5.2.5 Medidas de combate previstas pela Lei 12.318/10
5.2.5.7 Declarar a suspensão da autoridade parental
Este inciso confere um grande remédio ao Poder Judiciário, na medida em que possibilita a
interrupção imediata de toda influência negativa que porventura o autor da alienação, um de
seus pais, estiver exercendo no seu rebento, por meio da suspenção judicial da própria
autoridade parental do alienador.
338Trata-se de medida, que dado a sua extensão, só pode ser aplicada as condutas mais graves e
violentas de alienação. A princípio, a sanção prevista pelo anteprojeto original da Lei
12.318/2010 era muito mais forte: extinção definitiva (e não a suspensão) da autoridade
parental. No entanto, a proposição original foi alterada pela Comissão de Seguridade Social e
Família (CSSF) da Câmara dos Deputados, sob o fundamento de que seria inconstitucional.
339
337BRASIL, Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, que dispõe sobre o Código de Processo Civil.
338SANDRI, Jussara. Alienação parental: O uso dos filhos como instrumento vingança entre os pais, 2013, p.120. 339BUOSI, Caroline de Cássia F. Alienação parental: uma interface do direito e da psicologia, 2012, p.137.
No aludido dispositivo, o legislador infraconstitucional optou por utilizar a expressão
autoridade parental, que é atualmente chamada pelo Direito Civil de poder familiar, consoante
disposto no art. 1.631 do Código Civil de 2002, e não mais de pátrio poder (Código Civil de
2016), expressão que se originou no direito romano.
Art. 1.631: Durante o casamento e a união estável, compete o poder familiar
aos pais; na falta ou impedimento de um deles, o outro o exercerá com
exclusividade. (Grifo nosso)
340Para Douglas Freitas
341, embora o inciso sete, do artigo sexto, da Lei 12.318/2010 não empregue
o nome poder familiar, se refere ao mesmo instituto do Código Civil. Por conseguinte, a
alienação parental é mais uma causa que permite que o magistrado suspenda o poder familiar,
de modo temporário ou definitivo, de forma parcial ou de todos os seus atributos.
Em quadros de alienação, em que já foram utilizadas sem sucesso as demais alternativas
oferecidas pela mencionada lei, esta opção deve ser empregada para definitivamente colocar a
criança a salvo de todos danos que sofreu, uma vez que a continuação da convivência da criança
com o alienante, acabaria por gerar mais sofrimento a vida do menor.
342O poder familiar é na verdade um múnus público, uma obrigação imposta aos pais pelo Estado,
através do ordenamento jurídico, para que ambos os genitores cuidem de futuro de seus
rebentos. Este instituto foi criado com o objetivo de atender ao interesse de toda a família (pais
e filhos), garantindo a concretização da chamada paternidade responsável, prevista pelo
parágrafo sétimo, do art. 226, § 7º, da Carta Cidadã de 1988.
343Art. 226: A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
§ 7º - Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade
responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao
Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse
direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais
ou privadas. (grifo nosso)
344Poder familiar é conceituado, por Gagliano e Pamplona
345, como um conjunto de direitos e de
obrigações que são conferidas a ambos os genitores, por força de lei, em razão da autoridade
340BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil.
341FREITAS, Douglas Phillips. Alienação parental – Comentários Lei 12.318/2010, 2015, Cap. 2, VitalBook file. 342BUOSI, Caroline de Cássia F. Alienação parental: uma interface do direito e da psicologia, 2012, p.138. 343GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, vol. 6: direito de família, 2015, p.963.
344BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
345GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA, Rodolfo Filho. Novo curso de direito civil, vol. 6, direito de família
parental que exercem em face dos seus filhos, enquanto forem menores ou incapazes. Desta
forma, a autoridade familiar extinguir-se-á automaticamente quando os filhos atingirem a plena
capacidade civil pelo advento da maior idade ou pela emancipação.
O princípio da isonomia, consagrado pelo artigo quinto (caput e inciso primeiro) da Carta
Magna de 1988, assegura definitivamente que o próprio Estado, a população e geral e o
legislador infraconstitucional terão que respeitar a igualdade de direitos entre ambos os sexos,
ficando proibido qualquer tipo de tratamento diferenciado com base em critérios arbitrários.
Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes.
I - Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta
Constituição (grifo nosso).
