CAPÍTULO 4: UMA QUEBRA NO RITMO — DA URGÊNCIA À REFLEXÃO
1. Do movimento social de AIDS: posicionalidades e gerações
Como procurei discutir ao longo da introdução a este capítulo, apresentando os sujeitos entrevistados na pesquisa, não existe algo como “o movimento social de AIDS”. Isto
é, há organização da chamada sociedade civil, mas esta organização não é homogênea, nem delimitada a espaços e instituições discretas. O que não existe, nesse sentido, é uma coesão interna, sendo mais adequado descrever “o movimento social de AIDS” como uma imensa colcha de retalhos, como propôs o relato de Leonardo:
É que assim, o movimento AIDS... a gente fala muito no movimento AIDS, que o movimento AIDS, em si, não existe. Existe uma imensa colcha de retalhos então, não sei... Porque as primeiras pessoas que se viram como sobreviventes de AIDS foram os gays, através do Grupo Somos de São Paulo, lá no início da década de 80. (...). Então foram eles que começaram a fomentar, então aquela coisa assim, tu junta gays e tu junta trabalhadores em saúde preocupados com o que tá acontecendo e sem saber o que tá acontecendo, mas como caía no colo deles... tem que resolver: como é que a gente vai cuidar de uma coisa que a gente não conhece? Tu junta gays, junta profissionais de saúde, junta enfim, esses grupos, e daí quando tu começa a saber de que AIDS não é uma doença de homossexual que mulheres têm, aí o movimento de mulheres se uniu nessa coisa, aí o movimento de usuários de drogas, vem os hemofílicos (...) (ENTREVISTA COM LEONARDO, NOVEMBRO DE 2018).
Este é um relato que já aponta para uma questão das narrativas que circundam diferentes temporalidades sobre a epidemia do HIV/AIDS, sobre o ontem, o hoje e o amanhã, à medida em que o tema participa de um debate público. No entanto, antes de prosseguir nessa direção, procuro enfatizar que as diferentes posicionalidades que descrevo ao apresentar os sujeitos de pesquisa não são nenhuma novidade no que se refere a este debate que procuro retraçar. Gays, profissionais de saúde, mulheres, usuários de drogas e hemofílicos, para fazer referência aos grupos mobilizados no trecho do relato, já começavam a compor uma arena política. Existe, portanto, uma heterogeneidade de atores já bem conhecida e incorporada às narrativas que envolvem o debate público. De modo similar ao que Steven Epstein (1996) nota sobre os primeiros anos da epidemia nos Estados Unidos, é possível afirmar que: uma “ciência da AIDS” no Brasil é estabelecida como uma “ciência impura”, atravessada desde cedo pela participação da sociedade civil organizada.
Nessas políticas de produção do conhecimento envolvendo o HIV/AIDS, um alto grau de politização vêm acompanhando o debate público desde a emergência da epidemia, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O trabalho de Regina Facchini (2005), por exemplo, demonstra como em meio a um processo de redemocratização, a emergência e consolidação de um “movimento homossexual” foi em muito atravessada pela participação política de grupos e associações vinculadas a esse movimento nas políticas de uma nascente epidemia de AIDS. O relato de Leonardo, como mobilizado aqui indica esse primeiro momento da configuração de uma mobilização da chamada sociedade civil nessa direção. Além de também apontar para uma maior abertura e desvinculação ao outrora chamado “movimento homossexual”.
Um primeiro momento, apontam Grangeiro e colegas (2010), em trabalho sobre a criação de estratégias de descentralização e municipalização da resposta à AIDS, que foi também marcado por respostas locais à epidemia, desenvolvidas no âmbito dos Estados e Munícipios que identificaram os primeiros casos de AIDS no Brasil. Em determinado contexto, no entanto, houve um processo de centralização da resposta à epidemia com uma maior participação do Ministério da Saúde, considerando a criação do Programa Nacional de DST e AIDS em 1985. Tal processo se deve a uma atuação de maior envergadura do Programa Nacional, a partir de 1993 com a assinatura do primeiro Acordo de Empréstimo com o Banco Mundial (GRANGEIRO et al, 2010)99
. Essa maior abertura e descolamento inicial com o “movimento homossexual”, presentes no relato de Leonardo, portanto, acompanharam um processo inicial de centralização da resposta à epidemia no nível do Ministério da Saúde. Sendo após a formatação dessa política, centralizada no nível nacional, que ocorre um boom do “movimento social de AIDS”.
