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4 UMA ANÁLISE CRIMINOLÓGICA CRÍTICO-FEMINISTA SOBRE A

4.2 RESULTADOS DA PESQUISA

4.2.7 Do encerramento dos processos

Chegamos agora à etapa final da exposição dos dados obtidos em nossa pesquisa de campo. Neste momento, direcionamos o foco para o desfecho processual dos casos de violência doméstica que chegaram ao Judiciário caicoense. Analisando os 239 procedimentos alvos de nosso estudo, tivemos os seguintes desfechos: 4 condenações (1,7%), 43 absolvições (18%), 124 Ratificações (51,9%), 28 prescrições do direito de queixa (11,7%), 12 arquivamentos de inquérito (5%) e 7 extinções por morte do réu (2,9%).

Depois de termos analisado criticamente esses dados, concluímos que é muito pouco provável que tenha se dado a resposta mais adequada aos casos de violência doméstica e familiar submetidos à interferência estatal. É que, no sistema de justiça penal, a “solução” ofertada não passa de um ato eventual e secundário, que, comumente, resulta na frustração das expectativas da vítima, que muitas vezes só deseja romper com a dinâmica violenta das suas relações afetivas e familiares e não necessariamente a punição e encarceramento de quem a violentou.

GRÁFICO 14 - SENTENÇAS

Fonte: autoria própria

Chama a atenção o percentual de 51,9% de procedimentos encerrados em audiência de ratificação. Na prática, isso significa que a vítima “desistiu” da persecução criminal e deseja

encerrar o processo. Neste ato há uma total ausência de protagonismo da mulher, que sem possibilidade de melhor expor seu caso particular, é provocada a apenas responder “sim” ou “não” quando perguntada se deseja uma punição para a pessoa com a qual teve ou tem relação de afeto.

O Direito Penal se apropria desses conflitos e esquece de olhar para os envolvidos enquanto pessoas que precisam ser ouvidas e amparadas, sobretudo a mulher em situação de vulnerabilidade. Os responsáveis pelo julgamento dessas demandas sequer possuem condições materiais de se preocuparem com as particularidades/especificidades dos casos que a eles são submetidos, pela própria lógica desse sistema, e acabam repetindo padrões pré-estabelecidos nas suas decisões.

Além disso, ao ignorar o ponto de vista feminista (ou standpoint)54 que, além de uma perspectiva, é também uma vinculação com a luta política que pretende subverter a maneira como o conhecimento é produzido, o sistema de justiça penal se distancia das experiências das mulheres e dos impactos que as desigualdades de gênero causam no pleno desenvolvimento da sociedade. Nesse sentido, “adotar o ponto de vista feminista significa um giro epistemológico, que exige partir da realidade vivida pelas mulheres (sejam vítimas, rés ou condenadas) dentro e fora do sistema de justiça criminal” (MENDES, 2012, p. 188).

Criticamos a lógica binária que coloca os sujeitos na figura estática de vítima e infrator, vez que ela é inapropriada para solucionar os conflitos de ordem afetiva e familiar subjacentes à relação processual. A importância dos dados apresentados se dá quando há a constatação da falta de sensibilidade do julgador no tocante à genuína vontade da mulher, que a bem da verdade, sequer é colocada em discussão.

Ao retirarem as infrações que envolvem violência doméstica e familiar do âmbito dos Juizados Especiais Criminais, acabaram também com a possibilidade de diálogo entre as partes envolvidas que agora são impedidas de chegar a um acordo na esfera judicial. O fim da possibilidade de conciliação representa uma dupla vitimização da mulher que é silenciada ao longo de todo o processo penal tradicional (MONTENEGRO, 2015).

Além do alto percentual de renúncia à representação, houve também a decadência do direito de queixa em 11, 7% dos casos. Explicando, 28 ações dependiam da iniciativa da vítima (ou, se incapaz, do seu representante legal) para que houvesse o exercício do poder punitivo do Estado, pois, eram ações de iniciativa privada. A consequência prática da ausência de queixa

54 O standpoint é um prisma epistemológico que tem lugar na teoria crítica e pretende deslegitimar a visão

para os crimes de ação penal privada é a extinção da punibilidade, nos termos do artigo 107, inciso IV do Código Penal.

Para somar aos dados já apresentados, trataremos agora do percentual de absolvições ocorridas nos processos analisados. Dezoito por cento das sentenças proferidas foram absolutórias e elas nos deixaram a par de um problema vivenciado nos tribunais brasileiros, qual seja, a repetição da fundamentação embasada na falta de provas para a condenação.

As sentenças absolutórias, embasadas na ausência de provas, representam, em sua maioria, uma espécie de acordo entre vítima, Ministério Público e magistrado, que, atados pelo rito processual penal, não possuem alternativas se não absolver ou condenar o réu. Ausentes mecanismos legais, nessa fase processual, de acordo ou retratação, estando a mulher declarando veemente fatos contrários aos narrados inicialmente, os sujeitos processuais fazem a escolha pela absolvição como forma de respeitar a vontade da mulher, tirando-lhe da culpa por ser a responsável pelo encarceramento do sujeito com o qual mantém laços afetivos e familiares55.

Esse fenômeno acontece em razão da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal em sede da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4424 em 09 de fevereiro de 2012, determinando que as ações relativas a lesões corporais leves, em casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, possuem natureza pública e incondicionada. Maria Lúcia Karam (2015) critica essa decisão, pois afirma que, na ânsia por condenações dos supostos agressores, o posicionamento do STF anulou a possibilidade de protagonismo feminino no processo, reservando-lhe uma posição passiva e vitimizante, vez que tirou da mulher a liberdade de escolha e deu aos agentes do Estado o poder de ditar o que pensam ser o melhor para ela.

