Segundo Mamede Mustafa Jarouche25, a palavra árabe Intifada (ةضافتنا - intifāḍah) ou yantafidu (تنيضف - iãtãfidu) é um substantivo que designa "tremor", "chacoalhar" ou "estremecer". Deriva do termo árabe nafada (ضفن), que significa "balançar”, agitar", "sacudir" ou até mesmo "livrar-se" quando utilizada para se desvencilhar de algo que o está incomodando. Atualmente, é usada quando se refere a uma revolta contra a opressão. Traduz-se em diversas línguas como uma insurreição,
25 Mamede Mustafa Jarouche é Professor Doutor em língua e literatura árabe na Universidade de São Paulo
– USP. Tradutor das Mil e uma Noites e professor titular da USP. É considerado um dos maiores pesquisadores brasileiros da Literatura árabe. É vencedor do Prêmio Jabuti em 2006 e 2010 de melhor tradução.
revolta ou também como resistência. Como nome de uma revolta, a palavra Intifada foi utilizada pela primeira vez em 1952 no Reino do Iraque, quando os partidos socialistas e comunistas foram às ruas protestar contra a monarquia hachemita. A partir daí foi dado o nome de Intifada às insurreições em diversos países de língua árabe, como no Sudão em 1964, no Bahrein em 1965, as Intifadas sahrawi, contra o domínio colonial espanhol no Saara espanhol, ao sul do Marrocos e até mesmo as Intifadas da Primavera árabe a partir de 2010.
Atualmente, a Intifada remete diretamente aos levantes dos palestinos contra a ocupação israelense ocorridos de 1987 a 1993 (Primeira Intifada) e de 2000 a 2005 (Segunda Intifada). Nesse caso, a palavra intifada, literalmente, tenta “sacudir”, “chacoalhar” as forças de ocupação israelenses na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, para que eles entendam como um “NÃO!!” à ocupação e repressão israelense.
A Primeira Intifada foi o maior levante massivo do povo palestino, que fez retornar a Questão-Palestina na mídia internacional e desde lá é assunto de acordos de paz envolvendo os EUA, Israel e os palestinos, além de despertar uma grande massa popular ao redor do mundo que passou a simpatizar com a causa palestina. O ápice para irromper o levante ocorreu quando, no dia 8 de dezembro de 1987, um jipe israelense bateu num caminhão de trabalhadores palestinos em um checkpoint militar do campo de refugiados de Jabalyia, em Gaza, matando quatro pessoas e ferindo uma dezena. No dia seguinte, seguiu-se uma insurreição pelas ruas e, mais uma vez, seguindo o padrão de repressão diário do governo israelense, um soldado matou um adolescente de 17 anos e 16 palestinos ficaram feridos. Em 10 de dezembro, paraquedistas israelenses foram enviados a Gaza para sufocar as manifestações, mas a reação causou um efeito inverso e os distúrbios se espalharam e chegaram também à Cisjordânia ocupada.
Já havia se passado 39 anos desde a Nakba, a “catástrofe” palestina e a proclamação da independência de Israel, em 1948, e 20 anos desde a Naksa (após a Guerra dos Seis Dias), comemorada por Israel com a conquista da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e da anexação de Jerusalém oriental. Para os palestinos não havia motivo para comemorar, ao contrário, já que neste ano (1987) cerca de 2200 colonos armados (0,33% da população da faixa de Gaza) chegaram a ocupar 40% do território da Faixa de Gaza, pressionando 650 mil palestinos (99,67%) em condições de extrema pobreza, a ficar concentrados nos outros 60% do território, tornando Gaza (na região de população somente palestina), a região com uma das maiores densidades demográficas do mundo. Além disso, o número de palestinos que já haviam passado pelas prisões israelenses e por torturas chegava a 200
mil, sendo boa parte deles crianças de 10 a 14 anos, acusadas de suspeitas de ligação com o terrorismo por atirarem pedras em soldados e viaturas israelenses. À época, a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), após ser expulsa da Jordânia e Líbano, estava instalada na Tunísia, relativamente afastada dos conflitos nos territórios ocupados por Israel.
Assim, a Intifada não foi iniciada por nenhum partido político ou grupo organizado. Sofrendo sob a ocupação de um estado que se diz democrático, mas que oprime e discrimina os palestinos nos territórios ocupados, caracterizando um inegável
apartheid, com os palestinos israelenses sendo tratados como cidadãos de segunda classe
e em condições de vida precárias, o povo palestino resolveu sair às ruas em massa para encarar o exército israelense armados com paus e pedras, em que as armas mais poderosas eram o estilingue e a funda, que é uma arma de arremesso, constituída por uma correia ou corda dobrada, e em cujo centro é colocado o objeto que se deseja lançar. Segundo os livros de história, é uma das mais antigas e primitivas armas feitas pelo homem, seu uso é registrado entre os primitivos australianos e diversos povos da Antiguidade, como os gregos e os hebreus. Entre os hebreus é célebre a passagem contida no Antigo Testamento em que David (judeu) derrota o gigante Golias (filisteu), armado de uma funda.