Mas uma das coisas que aconteceu com o movimento AIDS foi que ele cresceu demais. O que antes tu tinha organizações em alguns lugares... nos encontros de ONG/AIDS nós reuníamos 100 ONGS/AIDS, tínhamos um encontro com mil e quinhentos pessoas, mas tinham umas 300, 400 ONG/AIDS atuando. ONGs que trabalhavam com AIDS e a gente nem conhecia, mas que iam pros encontros de ONG/AIDS e a gente conhecia elas lá. (...) (ENTREVISTA COM LEONARDO, NOVEMBRO DE 2018).
Trata-se de um processo que Leonardo critica à medida em que nota como, com o crescimento o movimento social de AIDS, foram “perdidas as relações” das diferentes pessoas que participavam e atuavam em ONGs e outras redes da chamada sociedade civil organizada. O aspecto que julgo relevante chamar atenção por enquanto, no relato produzido pela entrevista com o ativista, é que o fenomêno do crescimento do movimento social também implica em uma determinada narrativa que será aqui descrita através dos relatos coletados. Trata-se de uma narrativa que é histórica e que, por isso mesmo, estabelece uma determinada passagem do tempo, colocando em evidência diferentes gerações de ativistas que atuam como parte da colcha de retalhos que seria o movimento social de AIDS.
Ontem, uma história do HIV... O HIV surgindo lá na década de 80 aquele boom do HIV e eu comecei a trabalhar com as questões de HIV lá nos anos 2000, assim porque, eu tava lá na casa dos 20 anos... foi quando eu entrei no movimento, na década de 90 que foi a geração mais atingida assim, por toda a questão assim, do surgimento da coisa da medicação, do AZT, a coisa da prevenção que era, é o negócio era focado no preservativo. As campanhas, não é? Mas eu me lembro que muito isso da história do HIV, que tinha um grupo específico, aí lá pelos anos 2000 a coisa muda, não tinha mais um grupo de risco, mas a juventude é... já era também
99 Trago a referência a trabalhos como os desses autores na medida em que tornam possível o estabelecimento de um diálogo entre as políticas governamentais de “resposta à epidemia” e a participação da sociedade civil, acessada através dos relatos produzidos nas entrevistas.
muito atingida pela questão do HIV e a população negra, principalmente as mulheres negras. E aí eu entro numa organização que começou a trabalhar diretamente com isso, porque lá no ínicio as mulheres negras já diziam: “olha é preciso olhar pra população negra, que essa vai ser a população mais atingida, que é a população pobre, que não tem acesso aos serviços” (…) (ENTREVISTA COM MARIANA, NOVEMBRO DE 2018).
Não, não trabalhava [com a temática do HIV/AIDS]. Eu sempre fui muito, muito voltada, assim, pra parte social, né, no atendimento, né, envolvendo cidadania, e sempre com algum tipo de movimentação em relação a prevenção dentro da unidade. Mesmo sendo preconizado, né, com o foco nas políticas públicas, sempre tem que ter alguém que dê pra eles a frente, né, e eu prefiro fazer isso, tomar a frente, pra falar sobre prevenção nos grupos, pra divulgar e fazer, pra criar material novo, né? E me interessam muito as questões das minorias, né, população negra, faço militância no movimento negro, na saúde, né, como promotora, e aí não tem como falar em militância e em saúde e não falar de HIV. A gente sabe que nossos números de HIV estão muito altos, agora aumentou também pros jovens, e aí tu acaba acompanhando uma falta de fala em prevenção, e mais uma fala em tratamento. E aí nós trabalhadores, a gente vê de uma outra maneira, a gente precisa estar falando em prevenção, e prevenção não é só camisinha, prevenção é “N” maneiras, e a camisinha que previne, mas temos outros métodos, como a PrEP mesmo, e muitos, muitos usuários, e até mesmo profissionais, eles não têm conhecimento, e se tu não tem conhecimento, como é que tu vai transmitir pro outro, né? (...) (ENTREVISTA COM DANIELA, NOVEMBRO DE 2018).
