2 INTERPRETAÇÃO GIRARDIANA DA CRUZ
2.3 A Paciência da Vítima
2.3.8 O Milagre da Ressurreição: a Vida diante do Novum
Cristo não é divinizado como bode expiatório. Os que o tomam por Deus – os cristãos – são os que não fazem dele o seu bode expiatório.218
A última palavra de Jesus na Cruz foi à entrega de seu espírito nas mãos do Pai. De Deus ele tinha sido gerado e é para Deus que seu espírito deveria retornar. Sobre o nascimento de Jesus, escreveu Lucas no capítulo 1, versículo 35: “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus”. Ele foi concebido pelo Deus de amor e agora seu espírito de vida estava de volta ao que o gerou. Para Girard, “dizer que o Cristo é Deus, nascido de Deus, e dizer que ele foi concebido sem pecado, é reafirmar que ele é alheio a esse universo da violência no interior da qual os homens estão aprisionados desde que o mundo é mundo, ou seja, desde Adão”219
. Adão foi criado sem pecado e pecando, levou toda a humanidade a participar do círculo da violência (Romanos 5.12), Jesus também foi gerado sem pecado, esteve sob as mesmas tentações humanas, todavia não caiu no mimetismo violento. Paulo escrevendo sobre essa comparação afirma:
Assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente: o último Adão220 em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. (1 Coríntios 15.45-47)
218
GIRARD, René. Quando começarem a acontecer essas coisas, p. 80. 219
GIRARD, René. Op. cit., p. 270. 220
BRYCE, Raymond. Christ as second Adam: Girardian mimesis redeemed. England: Blackwell Publishing,2011. <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1741-2005.2011.01452.x/abstract.>
Assim, de posse do Espírito de vida de Cristo, Deus o ressuscitou ao terceiro dia. A sua ressurreição gera possibilidades de interpretação de todo o Antigo Testamento. Da mesma maneira é impulsionadora da constituição da chamada igreja e o envio do Consolador, que dará prosseguimento a sua obra, ou seja, “convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo” (João 16.8). Na visão de Girard:
Cristo traz a chave do Antigo Testamento por toda a parte nos próprios Evangelhos, não somente nas interpretações propostas por Jesus, mas também, de modo significativo, em certas cenas posteriores à ressurreição e já dominadas, assim me parece, pela efusão da verdade, ou seja, pelo poder de interpretar conferido aos homens pela Paixão de Cristo.221
A ressurreição traz o início de um novo começo. Tudo estava escuro no primeiro dia da semana, quando as mulheres se dirigem ao sepulcro, remetendo- as as trevas do início. Assim como era só trevas no início222. Em frente ao sepulcro chorando e sem forças para ver Jesus morto, Maria Madalena abaixa para olhar dentro do sepulcro e fica surpresa ao ver “dois anjos vestidos de branco onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés” (João 20.12). Para ALISON, isso é uma volta ao Santíssimo lugar. Lugar onde a presença de Deus é vivida. O sepulcro está aberto e Maria está dentro do jardim. Ao ser chamada por Jesus, “... Mulher, por que choras? Quem buscais? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei” (João 20.15). Maria pensa que Jesus é “o” jardineiro. Essa confusão mental de Maria demonstra que este último Adão, é identificado com o velho Adão que também fora o primeiro jardineiro. Por estar ainda em um pré-gênesis, Jesus adverte a mulher que não lhe tocasse (João 20.17). Nisto, volta a tentação de Eva, quando foi orientada, a não tocar no fruto da árvore da ciência do bem e do mal. (GÊNESIS 3.3)
221
GIRARD, René. Op. cit., p. 270. 222
O que impressiona nesse escrito joanino é o que Jesus, depois de ressurreto, fala a Maria. “Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda eu não subi para meu Pai, mas vai para os meus irmãos, e disse-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (capítulo 20.17). Nessa passagem é a primeira que Jesus se refere a Deus como Pai e os outros como seus irmãos.
