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Os sentidos do ser humano

Enquadramento do design

3.1 Os sentidos do ser humano

Os sentidos correspondem a cada um dos órgãos através dos quais é possível experimentar sensações, sendo os sentidos principais do corpo humano o sentido visual, o auditivo, o tátil, o gustativo e o olfativo. Na terapia Snoezelen são ainda trabalhados o sentido vestibular e o propriocetivo que tratam respetivamente do equilíbrio e da noção do corpo com o meio envolvente. São os sentidos e suas funções que propiciam ao corpo humano um relacionamento com o ambiente envolvente, contribuindo para a integração com os espaços em que vivemos.

“Os fatores ambientais interagem com as funções do corpo, como por exemplo, a qualidade do ar e a respiração, a luz e a visão, os sons e a audição, estímulos que distraem e a atenção, textura do pavimento e o equilíbrio, a temperatura do ambiente e a regulação da temperatura do corpo.” (CIF_OMS, 2004, p. 16)

É através dos sentidos que as informações são percecionadas, após o seu devido registo e interpretação das mesmas. O homem serve-se da estimulação dos seus órgãos recetores para obter informações sobre o meio envolvente, são esses estímulos: visuais, auditivos, táteis (através da pressão), gustativos, olfativos, todos eles fazendo parte dos sentidos, e ainda estímulos de calor e frio (temperatura), cinéticos (musculares), interiores, etc., Guerreiro48 (2012). A interação entre os estímulos e o homem e, a forma como estes incidem sobre os sentidos predispõem diferentes perceções ao utilizador, que este interpreta consoante aquilo que sente e assim age em função do que os sentidos lhe indicam. Esta conjugação e interação dos

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Professor Doutor Augusto Deodato Guerreiro – Doutor em Ciências da Comunicação, Especialidade Comunicação e Cultura, pela Universidade Nova de Lisboa; Professor titular de «Teorias e Modelos da Comunicação», «Semiótica», «Organização e Sistemas de Informação» e «Teorias e Modelos de Análise da Comunicação» no Departamento de Ciências da Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. Consultar Apêndice 2

97 sentidos são da responsabilidade do sistema nervoso e dos respectivos córtex, figura 7.

Fig. 7: Sentidos e respetivos Córtex, imagem de Forbrain Snoezelen Room.

Acerca do assunto, escreve Saerberg (2010) sobre a interpretação de Merleau-Ponty (1962: 222-5) de uma experiência de von Senden (1960) em que pessoas com deficiência visual de nascença eram submetidas a uma cirurgia corretiva que lhes devolvia a visão:

“(…) there is never any question of a deficit in a particular bodily constitution of a sensed world. Not a single sense is missing when one sense is ‘missing’. It’s just that the whole is composed of a different mixture of senses. For the blind people, for example, touching is a different path to the world before the operation than it is after the operation. It’s not only that every sense has its world; every world has its sense and is constituted through a particular combination of senses.” (Saerberg, 2010, p. 369)49

49 T.L.: “(…) nunca existe nenhum défice numa particular constituição corporal num mundo de sentidos.

Nem um único sentido está em falta quando uma pessoa ‘não tem’ um dos sentidos. A única diferença é que a sua totalidade (constituição corporal sensorial) é composta por uma diferente mistura de sentidos. Para as pessoas cegas, por exemplo, o tocar é um ‘caminho’ diferente para o mundo antes da operação

98 Consideramos que a aprendizagem e valorização deste ‘código sensorial’ possa ser uma das respostas para melhor produzirmos um design inclusivo, que, pensado para todos, não crie barreiras nem distanciamento para pessoas com deficiência ou algum tipo de limitação. Ainda acerca da importância sensorial, Saerberg (2010) acrescenta:

“The sociology and anthropology of the senses (…) point to the different sensory ways in which cultures form their stock of knowledge about the world and promoting an appreciation for these ways may help sighted people generally to become more open to tactile, acoustic, sensimotor, olfactory, and gustatory based knowledge to interpret their world and to express themselves towards their others.” (Saerberg, 2010, p.379)50

Saerberg (2010) defende uma inclusão, pelo meio da aprendizagem dos dois mundos (visual e ‘não visual’) numa tentativa de melhor auxiliar os sujeitos que nele habitam diariamente. O autor defende não só a inclusão, mas também uma educação de sentidos, especialmente os sentidos não visuais, acreditando que este seja o caminho para um melhor entendimento entre cegos e normovisuais.

Saerberg (2010) retrata também a forma como os cegos interpretam os diferentes sentidos e a sua importância na orientação e deslocação, por exemplo. Cytowic (2002), por seu lado, relata a experiência de Sacks (1995, apud Cytowic, 2002) ocorrida após a restituição do sentido da visão a um indivíduo que até então era portador de deficiência visual total, e como este ainda recorria ao tato para identificar os objetos que lhe eram mostrados.

