CAPÍTULO 4: UMA QUEBRA NO RITMO — DA URGÊNCIA À REFLEXÃO
2. A AIDS como um problema social
2.2. Debate público e a participação dos movimentos sociais
Mesmo que uma banalização da epidemia esteja em curso, à medida em que a AIDS parece ter acabado por decreto, uma série de processos como os descritos, complicam essa narrativa. Afinal, o HIV/AIDS continua importando: os processos descritos, além da própria emergência de promessas como a PrEP, mobilizando uma série de questões, são indicativos disto. Como pode a AIDS ter acabado por decreto, nesse sentido? Argumento que se tratam de processos que buscam estabelecer um modelo de resposta à AIDS, sem no entanto contribuir para o que eu chamo de um debate público. O enfraquecimento do movimento social de AIDS e um progressivo esvaziamento de sua participação em instâncias de controle social, como relatado pelos interlocutores desta etnografia pode evidenciar o que chamo aqui de uma banalização. É como se a epidemia de HIV/AIDS já tivesse acabado, tivesse sido resolvida por modelos de resposta que bastaria aplicar no mundo real, não havendo mais o que dizer sobre. Nas palavras da artista Diamanda Galás, em um trilogia musical que procura denunciar os efeitos perversos do conservadorismo norteamericano sobre as pessoas afetadas pela epidemia, let’s not chat about despair104
. Se o estigma é o que permanece de público na cara
103 Nesse sentido, casos mais graves de infecção pelo HIV — envolvendo casos em que a AIDS se estabelece ou há presença de uma coinfecção, como o caso da tuberculose (TB) — passariam a ser assunto dos serviços especializados. Casos assintomáticos são de responsabilidade da UBS. Dado a situação dos paradoxos do processo de estigmatização, os autores defendem uma autonomia do usuário na busca pelo serviço que ele se sinta mais confortável (ZAMBENEDETTI E SILVA, 2015).
104 Refiro-me a faixa intitulada “Let's not chat about despair”, que faz parte do álbum “You must be certain of the Devil”, lançado por Diamanda Galás em 1988, o álbum é o terceiro da trilogia “Masque of the Red Death”, que aborda os primeiros anos da epidemia de HIV/AIDS nos Estados Unidos. “The Divine Punishment” e “Saint of the Pit”, lançados em 1986, são os outros trabalhos inclusos nessa trilogia. Incluo nesta nota de rodapé trechos da faixa cantada pela artista: “In Kentucky, Harry buys a round of beer/ To celebrate the death of Billy Smith, the queer/ Whose mother still must hide her face in fear/ You who mix
da AIDS como pretendo argumentar, a aposta de Herbert Daniel em 1986 sobre uma banalização da epidemia como algo desejável não se concretiza no que venho descrevendo. Até porque, para Daniel (2018b), a banalização seria a estirpação do estigma, da aura enigmática e do segredo que envolve a epidemia. Sobre o que eu chamo de banalização aqui, o relato de Cecília é elucidativo, nesse sentido.
Então o Ministério da Saúde, ele tinha, na época [2003], diversos comitês assessores: um comitê assessor das profissionais do sexo, comitê assessor da população LGBT, comitê assessor pra pessoas que vivem com AIDS, uma série de comitês assessores, que era a sociedade civil, que era o braço da sociedade civil que assessorava na construção das políticas públicas para aquelas populações. Para além disso tinha uma reunião que eu não sei se era, não me lembro agora, acho que era mensal, ou era bimensal, era mensal, com todos os Fóruns, então tu imagina o que que era, e para além disso ainda tinha a Acnaids, que é um espaço que é da década de 80, que era o espaço que era o Conselho Nacional de AIDS, que era um espaço também, que daí é um espaço que ele é, ele é um espaço mais heterogêneo, ele tem a academia, tem a sociedade civil e tem a gestão. Então simplesmente o Ministério da Saúde decidiu que não precisava mais manter todos aqueles espaços de diálogo com a sociedade civil e que ele instituía, a partir daquele momento, extinguia todos os comitês, todas as reuniões de interlocução com a sociedade civil e ia então instituir a CAMS, que é a Comissão de Articulação com Movimento Social. (...) Primeiro, o movimento social se posicionou contra a criação da CAMS, porque entendia que teria menos representatividade, perda de espaço de interlocução, perda de potência e parceria na construção das políticas públicas, então, assim, o movimento social, em encontro nacional, chegou e disse: “Não, nós não vamos, nós não queremos, não é isso, não vamos aceitar.” (ENTREVISTA COM CECÍLIA, JANEIRO DE 2019).
Localizada uma morte social da AIDS, isto é do debate público que teria instituído o modelo de resposta do Brasil, outrora celebrado internacionalmente, procuro refletir sobre o que permanece vivo em meio a todas as promessas e processos que atravessam essa dissertação. Enfatizo aqui que essa morte social não é algo vivenciado pelas pessoas diretamente afetados pela epidemia: a AIDS, nesse sentido continua bem viva, o HIV ainda é um vírus biológico e ideológico. Nesse sentido, posicionamentos como os de Luiz Henrique Mandetta ou de Reinaldo Azevedo, acerca de uma suposta banalização na qual “as pessoas deixariam de se cuidar, por terem perdido o medo de infecção pelo HIV” não podem fazer sentido. O medo, o estigma e os processos de exclusão social persistem e, associando-se às redes de transmissão do vírus, contribuem para uma elevação dos índices de infecção e mortalidade da epidemia. Por conta de processos que incidem diretamente sobre a autonomia e a vulnerabilidade de pessoas e populações, o vírus se espraia e a síndrome mata. No restante do capítulo descreverei sobre o sentido da prevenção e como a PrEP emerge dos relatos produzidos pelas entrevistas, elaborando em maior profundidade tentativas de resposta a uma epidemia não apenas biológica, mas também de significados, por conta marca do estigma.
the words of torture, suicide and death/ With scotch and soda at the bar/ We're all real decent people, aren't we? But there's no time left for talk:/ Let's not chat about despair”.