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3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

4.3 DESAFIOS PRÁTICOS PARA A IMPLEMENTAÇÃO DAS CPS

Em conformidade com os autores referenciados nesta pesquisa, foram identificados os obstáculos ou barreiras para a implementação das CPS, dentre elas: estrutural/gerencial; informacional; financeira/econômica; jurídica/legal; política; cultural; qualidade do produto, as quais foram consideradas, para fins desta pesquisa, como desafios para a implementação das CPS.

Diante disso, esta pesquisadora buscou saber como se estabelecem os desafios na implementação das CPS na percepção do corpo técnico envolvido com as compras públicas no âmbito de uma instituição pública federal.

Em complemento à observação direta e à análise documental realizadas nos processos licitatórios instaurados pelo IFNMG – Campus Montes Claros, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com servidores que atuam direta ou indiretamente nas compras públicas do órgão, com a finalidade de conhecer a percepção dos atores envolvidos no processo de compras públicas, valorizar sua experiência e identificar práticas e desafios enfrentados no cotidiano para implementação das CPS que possam estimular ou dificultar a plena execução das compras sustentáveis.

Destaca-se que todos os servidores que participaram da entrevista trabalham na instituição há mais de 5 anos e apenas 2 possuem menos de 5 anos de experiência profissional na área de licitações, desempenhando atividades de compras e contratações públicas.

Apesar de as compras sustentáveis realizadas pelo IFNMG – Campus Montes Claros, segundo dados do Painel de Compras do Governo (MPOG, 2016c), terem representado apenas 0,92% dos itens classificados como sustentáveis, constatou-se da análise dos processos que as compras públicas realizadas pela unidade adotaram critérios sustentáveis, apesar de não ter sido utilizado, na maioria das vezes, um código de item sustentável do CATMAT ou do CATSER, quando do cadastro da licitação no sistema de Compras Governamentais.

Na visão desta pesquisadora e de acordo com os relatos dos entrevistados, foi possível perceber que existe uma complexidade de fatores que envolvem a implementação das CPS, tais como: leis, decretos, regulamentos, instruções normativas, diferentes atores sociais envolvidos (Poder Público, empresas/fornecedores, agentes ou servidores públicos, gestores públicos, órgãos de controle etc.), que dificultam a aplicabilidade prática dos procedimentos de inserção de critérios sustentáveis nas compras públicas.

Através da pesquisa de campo foi possível perceber que o maior entrave para a implementação das CPS é a dificuldade de se obter uma correta especificação sustentável, o que demanda um maior esforço para o alcance do objetivo dessa implementação. Conforme apontado pelo Entrevistado 1, é difícil para o servidor que atua no setor de compras e na fiscalização, ter conhecimento acerca da necessidade de exigência de critérios sustentáveis, em função da diversidade de demandas ou gama de produtos e serviços contratados pelo governo. Além disso, as próprias especificações constantes do CATMAT e do CATSER são muito brandas, e apesar de ter uma infinidade de itens cadastrados nos catálogos, a quantidade de itens com especificação sustentável é ínfima.

Dessa forma, constatou-se que os entrevistados não são unânimes quanto aos desafios ou entraves para a implementação das CPS. O gráfico 15 a seguir apresenta os principais desafios na visão dos entrevistados:

 Dificuldade na especificação técnica acerca dos critérios de sustentabilidade dos produtos;

 Falta de conhecimento e de qualificação da equipe;

 Falta de acompanhamento e fiscalização eficiente da execução contratual;

 Falta de envolvimento ou de familiaridade dos servidores para as questões sustentáveis;

 Falta de uma política interna ou diretriz institucional voltada para a sustentabilidade.

Gráfico 15 – Desafios para a implementação das CPS

Fonte: Elaboração própria com base nos relatos dos entrevistados (2017).

Os entrevistados também apresentaram opiniões diversas quanto aos fatores negativos que limitam a implementação das CPS conforme o Gráfico 16, os quais, em sua maioria, estão muito relacionados aos fatores internos da instituição e inerentes ao setor público. Dentre eles estão:

 Dificuldade de encontrar no mercado, fornecedores de produtos e serviços sustentáveis;

 Falta de uma cultura organizacional voltada para a sustentabilidade;  Rotatividade de servidores no setor de compras e contratações públicas;  Dificuldade de comprovar o atendimento às exigências sustentáveis;  Inexistência de um cadastro de fornecedores sustentáveis.