Os relatos dispostos acima, no entanto, fazem referência a trajetórias de pessoas que passaram a atuar numa geração mais recente do movimento social de AIDS, conforme o relato de Leonardo. Engajando-se nas pautas levantadas a partir da especificidade da saúde da população negra. Esta é uma questão que seria possível de relacionar aos sucessos e conquistas, ainda que relativos, da experiência da geração anterior. No relato produzido pela entrevista com Leonardo, tal diferença geracional pode também ser associada à garantia do acesso universal aos antirretrovirais, estabelecido pela Lei 9.313 de 1996 (BRASIL, 1996).
Então teve a fase do terror [na década de 1980] e as pessoas morriam como baratas... a partir de 96 há uma nova fase. Digamos assim, até 96, talvez a gente diga que... aquela coisa que eu falei do silêncio igual à morte e do fazer barulho pra mostrar que tá vivo. A segunda fase que é “o se esconder pra morrer e se mostrar pra viver”, que é o lema da RNP [Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS]. Ou as mulheres, as Cidadãs PositHIVas, que assumiram o lema acho que da luta de mulheres contra o câncer, que é aquela “nada sobre nós sem nós”, sabe? Então tu vai começando o teu protagonismo, o ator muda... o protagonismo saí... como é que eu vou dizer, assim, as pessoas deixam de serem representadas, pra se representar. (ENTREVISTA COM LEONARDO, NOVEMBRO DE 2018).
Essa associação entre a Lei de Acesso Universal, no entanto, e as mudanças em termos da representação e protagonismo no movimento social, não é realizada explicitamente pelo relato de Leonardo. O que está em questão é como, a partir do ano de 1996, um outro tipo de mobilização se torna possível e diferentes frentes são criadas. É possível uma outra lógica de representatividade: enfocando-se, conforme a leitura do ativista, mais na luta por direitos do que num enfrentamento à epidemia. Trata-se de um deslocamento geracional que me foi
descrito em complexidade pelo ativista, enfatizando uma multidirecionalidade de causas e efeitos e que, na presente dissertação, exploro a partir de uma narrativa de banalização da epidemia.
É, então, o movimento AIDS ele vem de uma grande colcha de retalhos e daí essa colcha se fragmenta quando entra muito mais na luta de direitos do que na luta de... dos direitos pessoais assim, então na luta de direitos dos negros, direito de mulheres — que acho que são legítimas e não to questionando mérito — volta... cai na sua pauta e... então a mulher foca no aborto, o gay foca no casamento, o negro foca no racismo institucional, tu perde a unidade de focar no HIV e cada um vai pro seu lado, então a AIDS passa a ser transversal e acaba caindo a AIDS, o ativismo de AIDS acaba caindo num assistencialismo. (ENTREVISTA COMLEONARDO, NOVEMBRO DE 2018. Grifo meu).
Sobre a questão da banalização, retornarei à ela num momento mais oportuno do texto, quando elaborar com maior profundidade os relatos produzidos pela mediação das entrevistas. Procuro apenas relembrar o que discuti ao longo do terceiro capítulo, apresentando a reportagem sobre os posicionamentos de Luiz Henrique Mandetta (O GLOBO, 2018). Considero de extrema importância já tornar explícito o seguinte questionamento aqui, ainda que esta questão venha a ser elaborada mais adiante no capítulo: “quem banaliza o quê?”, na medida em que dependendo da resposta, é possível recair em leituras estigmatizantes como as mobilizadas por Mandetta.
