A intervenção, em conformidade com o atual regramento constitucional, foi implementada no Rio de Janeiro, por intermédio do Decreto 9.288, de 16 de fevereiro de 2018 Esse ato excepcional, decorreu dos fatores que constam na motivação do Decreto, fundado no comprometimento da ordem pública, decorrente dos índices de criminalidade observados no Rio de Janeiro, conforme foi afirmado em pronunciamento à imprensa pelo Presidente da República, Michel Temer, autoridade competente para a instauração do processo interventivo, o qual afirmou,
[...] o crime organizado quase tomou conta do estado do Rio de Janeiro. É uma metástase que se espalha pelo país e ameaça a tranquilidade de nosso povo. Por isso, decretei hoje intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro. Tomo medida extrema porque assim exigiram as circunstâncias.
O governo dará respostas duras, firmes e adotará todas as providências necessárias para derrotar o crime organizado e as quadrilhas. Não aceitaremos mais passivamente a morte de inocentes. É intolerável que estejamos enterrando pais e mães de família, trabalhadores honestos, policiais, jovens e crianças.
[...] A desordem é a pior das guerras. Começamos uma batalha cujo o caminho é o sucesso. E contamos com todos os homens e mulheres de bem ao nosso lado, apoiando, sendo vigilantes e parceiros nessa luta. (BRANDÃO, 2018, grifo nosso) O quadro do Rio de Janeiro, anterior à intervenção pode ser demonstrado pela tabela abaixo.
Tabela 1 – Ranking dos estados federativos, taxa de mortes violentas (por 100 mil habitantes) no ano de 2016.
Ranking Estado Taxa de mortes violentas (por 100 mil habitantes)
1º Sergipe 64,0
2º Rio Grande do Norte 56,9
3º Alagoas 55,9
4º Pará 50,9
5º Amapá 49,6
7º Bahia 46,5 8º Goiás 43,8 9º Ceará 39,8 10º Rio de Janeiro 37,6 11º Mato Grosso 35,5 12º Maranhão 33,7 13º Paraíba 33,1 14º Rondônia 32,8 15º Espírito Santo 32,6
16º Rio Grande do Sul 31,2
17º Acre 29,8
18º Amazonas 29,4
19º Tocantins 27,1
20º Paraná 25,9
21º Mato Grosso do Sul 22,7
22º Distrito Federal 22,1 23º Piauí 21,9 24º Minas Gerais 20,7 25º Roraima 19,8 26º Santa Catarina 15 27º São Paulo 11
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2017).
Depreende-se dos dados que o Rio de Janeiro, não é o estado mais violento da federação. Porém o Rio de Janeiro, por ser o estado com a cidade turística mais importante do país, sede das últimas das olimpíadas, símbolo do carnaval brasileiro, apresenta maior visibilidade interna e externa que as demais unidades da federação, razão pela qual a repercussão de uma intervenção, pela sua excepcionalidade jurídica deve ser analisada.
A intervenção tem por objetivo restabelecer a ordem pública o Estado do Rio de Janeiro, assim se depreende o parágrafo segundo, do artigo 1º, do Decreto interventivo.
Art. 1º Fica decretada intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro até 31 de dezembro de 2018.
§ 1º A intervenção de que trata o caput se limita à área de segurança pública, conforme o disposto no Capítulo III do Título V da Constituição e no Título V da Constituição do Estado do Rio de Janeiro.
§ 2º O objetivo da intervenção é pôr termo a grave comprometimento da ordem pública no Estado do Rio de Janeiro. (BRASIL, 2018)
O que se propõe a discutir é que espécie de ordem pública estaria em grave comprometimento, uma vez que os dados demonstram que o Rio de Janeiro não é o estado da federação em situação mais grave.
[...] o Rio de Janeiro, já sob o decreto interventivo, fez o desfile das campeãs do carnaval no dia seguinte, além de assistir a milhares de pessoas “encerrando” os festejos de momo sem maiores entraves. Ora, um Estado que está sob intervenção em face do “grave comprometimento da ordem pública” não estaria em total desordem? Ordem pública é um conceito jurídico. Ele não é fruto de escolha ou de puro discricionarismo. Não exsurge de um “ato de vontade” (STRECK, 2018, grifo do autor).
O grave comprometimento ordem pública é um fato, devendo ser constatado de forma objetiva, cristalina, com critérios técnicos, não podendo despontar como ato de vontade, não é ato discricionário. Decretada a intervenção no Rio de Janeiro, abre precedentes para intervenções em outros estados da nação, com indicadores mais graves, porém, há de ser ressaltado, que a regra é a autonomia de cada ente federativo, intervir é ato de exceção.
O Decreto transferiu o controle das políticas do sistema de segurança pública do Rio de Janeiro para o General do Exército Walter Souza Braga Netto. As forças armadas, representadas pelo exército e todo seu aparato bélico, começaram a atuar nas ruas do estado do Rio de Janeiro. Tanques de guerra passeiam pelas ruas da cidade.
A repercussão causada pela intervenção federal ultrapassou as fronteiras nacionais, como exemplo incorre a manifestação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, juntamente com o Escritório para a América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (2018),
Os organismos observaram que o decreto nº. 9288, assinado em 16 de fevereiro e aprovado pelo Congresso Nacional, confere uma ampla autoridade às forças armadas para reestabelecer a ordem e coloca as forças policiais sob o comando de um general do exército.
