3.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO DE FAMÍLIA
3.2.2 Princípio da igualdade e respeito à diferença
Maria Berenice Dias
105, citando as palavras de Rui Barbosa “tratar iguais com desigualdade ou
desiguais com igualdade não é igualdade real, mas flagrante desigualdade”, defende que o
ordenamento julgue todos como iguais, levando em conta as características e peculiaridades de
cada um, de forma a assegurar a concretização deste princípio.
A Carta Magna de 1988 previu expressamente este princípio no seu preâmbulo e no artigo
quinto, que previu a igualdade para ambos os sexos, in verbis:
Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: (grifo nosso)
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta
Constituição;
106
103BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil. 104BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
105DIAS, Maria Berenice. op. cit., p.50.
O legislador também tratou deste princípio no parágrafo quinto do art. 226, ao assegurar a
isonomia de ambos cônjuges na relação conjugal, acabando definitivamente com o pátrio poder,
resquício da sociedade patriarcal do século passado, que não conferia qualquer tipo de direito
ou poder a mulher no casamento, in verbis:
Art. 226: A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
[...]
§ 5º: Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos
igualmente pelo homem e pela mulher. (grifo nosso)
107Também decorre da aplicação direta deste princípio, o reconhecimento, pelo parágrafo sexto
do art. 227 da Carta Magna de 1998, da igualdade de direitos entre os todos os filhos, sejam
eles adotados, advindos ou não do casamento ou da união estável (filhos do casal ou de apenas
uma das partes) e da proibição de qualquer tipo de tratamento discriminatório decorrente da
filiação, a exemplo de sua classificação em função da situação dos pais.
Este princípio representou uma ruptura constitucional do caráter patriarcal e patrimonial de
família vigente desde o Brasil colônia, ao assegurar expressamente, na Carta Magna de 1988, a
igualdade entre homem e mulher, entre as diversas espécies de entidades familiares e entre
filhos legítimos, ilegítimos e adotados, acabando, de uma vez por todas, com os ultrapassados
fundamentos jurídicos do modelo de família previsto pelo Código Civil de 1916.
Este princípio deu um novo norte às relações familiares (igualdade entre a parentela), que
passaram a se guiar por uma relação democrática e efetiva de igualdade substancial (e, não,
apenas formal) entre seus membros e pela divisão equitativa da direção da família entre o
marido e a esposa, substituiu, na sociedade, o antigo modelo tradicional.
108Um dos maiores objetivos do direito é garantir a igualdade. Conferir o mesmo tratamento a
pessoas que façam parte do mesmo grupo configura a chamada igualdade formal que se identi
fica com o conceito de justiça formal. Conceder tratamento desigual aos desiguais, na medida
da sua desigualdade, configura a igualdade material que se liga à noção de justiça material, que
deve ser almejada pelo direito, porque ainda existem desigualdades na sociedade.
109O comando contido neste princípio proíbe o Poder Legislativo de editar qualquer tipo de norma
107BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
108PEREIRA, Summaya Saady. Direitos fundamentais e relações familiares, 2007, p.90.
(leis, portarias, medidas provisórias, decretos etc.) que o viole. Determina, também, que o Poder
Executivo implemente políticas públicas para remover definitivamente todas as disparidades
existentes entre os gêneros. A tradição e os costumes não devem ser utilizados como
justificativa para não se concretizar este princípio.
110O intérprete da lei não deve se furtar ao comando impositivo contido nesse princípio, de sorte
que o magistrado em suas decisões, diante do caso concreto, não pode produzir qualquer tipo
de desigualdade ao aplicar uma norma jurídica ou criar benefícios ilegítimos e injustificados.
O Judiciário deve garantir e tutelar direitos que foram abandonados e esquecidos pela lei e não
se deve calar diante de posturas intolerantes que emudecem a sociedade.
111Nenhum princípio possui aplicação absoluta, admitindo eventuais restrições que não violem
sua essência. A possibilidade do casal escolher o regime de bens que será adotado por seu
matrimonio (art. 1.639/CC) é excepcionada, por exemplo, pela exigência da separação
obrigatória para as situações em que uma viúva decida se casar antes e decorrido o interstício
mínimo de dez meses da data do óbito do ex-cônjuge (art. 1.641 e 1.523/CC).
O aspecto material deve ser sempre respeitado quando da concretização da igualdade entre
homem e mulher, sendo valido e plausível o respeito às particularidades de cada sexo na
efetivação deste princípio. Conferir à mulher idêntico tratamento dado aos homens, como forma
de garantir a efetivação da igualdade, é uma política que se encontra superada, pois é necessário
reconhecer e preservar as nuances femininas sob pena de eliminá-las.
112Esse princípio pode ser excepcionado sempre que se configure um caso típico de discriminação,
pois se deve respeitar as diferenças. A presença de necessidades ou potencialidade especiais em
cada filho permite que seu responsável adote particularidades, por exemplo, o tratamento
especial para minorar as consequências de eventuais deficiências na sua educação, respeitando
suas diferenças em obediência ao princípio constitucional da igualdade.
113A Lei 13.058/2014 respeita este princípio quando atribui compulsoriamente (existem
exceções), nos casos de separação, a guarda compartilhada dos rebentos do casal
simultaneamente a ambos os pais, preservando, assim, a igualdade de direitos de todos os
110LOBO, Paulo. Direito civil: famílias, 2011, p.67.
111DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias, 2016, p.52-53. 112Ibidem, p.51.
genitores sobre seus rebentos, garantindo, assim, que os direitos e deveres concernentes à
sociedade conjugal sejam de fato exercidos de forma conjunta e igualitária pelos pais.
A alienação parental profana diretamente o princípio constitucional da igualdade, que assegura
a igualdade de direitos entre os pais, entre os quais, se sobressai o direito de ter uma convivência
saudável e pacífica com seus filhos, que é violada frontalmente quando um dos genitores
inviabiliza ou dificulta o convívio do outro genitor com seu filho menor por meio de uma
conduta alienadora.
No documento
Universidade Católica do Salvador
(páginas 47-50)