346O parágrafo quinto, do art. 226 da Carta magna de 1988, assegurou, de uma vez por todas, que
o poder familiar será exercido igualitariamente por ambos genitores.
Art. 226: A família, base de toda a sociedade, tem especial proteção do Estado.
(grifo nosso)
§ 5º - Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos
igualmente pelo homem e pela mulher.
347Carlos Roberto Gonsalves
348salienta que legislador infraconstitucional, para reafirmar não só
o fim do pátrio poder, mas principalmente a igualdade dos pais no exercício do poder familiar,
teve o cuidado de repetir o aludido comando constitucional em dois dispositivos: no art. 1.631
do Código Civil de 2002 e no art. 21 do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Art. 1.631: Durante o casamento e a união estável, compete o poder familiar
aos pais; na falta ou impedimento de um deles, o outro o exercerá com
exclusividade. (Grifo nosso)
349Art. 21: O pátrio poder deve ser exercido, em igualdade de condições, pelo pai
e pela mãe, na forma que dispuser a legislação civil, assegurado a qualquer
deles o direito de, em caso de discordância, recorrer à autoridade judiciária
competente para a solução da divergência. (Grifo nosso)
350Os filhos, enquanto prevalecer sua condição de incapacidade civil, e não tendo sido legalmente
346BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 347Ibidem.
348GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, vol. 6: direito de família, 2015, p.970. 349BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil.
350BRASIL, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providencias.
emancipados, serão formalmente representados por seus pais, uma vez que, como são
civilmente incapazes não podem exteriorizar sua vontade, que será suprida por seus genitores
e, na sua falta, por representantes indicados pelo Judiciário, de sorte a salvaguardar os interesses
dos menores.
351A prescrição não tem o condão de atingir o poder familiar, que só se extingue nas hipóteses e
nos casos previstos pelo ordenamento jurídico.
Art. 1.635. Extingue-se o poder familiar:
I - pela morte dos pais ou do filho;
II - pela emancipação, nos termos do art. 5
o, parágrafo único;
III - pela maioridade;
IV - pela adoção;
V - por decisão judicial, na forma do artigo 1.638.
352Irrenunciabilidade, intransacionabilidade e indelegabilidade são características do poder
parental, uma vez que se trata de mumus público do qual o particular não se desvincula sem
autorização do Estado, que poderá excepcioná-la através do instituto da colocação do menor
em família substituta, consoante disposto no art. 166 do Estatuto da Criança e do
Adolescente.
353Douglas Freitas
354salienta que a Lei 12.318/2010 configura, o exercício de qualquer conduta
alienadora como um ato abusivo e indesejado da autoridade parental, que são reconhecidos,
pelo art. 1.637 da lex civilista, como causas ensejadoras da suspensão do poder familiar.
Art. 1.637: Se o pai, ou a mãe, abusar de sua autoridade, faltando aos deveres
a eles inerentes ou arruinando os bens dos filhos, cabe ao juiz, requerendo
algum parente, ou o Ministério Público, adotar a medida que lhe pareça
reclamada pela segurança do menor e seus haveres, até suspendendo o poder
familiar, quando convenha.
Parágrafo único. Suspende-se igualmente o exercício do poder familiar ao pai
ou à mãe condenados por sentença irrecorrível, em virtude de crime cuja pena
exceda a dois anos de prisão. (grifo nosso)
355Naturalmente, quando a aludida suspensão do poder familiar atinge exclusivamente apenas um
genitor, o mencionado poder se centraliza integralmente no outro. No entanto, se
351GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA, Rodolfo Filho. Novo curso de direito civil, vol. 6, direito de família
- As famílias em perspectiva constitucional, 2015, p.1449.
352BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil.
353GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, vol. 6: direito de família, 2015, p.966.
354FREITAS, Douglas Phillips. Alienação parental – Comentários Lei 12.318/2010, 2015, Cap. 2, VitalBook file. 355BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil.
justificadamente este, por qualquer motivo, não puder exercê-lo ou já tiver falecido, o
magistrado terá que nomear temporariamente um tutor para a criança ou adolescente.
Art. 1.734: As crianças e os adolescentes cujos pais forem desconhecidos,
falecidos ou que tiverem sido suspensos ou destituídos do poder familiar terão
tutores nomeados pelo Juiz ou serão incluídos em programa de colocação
familiar, na forma prevista pela Lei n
o8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto
da Criança e do Adolescente. (grifo nosso)
356O intrincado procedimento para extinção ou suspensão do poder familiar não foi estabelecido
pelo Código Civil, apesar de ter sido o diploma legal que o conceituou e definiu suas normas.
