Depois da Nação-estado, o quê?

No documento Globalização: As consequências humanas (páginas 52-55)

“Numa geração anterior, a política social baseava-se na crença de que as nações, e dentro delas as cidades, podiam controlar suas riquezas; agora, abre-se uma divisão entre Estado e economia”, observa Richard Sennett.1

Com a velocidade geral de movimento ganhando impulso — com a

“compressão” de tempo/espaço enquanto tais, como assinala David Harvey

— alguns objetos movem-se mais rápido que outros. “A economia” — o capital, que significa dinheiro e outros recursos necessários para fazer as coisas, para fazer mais dinheiro e mais coisas — move-se rápido; rápido o bastante para se manter permanentemente um passo adiante de qualquer Estado (territorial, como sempre) que possa tentar conter e redirecionar suas viagens. Neste caso, pelo menos, a redução do tempo de viagem a zero produz uma nova qualidade: uma total aniquilação das restrições espaciais, ou melhor, a total “superação da gravidade”. O que quer que se mova a uma velocidade aproximada à do sinal eletrônico é praticamente livre de restrições relacionadas ao território de onde partiu, ao qual se dirige ou que atravessa.

Um recente comentário de Martin Woollacott capta bem as consequências dessa emancipação:

O conglomerado sueco-suíço Asea Brown Boveri anunciou que reduziria sua força de trabalho na Europa ocidental em 57.000 pessoas e criaria mais empregos na Ásia. A Electrolux, em seguida, anunciou que reduzirá a sua força de trabalho global em 11 por cento, sobretudo na Europa e na América do Norte. A Pilkington Glass também anunciou cortes significativos. Em apenas dez dias, três empresas europeias cortaram empregos em escala suficiente para se equiparar aos números mencionados nas propostas dos novos governos francês e britânico para criação de empregos …

Sabe-se que a Alemanha perdeu 1 milhão de empregos em cinco anos e que suas empresas estão ocupadas construindo fábricas na Europa oriental, na Ásia e na América Latina. Se a indústria europeia ocidental está se mudando maciçamente para fora da Europa ocidental, então todos esses argumentos sobre a melhor política governamental face ao desemprego têm que ser vistos como de importância limitada.2

Fazer o balanço do que outrora parecia o cenário indispensável de todo o pensamento econômico — a Nationalökonomie — está se tornando cada vez mais uma ficção contábil. Como assinala Vincent Cable no seu recente folheto Demos, “já não é mais óbvio definir o Banco Midland ou o ICL como britânicos (ou, aliás, empresas como a British Petroleum, a British Airways, a British Gas ou a British Telecom)… Num mundo em que o capital não tem domicílio fixo e os fluxos financeiros estão bem além do controle dos governos nacionais, muitas das alavancas da política econômica não mais funcionam.”3 E Alberto Melucci diz que a influência crescente das organizações supranacionais — “planetárias” — “teve por efeito acelerar a exclusão das áreas fracas e criar novos canais para a alocação de recursos, retirados, pelo menos em parte, ao controle dos vários Estados nacionais”.4

Nas palavras de G.H. von Wright, a “nação-estado parece que se está desgastando ou talvez ‘definhando’. As forças erosivas são transnacionais.”

Uma vez que as nações-estados continuam sendo as únicas estruturas para um balanço e as únicas fontes de iniciativa política efetiva, a

“transnacionalidade” das forças erosivas coloca-as fora do reino da ação deliberada, proposital e potencialmente racional. Como tudo o que elide essa ação, tais forças, suas formas e ações são ofuscadas na névoa do mistério; são objetos de adivinhação e não de análise confiável. Como coloca Wright,

As forças modeladoras do caráter transnacional são em boa parte anônimas e portanto difíceis de identificar. Não formam um sistema ou ordem unificados. São um aglomerado de sistemas manipulados por atores em grande parte “invisíveis” … [Não há] unidade ou coordenação proposital das forças em questão … [O] “mercado” não é tanto uma interação de barganha de forças competidoras quanto pressões de demandas manipuladas, artificialmente criadas, e desejo de lucro rápido.5

Tudo isso cerca o processo em curso de “definhamento” das nações-estados de uma aura de catástrofe natural. Suas causas não são plenamente compreendidas; ele não pode ser previsto com exatidão mesmo que as causas sejam conhecidas; e com certeza não pode ser evitado, mesmo que previsto. A sensação de incômodo, uma reação que era de esperar numa situação sem alavancas de controle óbvias, foi captada de maneira clara e incisiva no título do livro de Kenneth Jowitt — A nova desordem mundial.

Ao longo de toda a era moderna nos acostumamos com a ideia de que a ordem é equivalente a “estar no controle”. É dessa suposição — quer bem

fundada ou meramente ilusória — de “estar no controle” que mais sentimos falta.

A “nova desordem mundial” dos dias de hoje não pode ser explicada meramente pela circunstância que constitui a razão mais óbvia e imediata da sensação de pasmo e perplexidade: a saber, a confusão de “dia seguinte”

produzida pelo fim abrupto do Grande Cisma e o súbito colapso da rotina política dos blocos de poder — mesmo que tenha sido esse colapso que deu o alerta da “nova desordem”. A imagem da desordem global reflete, antes, a nova consciência (facilitada mas não necessariamente causada pela morte súbita da política de blocos) da natureza essencialmente elementar e contingente das coisas que anteriormente pareciam tão firmemente controladas ou pelo menos “tecnicamente controláveis”.

Antes do colapso do bloco comunista, a natureza contingente, errática e volúvel do estado de coisas global não era tão inexistente assim, mas retirada de foco pela reprodução diária do equilíbrio entre as potências mundiais, que consumia todas as energias e pensamentos. Dividindo o mundo, a política de poder produzia a imagem da totalidade. Nosso mundo comum tornava-se total com a atribuição a cada canto ou buraco do planeta de uma importância na “ordem global das coisas” — isto é, no conflito entre os dois campos de poder e no equilíbrio meticulosamente preservado mas sempre precário. O mundo era uma totalidade na medida em que nada havia nele que pudesse escapar a uma importância nessa ordem de coisas, de modo que nada podia ser indiferente do ponto de vista do equilíbrio entre as duas potências que se apropriavam de uma parte considerável do mundo e lançavam o resto na sombra dessa apropriação. Tudo no mundo tinha um significado e esse significado emanava de um centro dividido mas único — dos dois enormes blocos de poder presos e colados um ao outro em combate total. Com o Grande Cisma fora do caminho, o mundo não parece mais uma totalidade e, sim, um campo de forças dispersas e díspares, que se reúnem em pontos difíceis de prever e ganham impulso sem que ninguém saiba realmente como pará-las.

Em poucas palavras: ninguém parece estar no controle agora. Pior ainda

— não está claro o que seria, nas circunstâncias atuais, “ter o controle”.

Como antes, todas as iniciativas e ações de ordenação são locais e orientadas para questões específicas; mas não há mais uma localidade com arrogância bastante para falar em nome da humanidade como um todo ou para ser ouvida e obedecida pela humanidade ao se pronunciar. Nem há

uma questão única que possa captar e teleguiar a totalidade dos assuntos mundiais e impor a concordância global.

No documento Globalização: As consequências humanas (páginas 52-55)