Gráfico 16 – Fatores negativos para a implementação das CPS

Fonte: Elaboração própria com base nos relatos dos entrevistados (2017).

Na visão dos entrevistados, essas barreiras podem ser superadas através de ações relativas à conscientização de servidores acerca da importância da preservação de recursos naturais, da preocupação com o desenvolvimento sustentável e da redução de desperdícios, de forma que o solicitante tenha maior comprometimento em priorizar compras incluindo critérios de sustentabilidade nas especificações técnicas. Também mencionaram a conscientização dos compradores para a necessidade de uma prévia e efetiva pesquisa dos critérios sustentáveis para os produtos e serviços a serem adquiridos em conjunto com o requisitante; conscientização de fornecedores (Entrevistado 2); instauração de uma mudança de cultura para a sustentabilidade (Entrevistado 3 e 5), bem como o estabelecimento de uma cota mínima, prevista em lei, para aquisição de produtos sustentáveis, quando das licitações públicas (Entrevistado 3).

Grande parte dos entrevistados associaram a questão da necessidade de uma correta “especificação técnica sustentável” e de “capacitação da equipe” como os maiores desafios para a implementação das CPS e foram unânimes em ressaltar o trabalho de conscientização e sensibilização realizado pelo Campus através do PES, no que se refere ao consumo sustentável, por meio da afixação de adesivos e cartazes de conscientização acerca da

necessidade de racionalização de água, energia elétrica, copos descartáveis, recursos naturais etc.

Além da necessidade de capacitação, bem como de conscientização e sensibilização do corpo técnico, exige-se uma nova postura e envolvimento de cada integrante do processo de compras, que possa intervir de forma positiva na preservação dos recursos naturais, quando da contratação de produtos e serviços sustentáveis, seja na condição de gestor de recursos públicos, solicitante, comprador público, fornecedor ou fiscal administrativo ligado às questões de sustentabilidade socioambiental.

Destarte, corroborando com o disposto por Biderman et al. (2006), “nas mãos de autoridades públicas, a licitação sustentável é um poderoso instrumento para a proteção ambiental”. Todavia, percebe-se que não basta apenas a conscientização ambiental. Essa sensibilização deve estar associada à mudança de cultura e de comportamento, em que o governo deva dar exemplo de comprador atento às questões de sustentabilidade, estimulando a produção e o consumo sustentáveis, mudando consideravelmente a estrutura do mercado a curto e médio prazo.

Conforme informado pelo Entrevistado 4, “a escola é um grande irradiador de conceitos sustentáveis” e como instituição pública e de ensino profissional e tecnológico, o IFNMG –

Campus Montes Claros deve dar exemplo de sustentabilidade, reforçando seu compromisso

de ensinar valores éticos e princípios morais para serem aplicados em favor da sociedade e do bem-estar de todos. Para o Entrevistado 4, essa conscientização ambiental trata-se de uma dinâmica mundial: “Pensar global, agir local”, e instiga uma mudança de mentalidade.

Segundo o Entrevistado 3, o comprometimento individual dos servidores pode ser apontado como um dos principais incentivadores da implementação das CPS na unidade.

Os Entrevistados 3 e 6 sugeriram o desenvolvimento de palestras, encontros e fóruns (presenciais e eletrônicos) para promover debates, comentários, opiniões sobre a sustentabilidade, possibilitar a troca de experiências e apontar questionamentos acerca do tema.

Foi observado ainda que uma das grandes dificuldades para implementar as CPS é o acesso a fornecedores que atuam no ramo de sustentabilidade. Considerando essa dificuldade, assim como foram disponibilizados o CATMAT e CATSER, deveria existir um catálogo contendo um rol de empresas que trabalham com produtos e serviços sustentáveis, em todas as áreas demandadas pelo governo, para consulta prévia dos órgãos públicos, quando da

realização de uma licitação sustentável, assim como foi disponibilizado o Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas (CEIS) do Portal da Transparência, que consolida uma relação de empresas e pessoas físicas que sofreram sanções administrativas. Sobre esse aspecto, Machado e Vieira Neto (2014)apresentam um posicionamento similar, apontando a inexistência de uma rede consistente de informações sobre o tema.

