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4 UMA ANÁLISE CRIMINOLÓGICA CRÍTICO-FEMINISTA SOBRE A

4.2 RESULTADOS DA PESQUISA

4.2.5 Das prisões processuais

Neste tópico, abordaremos a questão da ocorrência de prisões processuais: prisão em flagrante, ocorrida no início do processo, ou prisão preventiva durante o curso do processo. As infrações penais (crimes ou contravenções), cometidas contra a mulher, nas condições previstas pela Lei Maria da Penha, admitem a prisão em flagrante, contrariando o disposto no artigo 69, da Lei nº 9.099/95. Ocorre que, como já vimos, o artigo 41 do diploma em análise (Lei 11.340/2006) afasta, expressamente, a incidência da Lei dos Juizados Especiais Criminais nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher.

A possibilidade de decretação da prisão preventiva foi aprovada por grande parte da doutrina e ratificada pelo Supremo Tribunal Federal que, além de corroborar o cabimento da prisão provisória nos casos de violência doméstica, também permitiu a manutenção da prisão (inicialmente em flagrante), quando houvesse os requisitos da prisão preventiva.

É sempre bom alertar que segundo a doutrina majoritária, para o decreto e a manutenção da prisão, é necessário aferir a adequação da medida à gravidade do crime: necessidade versus proporcionalidade, restando expresso que a prisão preventiva deve ser o último recurso a ser utilizado.

Os números aqui apresentados irão constatar as consequências do enrijecimento da legislação: dos 239 processos analisados, em 63 deles (26,4%) ocorreram prisão em flagrante. Contudo, 37 dessas prisões, ou seja, 58,7%, foram convertidas em medida protetiva.

GRÁFICO 11 – PRISÃO EM FLAGRANTE

Fonte: autoria própria

Com a vedação da aplicação da Lei nº 9.099/1995 houve a ampliação do alcance do Direito Penal no âmbito das relações familiares, contrariando o princípio da intervenção mínima já abordado por nós ao longo deste trabalho.

Dos processos analisados, 25 (10,5%) tiveram prisão preventiva decretada, 211 (88,3%) não tiveram decreto de prisão preventiva e 1 processo teve pedido negado, em razão do réu já estar preso preventivamente em outra ação de violência doméstica.

GRÁFICO 12 – PRISÃO PREVENTIVA DECRETADA

Fonte: autoria própria

Em que pese se tratarem, em sua ampla maioria, de infrações de menor potencial ofensivo (delitos que, via de regra, são incompatíveis com a decretação de prisão preventiva), nos processos analisados na Comarca de Caicó em que esta foi decretada o tempo médio de duração foi de 75 dias, sendo que há registros de prisões dessa natureza que perduraram 235 dias.

O cabimento de prisão preventiva para os crimes de menor potencial ofensivo foi uma inovação trazida pela Lei 11.340/2006 que possibilitou o encarceramento cautelar para garantir a eficácia das medidas protetivas de urgência. Parte da doutrina entende que a prisão preventiva do agressor como forma de se cumprir as medidas protetivas (tendo em vista possuírem, majoritariamente, carácter civil) não possui respaldo constitucional, vez que afronta o previsto no artigo 5º, inciso LXVII, que autoriza a prisão civil somente nas hipóteses de dívidas de alimentos e depositário infiel49.

Outro dado que nos chamou atenção foi que em apenas 11,3% do total de procedimentos analisados houve a contratação de advogado particular pelo réu. O restante dos procedimentos

49Desde a adesão do Brasil, no ano de 1992, À Convenção Interamericana de Direitos Humanos e ao Pacto de São

José da Costa Rica a previsão constitucional da prisão civil do depositário infiel deixou de ter aplicabilidade no ordenamento jurídico pátrio. Nesse sentido não há base legal para aplicação da parte final do artigo 5º, inciso LXVII, da Constituição Federal de 1988, ou seja, para a prisão civil do depositário infiel. Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/menuSumario.asp?sumula=1268

ou eram encerrados numa fase anterior à exigência legal de defesa técnica ou os réus foram assistidos por defensores públicos.

A falta de assistência judiciária adequada para os pobres é um dos principais entraves ao efetivo acesso à justiça, conforme preceitua Cappelletti (1988). Nos casos em que o poder punitivo está em evidência, a presença de uma defesa técnica de qualidade é ainda mais vital. Porém, é de conhecimento geral que as Defensorias Públicas de todos os estados brasileiros enfrentam grandes dificuldades.

A alta demanda de processos e a precariedade no funcionamento dessas instituições têm o efeito prático de ser quase impossível manter um atendimento individual de primeira categoria a todas as pessoas que vivem na pobreza e se encontram com problemas de ordem judicial. Assim, a assistência jurídica aos pobres torna-se, ela mesma, pobre também.

As prisões cautelares que, ao menos teoricamente, são amparadas na garantia da normalidade no decurso do processo penal e para que haja eficácia na aplicação do Direito Penal, são decretadas de forma cada vez mais crescente em nosso país como instrumento de controle social. Um considerável número de lides com a temática da violência doméstica se utiliza da prisão em alguma fase do processo.

Se geralmente o encarceramento não ocorre ao final do processo, conforme será exposto adiante, de alguma forma o poder punitivo atua até as últimas consequências. Com a decretação da prisão preventiva, o sujeito é introduzido no sistema carcerário, mesmo que ao final do processo seja condenado a uma pena que será cumprida em regime aberto ou mesmo absolvido por ausência de provas, como acontece na maioria das vezes.

Todo estigma social será carregado pela pessoa que foi selecionada para conhecer os suplícios do cárcere. Esses sofrimentos são ainda mais intensos nos casos em que envolvem violência doméstica, pois alcança vítima, filhos e todos os familiares que vivenciam verdadeiras cenas de dor e humilhações ao visitarem os presídios.

Já sabemos que o sistema penal é seletivo e ataca principalmente os indivíduos já vulneráveis e marginalizados da sociedade, ocasionando sofrimento durante o cumprimento da pena e para além dela, uma vez que o rótulo de “ex-condenado” salienta as exclusões sociais preexistentes e tem duração maior que o período de encarceramento.

Como nos casos em que há decretação de prisão as vítimas de violência doméstica são as primeiras pessoas a irem visitar os companheiros nos presídios, elas têm acesso à realidade dura que as consequências negativas do cárcere promovem na vida do sujeito em situação de

encarceramento. Nesses casos, o Direito Penal cria outra violência, pois, desconsidera os laços afetivos entre “vítima e agressor” (MONTENEGRO, 2015).

A partir desse fato, resta evidente que o enrijecimento penal causa uma dupla vitimização na mulher. Além de muitas vezes carregar a culpa pela prisão da pessoa com quem tem uma história afetiva/familiar, ela também é diretamente atingida, seja porque a prisão ocasiona danos emocionais e financeiros, seja em razão da fama que recebe ao “defender” o agressor no procedimento criminal, sendo encarada como aquela que “apanha porque gosta” ou “não sabe o que quer”.

Como bem fala Vera Regina Pereira de Andrade (1997, p. 48): “de que adianta correr dos braços violentos do homem (...) para cair nos braços do Estado, institucionalizado no sistema penal, se nesta corrida de controle social informal ao controle formal, as fêmeas reencontram a mesma resposta em outra linguagem?”