3 OS GESTOS DE LEVANTES NA PALESTINA
3.5 DAVI NAS ARTES
3.5.3 Davi de Caravaggio
Figura 41: Davi com a cabeça de Golias, (1609 – 1610) Fonte: Galleria Borghese, Roma, 2019
O grande pintor Michelangelo Merisi da Caravaggio, conhecido somente por Caravaggio, também se destacou com o seu Davi. Mas este não focou seu trabalho no momento anterior à batalha como Michelangelo e Bernini, mas no momento seguinte, a
decapitação de Golias. Pela obra Davi, nota-se por que Caravaggio despontou como um artista que desobedeceu às “regras” utilizadas como padrão na pintura da sua época, no final do século XVI e início do XVII, causando uma mudança radical na maneira de se expressar através das artes. Esse estilo foi chamado de barroco.
Desde jovem, Caravaggio sofreu muito com as perdas familiares. Sua família era de Milão, mas mudou-se para Caravaggio para fugir de uma praga que assolou Milão e seus arredores. Seu pai faleceu quando ele tinha seis anos e seu avô no ano em que ele completaria treze anos. Com esta idade, no ano de 1584, cercado de miséria e morte decorrentes da praga, foi aprendiz de Simone Peterzano até 1588, e com o tempo começou a estudar as obras de Leonardo da Vinci, Michelangelo, Ticiano, Rafael e outros mestres da Alta Renascença. Aos vinte e um anos de idade, Caravaggio mudou-se para Roma com pouco dinheiro, mas pouco tempo depois conseguiu um emprego pintando flores e frutas na fábrica do pintor Giuseppe Cesari. Aproveitou a oportunidade para pintar várias telas durante sua estada com Cesari. Nestas, ele descreveu sinais de realismo, cada vez com mais destaque no decorrer de sua carreira.
Sua primeira obra reconhecida foi A Cartomante na qual mostrava seu amigo Mario sendo enganado por uma garota cigana. Como a obra era realista e não obedecia às regras formais da pintura da época, o novo estilo chamou a atenção na arte romana. Apesar disso, suas obras não lhe rendiam bons ganhos. Ele estudou muito os temas religiosos da época inspirado em grandes artistas da Renascença, assim, iniciou pinturas com temas que circundavam histórias da bíblia. Mas o problema é que ele pintava de acordo com o que ele pensava e não de acordo com as convenções da época. Ernest Hans Josef Gombrich comenta em sua obra História da Arte que Caravaggio
deve ter lido repetidamente a Bíblia e meditado sobre suas palavras. [...] E fez todo o possível para que as figuras dos textos antigos parecessem mais reais e tangíveis. Até a sua maneira de tratar a luz e a sombra reforçava essa finalidade. A luz não faz o corpo parecer gracioso e macio; é áspera e quase ofuscante em seu contraste com as sombras profundas. Mas faz toda a estranha cena destacar-se com uma honestidade intransigente que poucos de seus contemporâneos poderiam apreciar, mas teria um efeito decisivo sobre artistas subsequentes. (GOMBRICH, 1999, p. 393)
Em sua primeira tela religiosa retratou Maria Madalena Penitente, na qual esboçou seu estilo realista e naturalista que o tornou famoso alguns anos depois. Com várias encomendas, principalmente em igrejas, tornou-se um dos mais famosos artistas da região. Mas ser realista demais prejudicou-o em algumas comissões. Por seu talento,
foi convidado a assumir as comissões de várias igrejas, mas nem todas as pinturas foram aceitas:
Caravaggio recebeu a encomenda de pintar um quadro de São Mateus para o altar de uma igreja de Roma. O santo deveria ser representado a escrever o Evangelho e, para mostrar que os evangelhos eram a palavra de Deus, teria que ser representado um anjo inspirando a escrita. Caravaggio, que era então um jovem artista muito imaginativo e decidido, pensou longamente sobre o que deveria ter sido a situação de um velho e pobre trabalhador, um simples publicano, quando teve subitamente que se sentar para escrever um livro. E, assim, pintou um quadro de São Mateus, calvo e descalço, os pés sujos de terra e poeira, agarrando desajeitadamente o enorme volume e franzindo ansiosamente o cenho, sob a tensão da inabitual tarefa de escrever. Ao lado do santo pintou um jovem anjo, que parece ter acabado de chegar das alturas e gentilmente guia a mão do trabalhador como uma professora pode fazer com uma criança. Quando Caravaggio entregou o quadro à igreja em cujo altar-mor seria colocado, as pessoas escandalizaram-se com o que consideraram ser uma falta de respeito pelo Santo. A pintura não foi aceita e Caravaggio teve que tentar de novo. Manteve-se, dessa vez, rigorosamente de acordo com as idéias convencionais da época sobre o aspecto que um anjo e um santo deviam ter. (GOMBRICH, 1999, p. 12)
Mas, ainda assim, não inspirava confiança na comunidade pois vivia acercado de pessoas do nível mais baixo da sociedade romana como prostitutas e mendigos refletindo-as também nas suas obras, inclusive algumas delas sendo consideradas vulgares na época. Suas obras variavam muito de estilo e isso não agradava a todos os pedidos. Ele trabalhava o tema da morte e o da sexualidade e isso desagradava diversos setores da sociedade. A escolha dos modelos também era moralmente questionável, pois, na obra Morte da Virgem, Caravaggio usou o cadáver de uma prostituta afogada como modelo. Além disso, Caravaggio era conhecido por brigar constantemente na rua e discutir com colegas artistas e com a polícia. Segundo registros da época, em 1606 ele matou seu inimigo Ranuccio Tomassoni em uma briga de gangues e, por isso, fugiu de Roma e foi morar em Nápoles.
