopes; e nomear para exercerem effectivamente os cargos de professores de História Natural, Historia Universal, Chorographia e História do Brazil, respectivamente, os professores do referido estabelecimento, dr. Oscar Lamagnere Leal Galvão, Jeronimo José de Viveiros e Raymundo Lopes da Cunha (ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO, 1914).

54 Os ofícios nº. 71 e nº. 72 do Secretário do Interior em São Luís, Raymundo Leôncio Rodrigues, de 27 de maio

de 1914 tratavam do fornecimento das cinquenta folhas em branco para o pagamento do professorado do Liceu Maranhense, destinadas respectivamente ao diretor da Imprensa Oficial do Estado e diretor do Liceu Maranhense, em resposta ao ofício previamente encaminhado por este do dia 23 do corrente mês. Já os ofícios nº. 112 e n°. 118 do Secretário do Interior em São Luís, Raymundo Leôncio Rodrigues, em 2 de junho de 1914 informavam que a folha de pagamento do mês de maio foi devidamente conferida, nesta ordem, ao diretor do Liceu Maranhense, que recebeu em anexo o ofício nº. 84 que ele havia enviado datado do dia anterior (1 de junho), e ao Secretário da Fazenda. ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. (Documento nº. 3331: cópias de telegramas enviados pelo secretário do interior a diversas autoridades).

55 O valor por extenso está conforme o documento original, embora o correto seja 7 contos e 478 réis.

56 O ofício n°. 165, de 17 de junho de 1914, do Secretário do Interior em São Luís, Raul Machado, era destinado

ao diretor do Liceu Maranhense comunicando sobre o corpo docente por determinação do governador do Estado. Havia também o ofício nº. 166, com a mesma data e conteúdo do anterior, mas endereçado ao Secretário da Fazenda. Esse último documento seria para dar ciência das nomeações proferidas no Liceu Maranhense, cuja equipe de professores obedecia aos critérios postos na lei nº. 666 de 28 de abril de 1914. “Art. 12°. Para constituir o corpo docente do Liceu, aproveitará o governo, tanto quanto possível, os atuais professores do Liceu e da Escola Normal, de preferência os vitalícios”. ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. (Documento nº. 3331: cópias de telegramas enviados pelo secretário do interior a diversas autoridades).

O jornal Pacotilha, de 18 de junho de 1914, edição nº. 142, intitulada “O Governo do Estado”, também publicou a mesma lista de professores e suas respectivas cadeiras dessa instituição. Além disso, na presente nota designava interinamente Antônio Lobo, então professor de lógica para diretor desse estabelecimento de ensino, em lugar do professor de desenho Luiz Ory. “Foi designado o sr. Antonio Lobo, para servir de diretor do Liceu (...), durante o impedimento do efetivo, o sr. Luiz Ory” (PACOTILHA, 1914, p. 1). Reencontraram- se, então, Nascimento Moraes e seu adversário da imprensa periódica, agora como colegas de trabalho.

Enquanto estava como diretor do Liceu Maranhense, Antônio Lobo57 tentou uma mediação com o Estado em benefício da instituição, através do Secretário do Interior Raul Machado, ao encaminhar duas medidas propostas pela congregação dos lentes desta instituição, por detectarem falhas no regulamento escolar: de revogação dos artigos 49° e 79°, respectivamente, sobre alunos e professores, e de alterações no programa de ensino de algumas disciplinas. Em resposta, provisoriamente seria possível revogar apenas o artigo 49° que permitia ao aluno entrar em sala de aula até quinze minutos depois de começada.

Sobre o programa de ensino, Raul Machado aprovou a proposta do estudo de Geografia, Corografia e História do Brasil no primeiro ano; de Corografia e História do Maranhão no segundo, e de História Natural no terceiro. Ressaltou também a possibilidade de se alargar o tempo marcado para o estudo das disciplinas de Geografia, ministrada pelo professor Nascimento Moraes, e de História Universal, ainda dentro dos cinco anos de duração do curso neste estabelecimento de ensino.