Figura 21: Jovens Palestinos “atacando” soldados israelenses com estilingue e pedradas, 1987
A imagem 21, de jovens palestinos jogando pedras contra tanques, jipes e soldados israelenses num cenário de destruição espalhou-se pelo mundo. Os gestos de levantes estão bem evidenciados na imagem. O braço do jovem que estica o elástico do estilingue, e o outro enrolado com uma kefaya ao redor de sua cabeça, que gira o corpo para pegar impulso e atirar a pedra com o máximo de força possível. Mesmo sendo uma das maiores potências bélicas do mundo, Israel se autodeclara um país democrático sem, no entanto, conseguir manter uma política democrática e pacífica com seus vizinhos árabes e tampouco com a população palestina. A divulgação de imagens de palestinos reagindo a prisões e arremessando pedras contra jipes e tanques israelenses tornaram-se rotina nas mídias e serviram como conclamações às ruas para os levantes palestinos. A resistência tornou-se organizada e conseguiu suportar a pressão por cinco longos anos, em que enfrentou toques de recolher, estado de sítio, cortes no fornecimento de água e de energia além de assassinatos em manifestações pacíficas, em invasões de casas e durante a noite nos toques de recolher, fora a destruição de escolas, ambulâncias e hospitais. A
Intifada foi inicialmente tratada pela mídia ocidental como um levante comunista, uma
guerra civil que queria destruir a democracia em Israel, já que os grupos que passaram a organizar as manifestações e coordenar as ações tanto de resistência e guerrilha, como as de educação e meios de subsistência, eram de cunho marxista e se opunham ferrenhamente à política do governo de extrema direita de Israel.
Figura 22: Israel x Palestina – Ytzhak Rabin, Bill Clinton e Yasser Arafat. Acordos de Oslo – 1993 Fonte: Site Café História
Ao final da Intifada, Yasser Arafat, líder da OLP na época, iniciou os acordos de Oslo em 1993, que para muitos palestinos foi o golpe que dispersou o levante e acabou com a força da resistência, pois os acordos prometiam devolução de terras e
reconhecimento territorial, iludindo parte da população palestina que não aguentava mais viver em um estado de guerra civil.
Continuar vivendo como párias, separados uns dos outros pelo muro da Cisjordânia, por centenas de Checkpoints (pontos de controle israelenses) e pelo cerco à Faixa de Gaza. O historiador israelense Ilan Pappé26 mostra em sua obra A limpeza étnica
da Palestina que, além do aprisionamento e dependência total dos movimentos palestinos
em relação à Israel, o estado ainda impõe um controle demográfico exclusivo para a população palestina através de uma lei que impede a cidadania para palestinos que casem com israelenses:
[...] em 31 de julho de 2003, o Knesset passou uma lei que proibia os palestinos de conseguirem a cidadania, a residência permanente ou mesmo temporária quando fossem casados com cidadãos israelenses. Em hebraico, “palestinos” sempre significa palestinos morando na Cisjordânia, na Faixa de Gaza ou na Diáspora, de forma a diferenciá-los dos “árabes israelenses”, como se não fossem todos parte da mesma nação palestina. (PAPPÉ, 2017, p. 284)
Sabe-se obviamente que a lei se refere aos “árabes israelenses”, ou seja, os palestinos que adquiriram esta condição. Com a promulgação dessa lei, muitas mulheres palestinas grávidas foram impedidas de chegar aos hospitais para parirem ou foram deportadas de uma região para outra para evitar o problema demográfico. Para que Israel se mantenha como um estado “judeu”, a população palestina não deveria ultrapassar a população judaica, e isso realmente tornou-se um problema para eles levando em conta que a taxa de natalidade palestina é muito maior que a judaica. Mas o problema de Israel não seria sua judaicidade (diferentemente de ser um estado judaico na sua constituição), já que a religião tem muito em comum com o cristianismo e o islamismo e em vários aspectos prega a paz e a coabitação. O Sionismo étnico como ideologia de estado e motor da política israelense e que se apropria do judaísmo é que representa uma ameaça tanto aos palestinos quanto aos judeus que querem viver em paz. O controle biopolítico dos
26 Ilan Pappé nasceu na cidade palestina de Haifa em 7 de novembro de 1954 e é um dos chamados Novos
Historiadores israelenses que reexaminaram criticamente a História de Israel e do sionismo. Pappé faz uma análise profunda sobre os acontecimentos de 1948 (criação do Estado de Israel) e seus antecedentes e condena drasticamente a política sionista de Israel com os palestinos, chamando as agressões israelenses de Limpeza Étnica. Foi docente em Ciências Políticas em sua cidade natal, na Universidade de Haifa (1984-2007). É um defensor da solução de um único estado para palestinos e israelenses. Em 2007, Ilan Pappé foi obrigado a exilar-se na Grã-Bretanha, onde atualmente é professor de história na Universidade de Exeter e diretor do Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina. Recebeu diversas ameaças de morte e antes de deixar Israel, ele havia sido condenado no Knesset, o parlamento de Israel. O ministro da educação pediu sua demissão da universidade, e publicou sua foto num jornal popular de Israel, no centro de um alvo.
nascimentos, das mulheres grávidas e os abusos dos soldados contra as adolescentes palestinas nos checkpoints, são formas de violência íntima que causam danos psicológicos e prejudicam a vida das mulheres. Os acordos de “paz” existem, mas Israel cria leis que impedem a concretização destes. Toda lei promulgada em Israel é em detrimento dos palestinos e vem acompanhada das palavras perigo e segurança para sua aprovação. A lei de controle demográfico estabelece que as mulheres palestinas são perigosas e criminosas enquanto mulheres “capazes de parir”. A professora Nadera Shalhoub-Kevorkian27 da Universidade Hebraica de Jerusalém, em seu artigo As Políticas
do Parto e as Intimidades da Violência Contra Mulheres Palestinas na Jerusalém Ocidental Ocupada em uma análise sobre a violência contra as mulheres palestinas
grávidas afirma que “A linguagem da ‘segurança’ e ‘periculosidade’ transforma as mulheres, os nascituros, os recém-nascidos e suas famílias como entidades a ser indesejadas, demonizadas e ‘ameaçadoras’, autorizando e permitindo a violência contra elas.”(KEVORKIAN, 2015, p. 1202, tradução nossa)28