Coube ao ECA. o Estatuto da Criança e do Adolescente, tratar da matéria, garantindo o respeito
ao devido processo legal e a ampla defesa, estabelecendo como legitimados ativos, o Ministério
Público ou qualquer pessoa que comprovadamente tenha legítimo interesse no caso, consoante
disposto no art. 155 da Lei 8.069/1990.
Art. 155: O procedimento para a perda ou a suspensão do poder familiar terá
início por provocação do Ministério Público ou de quem tenha legítimo
interesse. (grifo nosso)
Art. 156: A petição inicial indicará:
I - a autoridade judiciária a que for dirigida;
II - o nome, o estado civil, a profissão e a residência do requerente e do
requerido, dispensada a qualificação em se tratando de pedido formulado por
representante do Ministério Público;
III - a exposição sumária do fato e o pedido;
IV - as provas que serão produzidas, oferecendo, desde logo, o rol de
testemunhas e documentos. (grifo nosso)
357Segundo a lex civilis, a destituição do poder familiar só ocorrerá de forma excepcional, em
decorrência de comportamento grave (culposo ou doloso) de um dos genitores, por decisão
judicial fundamentada, em um processo que necessariamente garanta o exercício do direito
constitucional do contraditório e da ampla defesa.
358Se o atos alienadores continuarem sendo praticados pelo autor da alienação, mesmo após a
suspensão a suspensão de seu poder familiar, o Judiciário poderá, em uma nova ação, extinguir
o (perda) o aludido poder, mesmo que não haja previsão expressa na Lei 12.318/2010, com
fulcro na ordem contida no inciso quatro, do art. 1.638 do Código Civil, ou seja, quando
356BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil.
357BRASIL, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providencias.
358GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA, Rodolfo Filho. Novo curso de direito civil, vol. 6, direito de família
continuar praticando as faltas que levem à suspensão do poder familiar.
359Carlos Roberto Gonçalves
360salienta que a perda do poder familiar apesar de, a princípio, ser
permanente, pode, no entanto, não ter natureza definitiva, pois eventualmente os genitores
podem recuperá-lo através de um processo judicial, em que fique devidamente provado o
termino das causas que levaram a sua perda.
361A Lei 8.069/1990, em uma interpretação conjunta com a Lei 12.318/2010, pode também ser
utilizada para justificar a perda do poder familiar do genitor alienante. Aos pais incumbe, segun-
do o comando do art. 22 do ECA, dentre outras obrigações, o dever de cumprir as determinações
judiciais, a exemplo da ordem judicial de cessação de pratica de ato de alienação parental.
Art. 22: Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos
menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e
fazer cumprir as determinações judiciais.
Parágrafo único: A mãe e o pai, ou os responsáveis, têm direitos iguais e de-
veres e responsabilidades compartilhados no cuidado e na educação da crian-
ça, devendo ser resguardado o direito de transmissão familiar de suas crenças
e culturas, assegurados os direitos da criança estabelecidos nesta Lei
362O comando expresso no art. 24 da Lei 8.069/1990 (ECA) possibilita que o magistrado determine
a perda judicial do poder familiar na hipótese de um dos pais, de forma injustificada, não
cumprir os encargos previstos pelo art. 22 do aludido diploma legal.
Art. 24. A perda e a suspensão do poder familiar serão decretadas
judicialmente, em procedimento contraditório, nos casos previstos na
legislação civil, bem como na hipótese de descumprimento injustificado dos
deveres e obrigações a que alude o art. 22.
363Em respeito ao princípio do melhor interesse do menor, o Poder Judiciário deve sempre
empregar todos os meios adequados e suficientes para combater as condutas alienadoras, de
sorte a garantir o reestabelecimento de uma convivência familiar saudável do filho e com o
ex-companheiro, pondo fim a alienação.
364
359FREITAS, Douglas Phillips. Alienação parental – Comentários Lei 12.318/2010, 2015, Cap. 2, VitalBook file. 360GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, vol. 6: direito de família [EPUB], 2015, p.1011. 361Ibidem, p.1011.
362BRASIL, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providencias.
363Ibidem.