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O LEVANTE DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES PALESTINOS

No documento A Intifada como gesto (páginas 165-170)

5 DESUMANIZAÇÃO DO POVO PALESTINO

5.2 O LEVANTE DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES PALESTINOS

O que parecia estar se configurando como uma perseguição aos adolescentes palestinos nos territórios ocupados, hoje se concretiza. Com a legislação de um estado que parece ter a intenção de uma limpeza étnica, os políticos de Israel promulgam uma lei que permite a prisão de crianças a partir de 10 anos de idade. Hoje, centenas de crianças e adolescentes palestinos estão confinados em prisões israelenses, em sua maioria, acusados de jogar pedras contra viaturas israelenses. As prisões são realizadas na porta das escolas palestinas ou durante a noite em suas casas. A pena varia de 6 meses a 20 anos de prisão. Normalmente são torturados e surrados para denunciarem outros amigos ou líderes da resistência locais.

Figura 69: Menino palestino encarando soldado Figura 70: Soldado apontando arma para criança palestina

Fonte: occupiedpalestine.wordpress , 2012 Fonte: Pinterest/colonialisme, 2012

Figura 71: Menino palestino sendo preso Figura 72: Soldado pisa em menina palestina Fonte: nuovaresistenza.org, 2018 Fonte: Portal Político Tv, 2014

Figura 73: Soldado aponta arma para menino Figura 74: Menina machucada sendo presa Fonte: Lloyd Johnson, 2015 Fonte: Blog do VQ, 2008

Estas crianças dificilmente conseguem acesso à família e advogados, somente quando o caso tem grande repercussão, como é o da adolescente Ahed Tamimi de 16 anos

que por diversas vezes, desde os seus 12 anos, aparece em vídeos enfrentando soldados israelenses após a morte de seu primo. Sua mãe, pai e irmão já foram presos diversas vezes por participarem de manifestações e não obedecerem a ordem dos soldados de recuar. No último episódio que culminou em sua prisão, Ahed bate no rosto de um soldado que estava novamente invadindo sua casa para realizar mais uma prisão ou fazendo uma busca.

Figura 75: Soldado israelense executando a prisão de um garoto palestino de 12 anos que chora desesperado enquanto sua família tenta impedir a prisão.

Fonte: Agência France Presse, 2015

Na imagem da figura 75 ela é a menina de camiseta rosa com o desenho do “Piu-Piu”. Ao perceber que não conseguiria impedir o soldado israelense de prender seu irmão ela faz um gesto de levante, morde o soldado que, enquanto tenta segurar o menino, é detido pela mãe e outros membros da família. Como ela ficou muito conhecida pelos vídeos que se espalharam pelo mundo todo enfrentando os soldados israelenses, tornou- se uma “celebridade” entre os palestinos e seus simpatizantes, forçando o tribunal israelense a negociar sua prisão. Ela cumpriu uma pena de oito meses em regime fechado por agressão a um militar.

A desumanização difundida pelo estado israelense, principalmente com as crianças palestinas, explícita também nos ataques à Faixa de Gaza, onde os principais alvos são creches e escolas além de hospitais. O exército não nega os fatos, apenas

justifica os ataques dizendo que o Hamas usa as crianças como escudos humanos e lança foguetes contra o território israelense a partir destes locais. Então ataques aéreos destroem os locais para defender os cidadãos israelenses dos lançamentos de foguetes e “consequentemente” matam cidadãos, entre os quais crianças palestinas. Todos os registros de foguetes lançados a partir de território palestino em 2014, por exemplo, mostram que nenhum civil israelense foi ferido, enquanto os ataques a Faixa de Gaza mataram mais de 2200 palestinos, entre eles 550 crianças.

Figura 76: Revolta de Soweto, África do Sul Fonte: arabalears.cat, 2019

Fatos de injustiças fantasiadas de proteção contra o terrorismo e a selvageria do outro são recorrentes no mundo. Massacres e prisões de jovens são relatados desde os primórdios da civilização. Assassinatos massivos de crianças e adolescentes já ocorreram com os negros na África do Sul na revolta de Soweto, mais conhecido como O Levante

de Soweto (fig. 76) que ocorreu no dia dezesseis de junho de 1976, e foi um protesto

contra a inferioridade das “escolas negras” da África do Sul, onde os estudantes negros pagavam para estudar em escolas com péssima estrutura e profissionais pouco qualificados, enquanto as escolas para brancos eram gratuitas e de excelente qualidade. Foi um sangrento episódio da rebelião negra contra o Apartheid desde o início dos anos 60, desencadeado pela repressão policial à passeata. Estima-se que 700 pessoas tenham morrido naquele dia, em sua maioria, adolescentes e crianças que saiam da escola e se juntavam ao movimento, ainda com suas mochilas nas costas.

Figura 77: Menino judeu em Auschwitz Figura 78: Menina aponta garfo para soldado Fonte: Slideshare, 2019 Fonte: Deskgram.net, 2015

A figura 77 de um menino judeu em um campo de concentração nazista, onde as crianças eram torturadas em nome da ciência e assassinadas em massa nas câmaras de gás nazistas. E a foto ao lado de uma criança síria que foram massacradas em meio a uma disputa de poder que iniciou em 2011 e já dura 7 anos, sem previsão de término.

O bloqueio a Gaza, o Muro da Cisjordânia e as diversas operações militares israelenses empreendidas nestas regiões geram destruição e morte, além do sofrimento indiscriminado de civis. Este é o quadro da política na atual conjuntura socioeconômica mundial, muitas vezes chamada de modernidade, onde se evoca o termo democracia para justificar a guerra ao terror, contra estes indivíduos onde o poder do Ocidente se apropria da vida nua e da vida biológica e não mais política dos indivíduos desse povo. Agamben afirma que há um momento após a despolitização dos indivíduos, em que cabe ao soberano decidir sobre o valor da vida, pois eles não são mais sacrificáveis e, portanto, tornaram-se matáveis, deixando implícito que, em caso de assassinato de um indivíduo nestas condições, não há homicídio e consequentemente nenhuma punição para o assassino, pois ele não se encontra na qualidade de homicida já que ele não matou um ser com direitos humanos. Assim como os palestinos, diversas outras populações encontram- se ou encontraram-se na mesma situação, expostos à morte, pois seus direitos políticos foram suspensos e eles se encontram entre a inclusão e a exclusão. O nazismo desumanizou os judeus e tornou-os matáveis, e por isso foram exterminados com o intuito da realização de uma limpeza étnica.

No documento A Intifada como gesto (páginas 165-170)