A lógica do Direito Penal não leva em consideração que as mulheres atendidas não procuram no sistema de justiça formal, necessariamente, a condenação criminal. As dinâmicas relacionais que desembocam nos casos de violência doméstica e familiar são muito mais complexas e vão além dos desejos punitivistas de se encontrar culpados.

Após essa breve digressão, voltemos nosso olhar para os dados angariados neste trabalho. O percentual de arquivamento de inquérito corresponde a 5% das demandas analisadas e foram justificadas pela ausência de motivos suficientes para a propositura da ação penal, ou

55 Observamos em nossa pesquisa a ocorrência do mesmo fenômeno constatado por Montenegro (2015) quando

estudou a Lei Maria da Penha na cidade de Recife/PE. Quando a vítima se reconciliava com o agressor e não tinha direito à retratação, dada a natureza da ação penal, ela muitas vezes mudava o depoimento prestado na delegacia e dava outras versões dos fatos na audiência judicial. O promotor, percebendo que a vontade da mulher era de encerrar o processo penal, pedia a absolvição do réu por insuficiência de provas e o juiz acatava esse entendimento.

seja, não foram vislumbradas situações concretas de violência contra a mulher no âmbito doméstico ou familiar.

Outro ponto que nos chamou atenção foi o percentual de extinções por morte do réu. Elas representaram 2,9% dos casos analisados e em pelo menos metade dos casos, foi resultante do assassinato dos acusados que vivam em contexto de marginalização social e precariedade de vida.

Após todo esse percurso, percebemos que as condenações foram minoria, perdendo até mesmo para as ocorrências de falecimento dos réus. Elas ocorreram em apenas 4 dos 239 procedimentos analisados, o que equivale a 1,7% casos. Por essa razão afirmamos que, na tentativa de acabar com a impunidade para os crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher, a Lei Maria da Penha, inserida na perspectiva da eficiência penal, não atingiu seus objetivos declarados de responsabilização criminal para fins de prevenção e coibição da violência doméstica. Isto porque:

A monopolizadora reação punitiva contra um ou outro autor de condutas socialmente negativas, gerando a satisfação e o alívio experimentados com a punição e consequente identificação do inimigo, do mau, do perigoso, não só desvia as atenções como afasta a busca de outras soluções mais eficazes, dispensando a investigação das razões ensejadoras daquelas situações negativas, ao provocar a superficial sensação de que com a punição, o problema já estaria satisfatoriamente resolvido. Aí se encontra um dos principais ângulos da funcionalidade do sistema penal, que, tornando invisíveis as fontes geradoras da criminalidade de qualquer natureza, permite e incentiva a crença em desvios pessoais a serem combatidos, deixando encobertos e intocados os desvios estruturais que os alimentam (KARAM, 1996, p. 82).

Além disso, a formação de estereótipos e o consequente aumento da exclusão social são frutos dos processos de criminalização, seletivos por natureza, e acabam por gerar efeitos não previstos pelo sistema penal de aumento da violência e da criminalidade, uma vez que insere os sujeitos nas prisões, cada vez mais desumanas, de nosso país.

Ao compararmos os dados obtidos entre as prisões preventivas decretadas e a quantidade final de condenações temos uma grande disparidade. Em 10,5% dos casos, conforme vimos, os réus foram encarcerados de modo preventivo pelo tempo médio de 75 dias, enquanto o percentual de condenações é de apenas 1,7%, ou seja, a maioria dos réus que foram presos, sequer são considerados culpados. Essas pessoas sofreram a mais violenta das punições previstas pela legislação penal quando nem sequer cometera crimes, segundo a Justiça.

É nossa obrigação lembrar das reflexões de Rusche e Kirchheimer:

O sistema penal de uma dada sociedade não é um fenômeno isolado sujeito apenas às leis especiais. É parte de todo o sistema social, e compartilha suas aspirações e seus defeitos. [...] A futilidade da punição severa e o tratamento cruel podem ser testados mais de mil vezes, mas enquanto a sociedade não estiver apta a resolver os seus problemas sociais, a repressão, o caminho aparentemente mais fácil, será sempre bem aceita. Ela possibilita a ilusão de segurança encobrindo os sintomas da doença social com um sistema legal e julgamentos de valor moral (2004, p. 282).

Fazer uso de leis penais criminalizadoras para expressar a reprovabilidade de certas condutas, dando-lhes natureza simbólica, não tem efeitos concretos na vida real. Isso porque, “leis simbólicas” não atingem as origens, as causas, as estruturas e nem os mecanismos produtores de nenhum problema social, tampouco, do sistema patriarcal. Temos que parar de encarar a pena privativa de liberdade como algo abstrato e encará-la concretamente, dada a realidade letal de nossos estabelecimentos prisionais.

Não bastasse a via jurídico-penal ter se mostrado ineficiente, o tempo de duração dos processos é outro dado que precisa ser ressaltado ao se enfatizar sua incapacidade para dar uma resposta aos sujeitos envolvidos nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher. O tempo médio de duração dos processos analisados foi de 492 dias, ou seja, as partes esperam mais de um ano para ter uma resposta definitiva sobre o seu conflito, dada a própria natureza burocrática do judiciário.

Apresentado este panorama passemos a análise dos casos selecionados permitirão uma maior compreensão dos fenômenos sociais e irão se coadunar com as conclusões apresentadas pelos referenciais teóricos estudados.