Ao aparecer para os apóstolos (v. 19-28) e mostrar as suas feridas, Jesus se revela como vítima perdoadora. Neste momento lhes dá a paz e sopra sobre eles dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (João 20.22). O Filho, de posse de todo o poder nos céus e na terra, sopra sobre os discípulos, criando neles o desejo de ser como Ele, de imitá-lo. Por esse Ruah Kadoshi223 transmite a eles a Zoé 224 de Deus recriando-os como filhos, gerados do próprio Deus, em imagem e semelhança, assim como Adão fora outrora criado.
Os Evangelhos revelam uma irrupção de um novo começo instaurado no meio. Mostram como as “pessoas novas” devem procurar se adaptar a essas coisas novas. Os discípulos passaram a descobrir que estavam dentro de uma nova realidade e, uma vez inseridos nela, deveriam deixar certas coisas para trás, desvinculando-se do passado para viver, no presente, o novum de Deus onde “o
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BERKHOF, Louis 1932. Teologia Sistemática, p. 90. Segundo esse autor de refere-se ao Espírito Santo. Do heb. Ruah Kadosh; do Gr. Hagios Pneumthos. Terceira pessoa da Santíssima Trindade. É um ser dotado de personalidade e vontade própria.
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LARIOS, Paulo Sérgio. Zoé – a vida que é a natureza de Deus. Disponível: <http://fotolog.terra.com.br/amor4:25>. Zoé é a vida que é a natureza de Deus. Para os gregos, um biólogo não era um cientista que estudava as características dos seres vivos. Um biólogo era um ator que representava a vida de uma pessoa, geralmente através da mímica. Isso porque o termo Bíos não designava a vida em geral, mas uma vida específica, a vida de um individuo determinado ou um tipo de vida. A vida no sentido amplo, transcende os atributos de uma vida individual é chamada Zoé. O significado de Zóé é vida em geral, sem caracterização ulterior. Quando se diz Bíos, outra coisa ressoa, ela toca os contornos, os traços característicos de uma vida específica, as linhas fronteiriças que distingue um vivente de outro. Ela tange a ressonância de “vida caracterizada”. Bíos é a minha vida, que tem um começo definido no meu nascimento e um final estabelecido pela minha morte. Na visão grega a forma que a minha vida se encerra é um dos traços que a definem. Zoé, entretanto, se opõe à morte, no sentido que a ultrapassa. A morte põe um fim à minha vida. Mas não à Vida em si, que a transcende e não se deixa limitar por nada nem pela morte.Zoé é a vida considerada sem adscrição de qualquer característica e experimentada sem limitações”. Bíos sou eu. Zoé é a Vida aonde eu estou inserido com minhas limitações, começo e fim específico. Zoé não admite a experiência de sua aniquilação. Mas para nós cristãos Zoé tem uma significância aquém disso.Quando Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (João 14:6). ego imi he odos ke aletia ke zoi. Ao dizer que “ele é”, não significa que ele está vivendo, que ele tem uma vida, mas ultrapassa isso. “Eu sou o caminho”, quer dizer: não existe outro além de mim. “Eu sou a verdade”, a verdade completa é ele. “Eu sou a vida”, isto é, a vida, Zoé, é ele. Então quem está nele tem Zoé. Como cristãos temos a vida de Cristo em nós. Temos Zoé em nós desde que estejamos nele.
Logos do amor deixa acontecer”225
. A Bíblia, para Girard, dividiu a história dos sacrifícios em três etapas:
A primeira etapa é a passagem do sacrifício humano ao sacrifício animal na época dita patriarcal; a segunda etapa é o Êxodo, marcada pela instituição da Páscoa, que acentua, não a imolação, mas a refeição comum, e já não constitui um sacrifício propriamente dito. A terceira etapa é a vontade profética de renúncia a todos os sacrifícios, e ela só se conclui, é claro, nos Evangelhos.226
Agora os discípulos se associam com o rejeitado para ser divulgadores dele. A Pedra rejeitada foi posta como fundamento (Isaias 8.8; 1 Pedro 2.4-10). Os que a rejeitaram (ou ainda a rejeitam) constroem um edifício que está sempre instável. É uma repetição mecânica sem objetivo real e, sobretudo, oposto a liberdade. Ao serem chamados para fora, tirados de dentro de um povo, e constituídos em um novo povo estabelece-se a Ekklesia 227, uma nova visão que não depende do bode expiatório.