O seguinte excerto de um exercício de fenomenologia da perceção e orientação espacial, realizado por Saerberg (2010), foi realizado com o intuito de atribuir experiências-base à consciência daquilo que o rodeia. A descrição que se segue explana de forma clara como uma pessoa cega consegue absorver toda a informação que o circunda, criando desta forma um mapa mental de onde se encontra. Arriscamos dizer que após a sua leitura até nós, normovisuais, ficamos com uma

do que depois da mesma (referindo-se ao estudo realizado por von Senden 1960, acerca de pessoas cegas de nascença que se submetiam a operação que lhes providenciava o sentido da visão). Não é só o facto que cada sentido tem o seu próprio mundo, mas que cada mundo tem o seu sentido e constituído por uma particular combinação de sentidos.”

50 T.L. “A sociologia e antropologia dos sentidos (…) apontam para os diferentes ‘métodos’ sensoriais nos

quais as culturas formam o seu conhecimento acerca do mundo, e promovendo estes métodos pode ajudar as pessoas normovisuais no geral a tornarem-se mais abertas ao uso e conhecimento táctil, acústico, sensormotor, olfativo, e gustativo na interpretação do mundo e na sua própria expressão para com outros.”

99 ‘imagem mental’ daquilo que a pessoa com deficiência visual está a relatar como experiência de perceção espacial.

“I’m standing in the house. Here it’s quite quiet. Windows and doors are closed. The refrigerator is buzzing to my left, a clock is ticking at the diagonal left behind me behind me and a fly is buzzing in front of me. I am in a room without echoes. The ceiling is close above me. I feel kind of enclosed, coddled? I move forward in direction of the outside. To the door of the balcony. I open it. Immediately I hear the sound of an aeroplane that buzzes in a very far distance. I hear birds twittering in front of me, from the diagonal left. Outside it is warmer… The sound of the landscape, it does not fill out the whole 360 degrees, only approximately 100 degrees. And it is not filled continuously with sounds, instead it has gaps. Behind me, the other half of the field of sound, the house, dumb, still with its warm absorbing wooden wall. I turn around, the soundscape moves with my motions, I touch the wall, careful, silk and splints. I turn around, start to walk holding the balustrade. It is painted, lacquered, warm from the sun.” (Saerberg, 2010, p. 366)51

Esta ‘representação’ do mundo ‘visto’ por uma pessoa com deficiência visual transporta-nos para o local em que este se encontrava no momento em que a fez, como acontece quando lemos uma história com elementos descritivos, ou quando nos é descrito determinado local. A nossa perceção visual forma de imediato imagens mentais que nos guiam ao longo do percurso narrado. Para uma pessoa com deficiência visual o mundo está cheio de sinais, ou como nos diz o autor “orientation cues”52 para os cegos. Não tendo forma de ‘absorver’ a maioria destes indícios dos

quais nós normovisuais dependemos para a nossa orientação, tais como sinais de trânsito, placas toponímicas, sinalética, entre outros: “Eu, como pessoa cega, tenho de depender de outros métodos de orientação baseados nas sensações.” (Saerberg, 2010, p.366)53

Os diferentes sentidos possibilitam experiências distintas aos seus utilizadores. Ao analisarmos um espaço usamos todas as informações sensoriais que

51 T.L.: “Eu estou de pé dentro da casa. Isto aqui é bastante calmo. As janelas e portas estão fechadas. O

frigorífico faz um zumbido à minha esquerda, um relógio faz tique taque numa diagonal posterior à minha esquerda e uma mosca está a zumbir à minha frente. Estou num quarto sem ecos. O teto está perto acima de mim. Sinto-me um pouco enclausurado, acarinhado? Mexo-me em direção ao exterior. Para a porta da varanda. Abro-a. Imediatamente ouço o som de um avião que zumbe a uma grande distância. Ouço o piar de pássaros à minha frente, numa diagonal à minha esquerda. No exterior está mais quente… O som da paisagem, não preenche 360º à minha volta, apenas aproximadamente 100º. E não é preenchido continuamente por sons, em vez disso existem grandes falhas. Atrás de mim, a outra metade do campo de som, a casa, silenciosa, quieta com as suas paredes de madeira que absorvem o calor. Volto-me ao contrário, o campo sonoro mexe-se com os meus movimentos, toco na parede, cuidadosamente, seda e lascas. Volto-me novamente, e começo a andar apoiando-me na balaustrada. Está pintada, lacada, aquecida pelo sol.”

52 T.L.: “Pistas de orientação” 53

100 este nos providencia e quando as combinamos com as nossas memórias já adquiridas conseguimos interpretar o ambiente em que nos encontramos. Os sentidos apoiam-se na perceção cognitiva do que os rodeia, construindo mapas mentais e cognitivos, baseando-se para tal na informação sensorial e experiências vividas anteriormente. O mapa mental surge de diferentes formas não sendo construído apenas com a reação a diferentes estímulos dos sentidos, mas dependendo de livre interpretação dos mesmos, segundo experiências pré-adquiridas. Diferentes mapas cognitivos permitem uma apreensão do espaço de forma distinta, dependendo dos sentidos em que os utilizadores do espaço se baseiam para navegar neste. Estas diferenças são notórias inclusive na experimentação da volumetria do espaço.

“The blind man’s world differs from the normal person’s not only through the quantity of material at his disposal, but also through the structure of the whole.” (Merleau-Ponty, 1962, p.224, apud Saerberg 2010, p. 369)54