Tal manifesto demonstrou preocupação com o alcance, a execução e condições que justificaram a intervenção federal, temendo por graves violações dos direitos humanos, rememorando que o exército não é preparado para atender demandas internas,
[...] os Estados devem limitar ao máximo o uso das forças armadas para o controle de distúrbios internos, uma vez que o treinamento que recebem está dirigido a derrotar militarmente um inimigo, não à proteção e controle de civis. (CIDH; ACNUDH, 2018, grifo nosso).
O Ministério Público Federal (BRASIL, 2018) também demonstrou preocupação com o decreto interventivo e com a possibilidade de violações aos direitos humanos, explicitando repúdio à possibilidade de o interventor requerer medidas teratológicas, tendo por exemplo a intenção de requerer judicialmente a expedição de mandados coletivos de busca, apreensão e captura.
Tal procedimento é ilegal, uma vez que o Código de Processo Penal determina a quem deve se dirigir a ordem judicial. Mandados em branco, conferindo salvo conduto para prender, apreender e ingressar em domicílios, atentam contra inúmeras
garantias individuais, tais como a proibição de violação da intimidade, do domicílio, bem como do dever de fundamentação das decisões judiciais.
Por outro lado, a expedição de ordens judiciais genéricas, destinadas a serem cumpridas contra moradores de determinadas áreas da cidade, importa em ato discriminatório, violando o disposto no artigo 5º, inciso I, da Constituição Federal. Isso porque faz supor que há uma categoria de sujeitos “naturalmente” perigosos e/ou suspeitos, em razão de sua condição econômica e do lugar onde moram (BRASIL, 2018, grifo nosso).
O Ministério Público Federal realçou, ainda, que em ambiente interno a guerra deve ser rechaçada. “Guerra se declara ao inimigo externo. No âmbito interno, o Estado não tem amigos ou inimigos. Combate o crime dentro dos marcos constitucionais e legais que lhe são impostos” (BRASIL, 2018).
Nesse ambiente de militarização do cotidiano de parte da população fluminense, muito se discutiu sobre as reais intenções, os critérios utilizados e possíveis consequências com o advento da intervenção, revelando-se pertinente a realização de uma análise do mote sob à óptica do Direito Penal do Inimigo.
5 A INTERVENÇÃO FEDERAL NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO SOB À ÓPTICA DO DIREITO PENAL DO INIMIGO
O estado fluminense, principalmente em sua capital, é tido como um dos cartões postais do Brasil. Uma ação dessas proporções ocorrendo no Rio de Janeiro chama mais atenção do que se viesse a ocorrer no Amapá ou no Acre, estados com índices mais alarmantes de indicadores da segurança pública. O Rio de Janeiro “está diariamente no jornal”. Dessa forma, a ocorrência de uma intervenção federal pode se coadunar ao discurso político publicitário legitimador de um Direito Penal do inimigo. No Rio de Janeiro a repercussão é maior, aumentando assim a popularidade política daquele que apoia a intervenção.
Como o Estado enfraquecido dos países levam a pior na globalização não pode resolver os sérios problemas sociais, seus políticos optam por fingir que os resolvem ou que sabem como fazê-lo, tornam-se maneiristas afetados, a política passa a ser um espetáculo e o próprio Estado se converte num espetáculo. Os políticos – presos na essência competitiva de sua atividade – deixam de buscar o melhor para preocupar-se apenas com o que pode ser transmitido de melhor e aumentar sua clientela eleitoral. (ZAFFARONI, 2007, p. 76-77, grifo do autor)
As afirmações de Zaffaroni se coadunam com a realidade brasileira, os governantes não solucionam as demandas básicas da população e utilizam-se do punitivismo para mostrarem serviço de uma forma rápida. Conforme afirma Albrecht,
[...] no campo político, a valorização da intervenção da justiça penal atua como mecanismo de encobrimento e ocultação das contradições do sistema, dado que viabiliza a personalização dos problemas sociais, em detrimento de uma imputação política. Esquiva-se de uma intervenção político-estrutural, transladando a discussão para aspectos acessórios de forma a desviá-la da essência do problema (2000 apud em WERMUTH, 2011, p. 14, grifo do autor).
Outras alternativas deveriam ser consideradas antes de uma intervenção federal que militariza o cotidiano das pessoas. O Estado deve aproximar-se do cidadão, primeiramente, por meio de boas escolas, estrutura de saúde básica, saneamento e políticas públicas, fornecendo meios para o real exercício da cidadania. Os braços armados estatais só devem influir no cotidiano das pessoas de forma postrema.
Nesta monta, a medida de uma intervenção federal no Rio de Janeiro se mostra mais como medida de aumento de popularidade política, do que uma ação realmente planejada, com o intuito de melhorar a segurança pública, as motivações do Decreto carecem de critérios técnicos.
O discurso político se apodera do medo da população, mascarando a legitimidade de uma intervenção federal, a qual, devido a sensação de insegurança, tende a ser apoiada num primeiro momento, mas num longo prazo poderão apresentar efeitos contraproducentes.