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Enquadramento do design

2.2 Deficiência visual

Invisual – pessoa com deficiência visual ou que não tem visão plena. “adj. indivíduo que não vê; cego n.m. pessoa privada do sentido da visão” (Dicionário da Língua Portuguesa, 2013, pp. 329, 925).

A nomenclatura (Invisual) foi substituída por “Pessoa com deficiência visual” ou “Cego”, que serão assim utilizadas no decorrer da presente investigação.

Cegueira – “Podemos considerar uma pessoa cega como sendo aquela que não possui potencial visual, mas que pode, por vezes, ter uma perceção da luminosidade.” (ACAPO, 2013)

Normovisual – indivíduo que vê, que tem visão plena, nomenclatura utilizada por associações como a ACAPO e a CIF-OMS.

No âmbito deste estudo serão utilizadas as nomenclaturas acima apresentadas, adotando-se o termo ‘pessoa com deficiência visual’ e normovisual, por ser a nomenclatura utilizada pela ACAPO, na designação de pessoas cegas, amblíopes ou com visão ‘plena’.

Em entrevista a Colwell35 (2012) este afirma que:

“É um erro comum referirmo-nos a uma pessoa que não vê como cego, ceguinho, invisual ou deficiente, mais ainda pensar que as pessoas com deficiência visual são ‘coitadinhos’, incapazes de realizar trabalho

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integrado na sociedade ou de levar uma vida independente. A sociedade tende a ‘excluir ou marginalizar’ as pessoas com qualquer tipo de deficiência ou limitação, segundo parâmetros de normalização pré-definidos pela mesma. Assim e segundo estes ‘parâmetros normalizados’, uma pessoa com deficiência visual não sabe deslocar-se sozinha, pelo que não o deve fazer, deve ser limitado aos trabalhos de secretariado, adotando todo e qualquer acessório ou técnica que lhe permita uma ‘vida normal’, reduzindo também as limitações apresentadas diariamente”.

Têm vindo a surgir ao longo dos tempos técnicas e acessórios que vieram possibilitar ao indivíduo com deficiência visual um maior controlo e independência no dia-a-dia das suas vidas, são estes, entre muitos outros, o Braille, os sensores de voz, a internet e a nível de mobilidade a bengala, o cão guia e alguns aparelhos que estimulam os sentidos da audição e tato, por exemplo.

De acordo com a ACAPO e a legislação presente e em vigor em Portugal, decreto-lei 123/97, relativamente à acessibilidade, espaço físico, acesso ao ensino e função pública, é-nos relatado:

“O imperativo da progressiva eliminação das barreiras, designadamente urbanísticas e arquitetónicas, que permita às pessoas com mobilidade reduzida o acesso a todos os sistemas e serviços da comunidade, criando condições para o exercício efetivo de uma cidadania plena, decorre de diversos preceitos da Constituição, quando proclama, designadamente, o princípio da igualdade, o direito à qualidade de vida, à educação, à cultura e ciência e à fruição e criação cultural e, em especial, quando consagra os direitos dos cidadãos com deficiência.” (Normas Técnicas sobre a Acessibilidade, DL 123/97, 22 de maio 1997, Lisboa)

Existem também entidades, tais como associações e escolas, entre outras, que reconhecem os direitos dos indivíduos com deficiência, promovendo a integração dos mesmos no mercado de trabalho e escolas.

Nas escolas são admitidos professores especializados para o ensino inclusivo ou é dado algum tipo de formação neste campo a professores colocados, de forma a melhor ‘guiarem’ os alunos no decorrer do ano letivo; são também disponibilizados alguns manuais em Braille como auxiliares no decorrer do percurso académico dos alunos com deficiência visual.

Como forma de minimizar custos surgiram escolas de referência, com o foco do ensino especial numa só escola, aproveitando os apoios existentes. Ao limitar as escolas de referência a uma escola por conselho, obrigavam a criança e família a deslocações dispendiosas, o que promovia um nível de desistência bastante elevado e

79 obrigava os pais a recorrerem ao ensino domiciliário. As escolas com ensino integrado, segundo Colwell (2012), ou escolas inclusivas, mais recentes, são melhores para as crianças com deficiência visual, pois para além de manterem os níveis de exigência requeridos, ainda providenciam às crianças o contacto com pessoas ‘diferentes’, ensinando desta forma que não somos todos iguais e que a deficiência não deve ser um impedimento para a procura e aprendizagem da independência, socialização e valores que muito nos serão úteis no futuro. Possibilita ainda a integração social da criança ou individuo com deficiência.