A crítica realizada por Leonardo nessa inflexão geracional, bem como dos outros ativistas que possuem alguma vinculação com o GAPA-RS, como Cecília ou Pablo, diz respeito a uma redução da atuação de diferentes entidades do movimento social a um “caráter assistencialista”. Esse “caráter assistencialista” também acompanhou os anos iniciais da ONG/AIDS, à medida em que a política governamental de resposta ao HIV/AIDS se constituía no âmbito do Programa Nacional (GRANGEIRO et al, 2010)100
. Cecília começou a participar da ONG/AIDS no ano de 1999, se aproximando de suas propostas em função de trabalhos que realizava durante sua formação em Ciências Sociais; já Pablo no ano de 2001, logo após a conclusão do Ensino Médio, quando tal caráter assistencialista já não estava tão presente na atuação da ONG:
O GAPA era uma instituição com um viés mais assistencialista no início, porque a própria dinâmica da epidemia um pouco exigia isso, então tinha a questão dos medicamentos que as pessoas não tinham acesso, tinha a própria questão de disponibilização de cesta básica, as pessoas ficavam muito fragilizadas, perdiam seus empregos, então tinha toda uma questão assistencialista que o GAPA dava conta no começo. (…) Em 96, com o acesso universal à terapia antirretroviral,
100 Em seu trabalho, Seffner (1995) também explora, a partir de relatos de pessoas vinculadas à formação da ONG/AIDS em 1989 a participação do grupo em ações de protesto. Tais protestos eram marcados por um tipo de atuação política de extrema denúncia, envolvendo estratégias como o “banho de sangue” em frente a localidades vinculadas às políticas públicas de saúde em Porto Alegre.
algumas coisas, os paradigmas mudam um pouco, inclusive no momento de se pensar as políticas públicas de enfrentamento de AIDS. Porque, até aquele momento, primeiro se tinha muito pouco conhecimento da doença, depois, se tinha já alguns medicamentos, mas não se tinha acesso, então se passou muitos anos brigando pra garantir o direito de vida das pessoas que vivem com AIDS. E daí, quando tu consegue acesso universal a medicação, é o momento em que tu quebra alguns paradigmas e as demandas do movimento.(...) Daí naquele momento o GAPA rompeu com algumas atividades que tem, fez a opção de ser uma instituição muito mais ativa politicamente e voltar suas ações nas questões de inserção em espaços de controle social, pensar em ações de advocacy, manter sim as atividades de base, de atenção às pessoas que vivem com AIDS, de prevenção, mas também atuar mais politicamente. (ENTREVISTA COM CECÍLIA, JANEIRO DE 2019).
E daí iniciou naquela época [a partir de 1989] o trabalho de apoio e prevenção a quem vivia com HIV/AIDS. Embora fosse uma ONG com um grupo quase na sua totalidade de homens gays, foi uma ONG que voltou a fazer trabalhos e reivindicar questões relacionadas a HIV/AIDS pra população em geral. Eram homens, eram mulheres e eram travestis, que era muito corriqueiro na época né, corriqueiro não, mas era muito comum na época, as travestis, se falava muito na época em relação a HIV/AIDS. Então criaram essa ONG pra tentar buscar investimento, buscar respostas governamentais pra que tentassem diminuir a incidência de HIV/AIDS com essas populações. Aí foi que se deu o início do GAPA aqui no Rio Grande do Sul (ENTREVISTA COM PABLO, NOVEMBRO DE 2018).
Um potencial político de atuação das ONGs em esferas de controle social — como os Conselhos de Saúde — ou em campanhas de prevenção, entendidas de maneira ampla, como será descrito ao longo do capítulo, pode ter sido deixado de lado no crescimento do “movimento social” que relata Leonardo. Este é um crescimento que, como já apontei brevemente a partir da consideração de Grangeiro e colegas (2010), acompanha a consolidação de uma política nacional de resposta à epidemia de HIV/AIDS que recentemente passa a se descentralizar, após uma centralização da política nos anos 1990. Essa descentralização tem acarretado em efeitos complexos ao movimento social organizado e atuante no debate público que procuro descrever, conforme pesquisa realizada por Carlos Duarte (2008) acerca das perspectivas de ONG/AIDS do Rio Grande do Sul sobre as consequências de tal processo. A presença e as trajetórias de Cecília e Matheus, bem como a de Leonardo na ONG/AIDS se desdobram, assim, a partir desse momento de crescimento do movimento social e de uma transição geracional de ativistas, acompanhada pela constituição de uma política de AIDS centralizada no nível nacional.