Com seus cachos negros desgrenhados e barba negra desalinhada, o artista era conhecido por vagar pelas ruas de Roma vestido de preto, acompanhado por seu cachorro preto, Crow (o prenúncio de pássaro da morte), brandindo espadas e punhais à menor provocação. Ele e seu grupo heterogêneo de amigos tomaram como lema, nec meto, ou "sem esperança, sem medo", e essas eram as palavras pelas quais eles viviam. Caravaggio tinha um registro policial de muitas páginas repleto de histórias de assalto, armas ilegais, assédio à polícia e assuntos complexos com prostitutas e cortesãs. Os inúmeros problemas legais de Caravaggio muitas vezes significavam que o artista teria que fugir de Roma ou não conseguir completar uma comissão. As tendências de luta e de problemas de Caravaggio alcançaram um nível totalmente novo em 28 de maio de 1606. Nesta data, após uma partida de tênis disputada, Caravaggio e seus amigos estavam envolvidos em uma briga de rua com o jovem inimigo de Caravaggio, Ranuccio Tomassoni e sua gangue. Caravaggio acabou dando ao jovem Tomassoni uma ferida fatal na virilha. Com um preço em sua cabeça,
Caravaggio foi forçado a fugir de Roma pela última vez. (CARAVAGGIO, 2019)65
Com o seu talento e a proteção de uma família de influência, Caravaggio tornou-se o pintor mais famoso de Nápoles. Realizou uma série de trabalhos em igrejas de Nápoles. Dois anos depois, ele foi novamente preso por uma briga e fugiu de lá também. Os últimos anos do artista foram gastos desesperadamente correndo de uma cidade para outra, o tempo todo tentando obter um perdão papal para poder retornar a Roma. Sempre com problemas de brigas, foi de Nápoles para a Sicília e de pois para a ilha de Malta. Mas seu talento e visão realista e inovadora não foram desprezados, ele chocava pelos quadros que mostravam a feiura daquela realidade mundana.
[...] homem de temperamento impetuoso e irascível, extremamente suscetível à menor ofensa e capaz até de enfiar um punhal num desafeto. [...] Ter medo de retratar a fealdade parecia a Caravaggio ser uma fraqueza desprezível. O que ele queria era a verdade. A verdade tal como ele a via. Não lhe agradavam os modelos clássicos nem tinha respeito algum pela "beleza ideal". Queria livrar-se de todas as convenções e repensar a arte desde o começo (figs. 15 e 16, p. 13). Algumas pessoas pensavam que o seu principal objetivo era chocar o público; que ele não tinha respeito algum por qualquer espécie de beleza ou tradição. (GOMBRICH, 1999, p. 391)
Caravaggio pinta Davi de forma bem humilde fisicamente, mais próxima da imagem de um pastor, sem a aparência máscula digna de um rei ou de um deus retratada por outros artistas. Sua pintura capta o momento seguinte ao que o Davi decapita Golias com a espada que pertencia ao filisteu. A pintura data do período em que Caravaggio ficou exilado de Roma, entre 1606 e 1610, e provavelmente produzida em Nápoles. A obra chama a atenção porque este Davi não parece orgulhoso de ter decapitado Golias. Sua expressão parece mais de pena daquele ser que jaz em sua mão e que, segundo descrições dos próprios contemporâneos, era ele próprio. As pinturas que retratam Caravaggio realmente se parecem muito com a cabeça que está agonizando nas mãos de Davi.
Figura 42: Recorte da figura 41 – cabeça de Golias
A figura é tenebrosa, mas, ao que parece, ele mesmo se considera um pecador e quer se redimir dos seus pecados, tanto que envia, em 1610, a obra para o Cardeal Scipione Borghese como presente para o Papa Paulo V em Roma como um pedido de perdão.
Seu olhar de sofrimento com uma aparência disforme, a boca aberta como se fosse dar um último suspiro, mostram o drama sofrido pelo artista e o seu arrependimento. Além disso, na espada, lê-se a inscrição Humilitas occidit superbiam que significa “a humildade supera o orgulho (ou a soberba)”. Na pintura ainda se destacam as cores e luminosidade da tela com brilho e tons escuros ao redor de Davi que tem mais cara de italiano do que de um pastor judeu. Alguns autores consideram que, na obra de Caravaggio, Davi enquadra-se na pose tradicional das alegorias da Justiça, considerando a espada na mão direita, mas com a cabeça em vez da balança na mão esquerda. Sua forma de expressão do autorretrato na cabeça de Golias é angustiante, sangue escorrendo, testa machucada e olhos revirados. Caravaggio se mostra entre a vida, com o Davi humilde cumprindo seu dever, e a morte, na cabeça do Golias pecador já castigado. A mensagem na espada é o pedido de perdão ao Papa. O perdão foi concedido neste mesmo ano, mas, na volta à Roma, Caravaggio morre devido a uma bactéria66 adquirida através de uma espada numa briga, um mês antes.
66 Esta informação é recente e foi publicada em dois momentos, uma em 2010 quando os restos de
O gesto de levante de Caravaggio ocorre durante toda a sua vida mostrando em suas obras a realidade do mundo que ele enxergava, utilizando seres comuns, resultantes da vida como ela se mostrava ao pintor, mendigos, prostitutas, crianças de rua e inclusive pessoas mortas. Somente no fim de sua curta vida ele resolveu, numa única obra, realizar um gesto complexo numa pintura. Ele diz “não” a si mesmo, a sua forma de viver, de ofender e machucar os outros, reconhecendo que o seu orgulho sempre venceu, mas a humildade venceria a última batalha.