O sentido interdisciplinar subjacente ao Design de Ambientes encontra a sua estrutura no estabelecimento de relações entre diferentes saberes específicos, nas situações mais próximas da realidade. Sendo assim, alimentámos a expectativa de que o estudo sobre este tema, extensível a outros contextos, ampliará o conhecimento na área do Design. Para Foucault (2000), nenhuma área do conhecimento se limita à produção de conceitos, mas deve recorrer ao estudo crítico de outros conceitos já consolidados, modificando-os ou ampliando-os num processo de reflexão contínua.
Na procura de uma aproximação ao conceito de Design de Ambientes e aos diferentes sentidos que este termo encerra em si, verificámos que, se por um lado, em Portugal, a utilização da expressão “Design de Ambientes” se vem afirmando no mundo académico, constituindo muitas vezes a designação de uma Unidade Curricular de um curso de 1º ou 2º Ciclo 15, ou ainda, a designação atribuída a saídas profissionais com inevitáveis extensões a nível das práticas profissionais, por outro lado, não encontrámos uma delimitação precisa das práticas que convoca e dos efeitos que podem emergir dessa interdisciplinaridade.
Brandão (2004, p.212) situa a expressão Design de Ambientes na “esfera do Design que se exerce no domínio de ambientes interiores ou exteriores” enquanto Daciano da Costa, não utilizando esta designação, refere o “design em contexto” onde,
15 A título de exemplo, mencionamos os cursos ou Unidades Curriculares que no ano lectivo de 2009/10, funcionaram com o nome de Design de Ambientes, em Portugal:
Licenciatura em Design de Ambientes na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, ESAD.
Licenciatura em Design de Ambientes na Escola Superior de Tecnologias e Gestão - Instituto Politécnico de Viana do Castelo, ESTG.
Design da Produção de Ambientes, ramo da especialização do Mestrado em Design de Produção - IADE.
Projecto de Design de Ambientes I e II Unidade Curricular do Curso de Equipamento e Design - Instituto Politécnico da Guarda - IPG.
Destacamos também os Prémios Nacionais de Design atribuídos bianualmente pelo Centro Português de Design, CPD, que incluem a área do Design de Ambientes
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segundo Tostões, a presença dos elementos que integravam estes espaços eram ditados pela arquitectura, numa correspondência directa com o espaço criado, em função do ambiente e da sua relação com o utilizador. Tratava-se de uma “criação não objectual, porque justamente realizada em contexto” (2001, p.52) com a tónica no utilizador. Esta relação entre o design e as experiências humanas é assim revelada: “o design é uma metodologia para equacionar e resolver problemas, de que resulta um produto para satisfação das necessidades humanas e para o controlo do ambiente, quer esse produto seja uma estrutura física e se passe à escala da cidade (urbanismo), da casa (arquitectura) ou do objecto (design industrial), quer se passe ao nível da comunicação gráfica (design gráfico) ” (Costa, 1998, p.49).
Estando o design orientado para a resolução de problemas, Barata entende que o núcleo central do design se forma a partir do “sentido da observação do concreto, da reflexão e estudo metódico das condições reais” (2001, p.21). Também Papanek, numa visão ampla do design, afirma:
Todos os homens são designers. Tudo o que fazemos em quase todo o tempo é design pelo que o design é básico para a actividade humana. O programa ou organização de qualquer acto com um propósito pré-determinado constitui o processo (…) design é o esforço consciente para impor uma ordem significativa. Como vemos os limites propostos para o design não são rígidos e o raio de acção sobrepõe-se ao de outras actividades e disciplinas (1972, p.17).
Esta perspectiva pragmática do design fornece uma lente através da qual podemos ver e “interpretar a forma como as coisas devem ser, se devem idealizar os instrumentos para atingir os objectivos preestabelecidos” (Simon, 1982, citado por Bonsiepe, 1992, p.207).
