1.3 EIXOS DA EVOLUÇÃO DOS ESTUDOS DO PÚBLICO
1.3.1 De 1900 a 1960
O traçado dos estudos da avaliação dos visitantes, que cruza todo o discurso museológico, inicia-se com as pesquisas desenvolvidas pelos psicólogos Robinson (1893-1937) e Melton (1906-1978) sobre o interesse do público pelos museus e pelas obras de arte expostas em alguns museus dos Estados Unidos (Hein, 1998). Estes estudos, realizados entre 1925 e 1927, propunham-se observar o comportamento do visitante em contextos museais muito específicos, como foi o caso do estudo “The behavior of the museum visitor”, aplicado no Pennsylvania Museum of Art e do Buffalo Museum of Science. O investigador Edward Robinson, recorrendo ao método de observação directa, procurou analisar, de uma forma estruturada e sistemática, o comportamento individual dos visitantes “em função do tempo da visita e do número de obras, do número de salas visitadas e do tempo despendido na observação de cada uma das obras expostas” (García Blanco, 2009, p.179).
Sobre este trabalho, a investigadora Peréz Santos (2000) sublinha que Robinson apresenta, pela primeira vez, um estudo sistematizado com o enfoque no visitante, cujo objectivo se centra no estudo da relação entre o momento óptimo da visita, (warming-up effect) e o aparecimento da fadiga (museum fadigue). Todavia, a introdução da noção de “fadiga museal” é atribuído a Benjamin Ives Gilman que, em 1916, refere este conceito a partir das conclusões retiradas de um trabalho que dirigiu no Boston Museum of Fine Arts, conhecido por “Museum Fadigue”. Recorrendo a registos fotográficos sobre alguns aspectos do comportamento do visitante, nomeadamente, a direcção e a atenção do olhar, Gilman relaciona estas variáveis com a forma como os objectos estão expostos nas salas e com as vitrinas expositivas (Hein, 2000). A partir destes dados, faz algumas reflexões sobre as práticas expositivas, incidindo em alguns aspectos dos ambientes dos museus relacionados com o bem-estar dos visitantes ou, como designou Hood (1993) de “conforto do museu”, sustentando a necessidade de diminuir a quantidade de objectos expostos e de dividir a colecção em diversas exposições, segundo as diferentes áreas de estudo, a fim de melhor conseguir direccionar e orientar a atenção sobre os objectos expostos.
Posteriormente, Arthur Melton, em 1935, recorrendo a métodos de avaliação empírica baseados na observação rigorosa do comportamento dos visitantes nas galerias do Pennsylvania Museum of Art, realiza uma série de estudos que foram revistos mais tarde por Loomis, em 1987 (referido por Hein, 2000). Nestes estudos, Melton inclui variáveis relacionadas com a época do ano, o dia da semana em que as visitas se realizam, o tempo de permanência dentro de uma sala de exposição e o tempo utilizado na observação das obras, de modo a inferir sobre o comportamento do visitante face às obras observadas e ao número de obras expostas (García Blanco, 2009). Foi também objecto deste estudo a identificação dos factores que mais interferem na atenção do visitante e o estabelecimento de padrões de circulação em função da conduta espacial ou proxémia dos visitantes, durante o percurso pelas galerias da exposição (Pérez Santos, 2000). A partir do registo destas observações, foi possível concluir que os visitantes, quando entram numa galeria, cujas obras estão dispostas ao longo das paredes externas de forma simétrica, manifestam uma tendência para virar à direita (Hein, 2000). Höge (2000) considera que este
O contributo do Design de Ambientes no acesso à cognição
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argumento contraria a ideia de que é exclusivamente o tipo de obra de arte que determina o comportamento dos visitantes.
Bitgood (1989) entende que o contributo destes investigadores se situa fundamentalmente a nível do comportamento dos visitantes a partir dos indicadores relacionados com o projecto de design do espaço de exposição, identificando os factores que contribuem para influenciar a atenção dos visitantes e registar os padrões de circulação através das galerias. Segundo este autor, estas investigações assumiam definitivamente os contextos expositivos como espaços de aprendizagem pelo que foram consideradas por Samson e Schiele (1989) como um marco de referência em todas as investigações posteriores, conforme menciona García Blanco (2009).
Também Fróis (2008) destaca a perspectiva educacional subjacente aos estudos realizados por Melton, no campo da “eficácia educacional” das práticas museológicas. Paralelamente, estes estudos revelaram que estas instituições eram frequentadas por diferentes categorias de público – estudantes, especialistas, turistas, famílias, entre outros – o que levou ao reconhecimento da importância do papel dos educadores dentro das instituições museais e das consequentes alterações da política educativa dos museus (Roberts, 1997).
Nos anos 40, as investigações nos museus americanos assinalam a introdução de variáveis sociodemográficas, incluindo as questões de opinião, através da aplicação de questionários aos visitantes. Esta técnica não só possibilitou a identificação de diferentes perfis de visitantes, como também deu a conhecer a frequência e o ritmo das visitas e, consequentemente, o desenvolvimento de estratégias de captação de novos públicos (García Blanco, 2009). Neste âmbito, destacam-se ainda os resultados obtidos nas investigações ocorridas nas Exposições Internacionais de 1939, em San Francisco e em Nova Iorque, conduzidos pelo conservador do Buffalo Museum of Science, Carlos E. Cummigs. Este especialista, admitindo a exposição como um processo de comunicação, cuja intencionalidade comunicativa assenta na aplicação de estratégias de comunicação, averigua os aspectos relacionados com o impacto da exposição sobre o visitante, nomeadamente, a mensagem e as condições em que esta é recepcionada. O “museu deve servir a exposição e a exposição deve servir a mensagem que pretende veicular” (Samson & Schiele, 1989, citado em
García Blanco, 2009, p.180). Este trabalho é considerado nuclear na transformação dos métodos expositivos, pois, ao colocar o foco das exposições nas componentes da mensagem, assinala a importância das narrativas na organização conceptual da exposição. "Cada museu, cada exposição deve contar uma história" (Cummings, 1940, citado em Pérez Santos, 2000, p.24).
A guerra e o pós-guerra marcaram um período de ruptura com o prosseguimento dos trabalhos na avaliação dos visitantes, registando-se algumas excepções, como os estudos de Kearns (1940), Nielson (1946) ou Yoshioka (1942), que prosseguiram pontualmente com as avaliações do comportamento dos visitantes em diversas exposições e museus americanos, seguindo a metodologia de Robinson e Melton (Pérez Santos, 2000, p.25).
Hood (1993) define este período de investigação museológica como um período centrado na área de pesquisa da psicologia social e na análise da persuasão e da propaganda, com vista a conhecer a resistência ou a vulnerabilidade aos diferentes tipos de mensagem e de canais utilizados, a partir da avaliação da forma como as pessoas recebem as mensagens e da forma como agem e se comportam após incorporarem as mesmas.