Os relatos de Mariana e de Daniela podem ser localizados como parte de uma segunda geração no movimento social de AIDS, uma vez que sua trajetória política em relação a epidemia se consolida a partir de um compromisso mais geral com a saúde da população negra. E, nesse sentido, são reveladores de uma complexidade das posicionalidades dos sujeitos que concordaram em participar desta investigação e participam do que chamo de um debate público sobre a epidemia na cidade. Participando ativamente de uma linha que poderia
ser descrita como “assistencialista” — para utilizar o termo evocado nas entrevistas com os ativistas do GAPA-RS — nos serviços de saúde, as agentes de saúde, também reconhecem a importância de ocupar instâncias de controle social e de realizar campanhas de prevenção com um cunho mais educativo, menos focado em uma questão “mais tecnicista”101
como a distribuição de preservativos ou a realização de testes rápidos. Em que se pese sua atuação nos serviços de saúde, trata-se de um trabalho que é realizado diretamente com o usuário do serviço na ponta, ao mesmo tempo em que reconhecem a importância de ocupar espaços de controle social.
As trajetórias de atuação política relatadas por tais interlocutoras, nesse sentido, emergem de modo a complexificar a narrativa geracional que procuro recuperar. Não existe uma separação entre movimento (ou controle) social e assistência em saúde, uma vez que a própria sociedade civil organizada também se consolida a partir da presença de pessoas que atuam diretamente nos serviços, e as trajetórias dos sujeitos desta pesquisa evidenciam entrecruzamentos entre tais pontos. Deste modo, considero relevante chamar atenção para a importância que tais interlocutoras depositam na questão do controle social e de ações de prevenção mais amplas. Que como será discutido tratam-se de estratégias que podem ser relacionadas à atuação política de ativistas de uma geração anterior do movimento social de AIDS, conforme os relatos de Leonardo. Conforme contam Mariana e Daniela,
Independente de ser trabalhadora, eu acho que o movimento social, ele tem muita força, e o usuário é que não tem conhecimento, novamente, não tem conhecimento do poder que ele tem, e o poder não é ir pra porta do posto querer quebrar tudo, né, é se mobilizar e participar do movimento, né, no controle social. Esse ano teve a Conferência Nacional de Vigilância em Saúde, esse ano, esse ano, na real era pra ser ano passado e foi adiado. (…) Então, esse ano vai ter de novo (…) tem a pré- conferência, aí é por região, por território, né, tu tira as pautas, aquelas pautas vão pra Conferência Municipal, tu tira as pautas e tira delegados da Municipal. Na municipal tu reúne todas as pautas, HIV, TB… Tudo, né, relacionadas a vigilância, aí na municipal é feita uma votação de novo, que vai pra estadual, e ali na municipal tu tira os delegados pra estadual também. As pautas que passou na municipal, vão pra estadual, aí elas concorrem com todos os municípios do estado, tem representantes de todos os municípios. Lá na estadual eles tiram os delegados da nacional, tiram os delegados da nacional e as pautas que vão ir pra nacional. Aí, novamente: as que vão pra nacional, em Brasília, lá em Brasília elas são votadas, o que for aprovado pela plenária vira lei, tem que ser cumprido. Eu fui delegada, eu fui eleita na municipal, na estadual, e eu fui pra Brasília como delegada representante do Rio Grande do Sul. Foi uma delegação, 64 delegados. (...) Eu não me lembro qual era nossa pauta de HIV na municipal, não lembro. Só pra tu ter uma ideia, aqui do Rio Grande do Sul não foi nenhuma pauta HIV/AIDS pra Brasília (ENTREVISTA COM DANIELA, NOVEMBRO DE 2018).
101 Ver Pinheiro (2018). Recupero o argumento do autor, que explora a maneira como “abordagens tecnicistas” de resposta à epidemia podem confluir com conservadorismos diversos, nas considerações finais desta dissertação.
É isso, a gente não vai mudar o comportamento de todo mundo. É um trabalho de educação permanente, essa coisa de a gente tá investindo nas campanhas... de tá na rua, que acho que é como o [comitê] faz na divulgação da PrEP... a gente tá fazendo isso porque quer que que o estudo dê certo, mas a gente também quer contemplar uma parcela da população que não costuma ser contemplada porque o pessoal, os médicos não estão preocupados se a maioria dos negros vão se infectar, se eles estão mais vulneráveis. Eles querem o “N” da pesquisa, se nosso “N” é 180 durante os cinco anos, é com eles que a gente vai trabalhar. Independente se é preto ou branco,