O design assente num sistema de relações é espelhado por Papaneck, ao afirmar: “Todo o design está vocacionado para um objectivo. Somente as nossas perguntas mudam. Já não inquirimos: “ Como é que fica? ou “Como funciona?”. Agora estamos mais interessados na resposta a: “Como se relaciona?” (2007, p.9).
A resposta a esta questão introduziu-nos na dicotomia da expressão Design de Ambientes, relacionada com a área do Ambiente (s). Esta palavra “Ambiente”
encontra-se associada a um conjunto de termos como arredores, proximidades, e ainda a “environment” em inglês, “environs”, em francês ou “entorno” em espanhol.
Seguindo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001, p.209), o termo “Ambiente”, com origem no latim ambiens(entis), refere-se tanto às “condições físicas, químicas e biológicas” nas quais os seres vivos se desenvolvem – Ambiência –, como ao conjunto de “circunstâncias sociais, intelectuais, morais e emocionais (...) que envolvem uma pessoa e que podem influenciar ou determinar o seu comportamento” – Atmosfera ou Meio Ambiente. Este conceito inclui também o espaço físico delimitado como o lugar.
Altman e Rogoff (1987), considerando os factores físicos e sociais inevitavelmente associados aos efeitos sobre as percepções e comportamentos dos sujeitos, definem ambiente “como uma organização sistemática e complexa do espaço, tempo, comunicação e significado que ocorrem em simultâneo numa série de configurações” (citado por Muga, 2005, p.17). A noção de Ambiente associada à psicologia configura a disciplina de psicologia ambiental situada quer a nível do estudo dos espaços da Natureza e da sua preservação, com particular ênfase para as questões ambientais, quer a nível do estudo dos impactos dos espaços construídos sobre o comportamento humano. Estes estudos, considerando as inter-relações entre os sujeitos e o ambiente onde estes se inserem um sistema dinâmico e holístico, observam os aspectos intrapsíquicos e os factores do meio social, do meio físico, natural ou construído. (Altman & Rogoff, 1987, referidos em Aragonés & Amérigo, 1998).
Esta orientação de intercepção disciplinar do design com o ambiente é expressa nas declarações da Environmental Design Research Association (EDRA)16 ,que estipula como objectivo contribuir para criar ambientes sensíveis às necessidades humanas, através da compreensão das inter-relações entre as pessoas e o envolvimento destas com o meio construído ou natural.
16 EDRA - Organização internacional e interdisciplinar, fundada em 1968 por profissionais de design, cientistas sociais, estudantes, educadores e gestores, que divulga o avanço e projectos de pesquisa de comportamento para melhorar a compreensão das relações entre as pessoas e os seus ambientes.
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Muga (2005) considera que esta complexidade reflecte uma multiplicidade de questões ambientais que emergiram à volta do conceito de psicologia ambiental, com repercussões nos diálogos interdisciplinares e transdisciplinares que esta disciplina propõe, cruzando áreas como a arquitectura, o urbanismo, a geografia humana, a ecologia e a sociologia com as diversas áreas da psicologia social e comportamental. Adoptando uma visão holística do ambiente e comportamento, esta abordagem avalia “os indivíduos e os grupos no seu contexto físico e social, focando-se em particular no estudo das percepções, atitudes, avaliações e representações do ambiente, assim como nos comportamentos a eles associados” (Moser & Uzzell, 2003, p. 422). Ao mesmo tempo que a psicologia alarga a sua área de actuação – do individual para o social e ambiental –, abarcando as interacções do ambiente com o homem, enquanto ser social, a arquitectura, por seu lado, acompanha esta evolução, introduzindo directrizes a nível da percepção e satisfação dos seus utentes. No âmbito do seu objecto de estudo, a psicologia ambiental propõe uma aproximação entre o campo da arquitectura e da psicologia, num entendimento da relação pessoa-ambiente, que concorre para a construção de um ambiente mais humanizado e ecologicamente coerente. Sob este ponto de vista, o espaço construído passa a ser avaliado não apenas em função das suas características construtivas e funcionais, mas como espaço vivencial, que valoriza as percepções da relação pessoa-ambiente, cuja discussão inclui os aspectos comportamentais e sociais essenciais à sua compreensão. A apropriação do espaço, segundo Lauwe, passa pela identificação da pessoa com o espaço no qual se insere: “ (...) apropriar-se de um lugar não é só fazer dele uma utilização reconhecida senão estabelecer uma relação com ele, integrá-lo nas próprias vivências, enraizar-se e deixar a própria marca, organizá-lo e tornar-se actor de sua transformação” (1996, citado em Pol, 1996, p.51).