“(…) traduz-se pela redução da distância social existente entre um grupo de crianças deficientes e um grupo de crianças normais (normovisuais). A aproximação dos dois grupos traduz-se pela aceitação mútua e sentimento de pertença natural a um mesmo grupo. Para além desta integração social no espaço escolar, é também considerada a capacidade de integração na família e na comunidade.” (Söder, 1980 apud Dias, 1995, p. VIII)

A informática apesar de inicialmente ser considerada um mundo à parte para as pessoas com deficiência visual, veio possibilitar soluções e abrir novas portas. Acessórios como leitores de ecrã, sensores de voz e impressão em Braille permitem uma leitura de jornais de notícias e livros que de outra forma não estariam tão disponíveis para este público específico.

É frequente referirmo-nos à internet como uma janela para o mundo. Para as pessoas com deficiência visual é mais do que uma janela, torna-se a porta de luz que permite o conhecimento, troca de informações e valores, novas experiências, viagens e sonhos, que talvez nunca pensassem possível.

Deverá então ser focada a atenção do público para uma maior inclusão na sociedade, preocupação com o bem-estar e segurança quer na rede pública quer em ambiente privado, promovendo uma melhor aceitação e compreensão do estatuto de uma pessoa com deficiência visual.

Ainda relativo à experiência adquirida por Colwell (2012), enquanto Técnico de Acessibilidades da delegação de Lisboa da ACAPO, com uma experiência de mais de 20 anos na área e trabalhando diariamente com indivíduos com deficiência visual, surgem alguns ‘grupos de risco’, ou grupos mais afetados de entre as pessoas com deficiência visual. Apercebemo-nos que os idosos são os mais afetados no que se refere ao abandono e limitação ou decréscimo de qualidade de vida, quando a

80 cegueira os atinge já em idade avançada. As pessoas têm tendência a desistir daquilo que lhes cria transtorno na vida e para que seja possível tratar de uma pessoa que chega a um nível mais avançado na vida é preciso um rearranjar e repensar prioridades que anteriormente não estavam contempladas. Quando isto acontece e se torna difícil, ou a pessoa que está a nosso cuidado requer mais do que podemos dar, as soluções mais frequentes são: o lar, casas de acolhimento, centros de dia ou por vezes uma enfermeira particular. Esta situação torna-se praticamente insustentável, para a maioria, quando a pessoa em questão tem alguma limitação visual. Este é, na sua maior parte das vezes, o fator determinante para um final triste e solitário, onde a alegria e a vontade de viver por norma desaparecem.

Esquecemo-nos que é quando surgem as limitações provocadas pela idade, acidente ou deficiência, quer temporárias ou permanentes, que as pessoas mais precisam de acompanhamento, especialmente se a perda de visão é fruto da idade avançada ou de alguma doença que impede o bom funcionamento de um antigo emprego, ou simplesmente as atividades diárias. Mais alarmante é o facto de esta situação ser presente nos dias de hoje, não só com pessoas com deficiência visual, mas com qualquer tipo de deficiência física ou mental.

Enquanto sociedade, e cidadãos ativos na mesma, temos a responsabilidade de integrar todo e qualquer cidadão, apesar das suas dificuldades, limitações ou faixa etária. No entanto, esta situação de falta de acompanhamento para com o indivíduo deficiente é recorrente abrangendo o campo social, laboral e pessoal.

Existem algumas associações de apoio ao indivíduo com deficiência visual, tais como:

ABAADV (Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, com Escola de cães guia); ACAPO (Associação de Cegos e Ambliopes de Portugal); ACPDA (Associação do Cidadão Portador de Deficiência e Amigos); ANDDVIS (Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais); APD (Associação Portuguesa de Deficientes); APEC (Associação Promotora do Ensino dos Cegos); APEDV (Associação Promotora do Emprego para Deficientes Visuais), entre muitas outras que se encontram espalhadas pelo país, que trabalham com o indivíduo com deficiência em idade adulta. Sendo a ACAPO uma das mais conhecidas e ativas junto de pessoas com deficiência visual, que fazem o acompanhamento e ensino de técnicas e capacidades que permitem a estas pessoas continuarem com a sua vida o

81 mais confortavelmente possível e cria ainda a ponte entre o design e a inclusão (design inclusivo), bem como trabalhos relacionados com o cidadão com deficiência.

Estas associações queixam-se, no entanto, da falta de informação que passa para quem acompanha as pessoas nesta situação de transição delicada de vida ativa para incapacidade de executar determinadas tarefas, ou da falta de interesse e procura de meios mais fáceis e menos consumidores de tempo, que os faz escolher um qualquer lar, para aí depositar aquele que em tempos não lhe deu trabalho.

Segundo nos relata Colwell (2012), um indivíduo que nasça com deficiência visual, tem “o trajeto de vida mais facilitado”, pois está à partida preparado para enfrentar a vida, a sociedade e todos os obstáculos que daí advenham, do que para alguém que perde a visão total ou parcialmente, ou se encontra em processo de cegueira e tem de adaptar toda a sua vida para a sua nova condição. Nestes casos, torna-se fundamental que a pessoa em questão não perca as atividades que costumava ter durante o tempo em que era normovisual, para que não se torne completamente dependente de alguém, o que por norma acaba por acontecer.