A aproximação disciplinar entre as ciências sociais e a arquitectura surge na sequência dos efeitos provocados pela Segunda Guerra Mundial, com a destruição das cidades e das novas condições de vida que se impuseram. O objectivo de estudar a qualidade de vida das cidades levou estas duas áreas disciplinares a unirem-se e a assumirem-se como uma área interdisciplinar, a psicologia ambiental (Proshansky, 1987). Nascida nos Estados Unidos e na Europa nos anos 60 e 70, esta área foi adoptando diferentes designações ao longo dos anos e nos diferentes países: “Environmental Psychology ou Environmental Design and Human Behaviour”,
nos Estados Unidos, “Psicologia da Arquitectura”, em Portugal, “Meio Ambiente e Comportamento Humano (MACH)”, nos países de língua espanhola e “Psychologie de l'espace” ou “Psychologie de l'Environnement”, na área francófona.
Neste contexto, a pertinência da alusão ao modelo teórico desenvolvido pelo arquitecto Norberg-Schulz (1998) nos anos 60 prende-se com a sua incursão na psicologia da percepção e na semiologia, analisando a arquitectura a partir do nível artístico, psicológico, social e cultural, na qual o objecto arquitectónico não é mais entendido como objecto em si mesmo, mas como um fenómeno social inserido no ambiente.
A partir deste padrão, o ambiente arquitectónico é visto por este autor segundo três dimensões interdependentes: a técnica, a forma e o uso. Entende que à dimensão técnica estão associados todos os sistemas técnicos que comportam os elementos estruturais, enquanto às dimensões da forma e do uso se associam os atributos espaciais e ambientais. Henrique Muga (2005) explicita esta ideia, referindo que à forma se associam os atributos espaciais nos quais se incluem o volume, os planos, a proporção, as relações de configuração espacial e as características físicas dos planos. O uso, que se relaciona com os atributos do ambiente, contém uma dimensão física e outra social. A dimensão física do ambiente conta com as propriedades ambientais – luz, cor, som, temperatura, odor, objectos e animais. O ambiente social, por outro lado, sinaliza as funções, as estruturas e as relações sociais, e os padrões culturais e simbólicos.
O propósito do edifício é dar ordem a certos aspectos do ambiente, e com isso queremos dizer que a arquitectura controla ou regula as relações entre o homem e o ambiente. Participa, portanto, na criação de um “meio”, ou melhor, de um marco significativo para as actividades do homem (Norberg-Schulz, 1998, p.71).
Para Muga (2005), esta estruturação atinge diferentes níveis de intervenção, que vão desde o urbanismo, ao design, onde as características humanas participam neste ambiente construído, persuadindo, transformando e atribuindo valores às dimensões espaciais e ambientais num todo dinâmico e indivisível. Se o “ambiente construído determina o comportamento humano, (…) também o comportamento humano influencia o ambiente arquitectónico” (p.23).
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Seguindo Holahan (1982), os espaços, os lugares e as paisagens são entendidos como espaços vividos com dimensão existencial e perceptiva, envolvendo o ser humano na sua dimensão comunicativa, estética e social. A percepção do ambiente físico, resultante dos estímulos sensoriais, está na base de toda a apreensão e experiência do ambiente vivido.
Detendo-nos no conjunto de todas estes elementos e das suas interligações pensámos o Design de Ambientes como uma área disciplinar relacionada com as intervenções a nível do espaço interior ou exterior no domínio não só das exigências físicas, mas também psicológicas, sensoriais, relacionais e de relação com o ambiente envolvente.