Na opinião desta pesquisadora, a criação de um catálogo de fornecedores (CATFOR) seria um grande avanço para as CPS, já que facilitaria na especificação do objeto e auxiliaria na análise da disponibilidade do produto ou serviço sustentável no mercado, servindo ainda como uma forma de incentivar a produção de itens sustentáveis. Durante a entrevista, o Entrevistado 4 sugeriu o estabelecimento de incentivos e benefícios fiscais para empresas, bem como para os órgãos públicos que envidarem esforços com vistas a estimular a produção sustentável e garantir a preservação ambiental.

Importante esclarecer que normalmente, a responsabilidade e cobrança acerca da implementação das CPS recai em sua maioria, aos compradores públicos (agentes públicos que operacionalizam as compras e contratações públicas como atividades-meio), ao passo que a inclusão desses critérios de sustentabilidade deveria ser exigida mais especificamente dos solicitantes ou demandantes de produtos e serviços, uma vez que, o setor de compras atua na operacionalização legal do processo licitatório, realizando a compra em conformidade com as especificações técnicas elaboradas e definidas pelo setor requisitante. Além disso, não existe um cargo público específico para atuação como comprador público ou pregoeiro, com uma adequada remuneração a esses profissionais, o que contribui para aumentar a rotatividade de servidores nos setores de compras e contratações públicas. Conforme apontado pela Esaf (2014) uma ideia pode ser a centralização das compras, com consequente redução do número de compradores públicos (pregoeiros), oferecendo maior remuneração e qualificação a esses agentes públicos, a fim de reter talentos e competências, criando um programa de excelência que certifique e valorize o servidor que atua nas compras governamentais, nos moldes adotados pela França desde 2007, e apresentado ao Brasil, por um representante do governo francês, durante o 2º Workshop Internacional de Experiência em Compras Governamentais.

Nesse aspecto, o Entrevistado 3 sugeriu, como incentivo à implementação das CPS, o estabelecimento de um ranking entre os campi, através de indicadores de desempenho para comparar, proporcionalmente, o consumo sustentável e a inclusão de critérios de sustentabilidade em seus processos licitatórios, classificando-os e premiando a unidade e a

equipe técnica responsável pelas compras sustentáveis, por conseguir transformar suas contratações em instrumentos de proteção ao meio ambiente.

O Poder Público deve, ainda, criar mecanismos para que a aplicação da legislação ambiental seja fiscalizada pelos órgãos competentes através de uma fiscalização mais efetiva na cadeia produtiva dos fornecedores, bem como na execução contratual, durante o recebimento do produto, reprimindo e punindo os infratores através de uma legislação mais rígida e de uma fiscalização mais eficiente.

Considerando a inviabilidade de a Administração Pública monitorar o processo produtivo dos fornecedores, a criação de um “selo sustentável” fiscalizado pelo INMETRO ou outro órgão competente, conforme apontado por Silva (2014) poderia possibilitar a identificação dos produtos sustentáveis e facilitar essa fiscalização do cumprimento de exigências sustentáveis previstas nas compras sustentáveis, como uma ferramenta de monitoramento e acompanhamento.

Em contrapartida, Machado e Vieira Neto (2014) e Cypreste (2013) apontam para a inexistência de indicadores econômicos seguros para avaliar quais produtos seriam economicamente viáveis para aquisição. Todavia, não foram identificados incentivos e pesquisas acerca dessa temática, a fim de verificar o que pode ser feito, de forma a assegurar a fiscalização da cadeia produtiva dos fornecedores e certificar a adoção de critérios sustentáveis durante o processo produtivo.

Cabe ao Poder Público pensar em benefícios e incentivos fiscais concretos a serem oferecidos aos fabricantes e produtores como forma de estimular a competição na indústria e incentivar a inovação para negócios sustentáveis, fomentando a busca de novas tecnologias e mecanismos sustentáveis, através de processos de produção mais limpa (P+L), conforme previsto por Dias (2011) como forma de o governo reafirmar o compromisso com o desenvolvimento nacional sustentável.

Todavia, não foram identificados, nas normas ou leis que regulamentam as compras públicas, incentivos e benefícios fiscais que fomentem projetos voltados para o desenvolvimento nacional sustentável e o estímulo às tecnologias sustentáveis. O governo tenta promover as compras sustentáveis, incluindo critérios sustentáveis que exigem a prioridade para produtos de origem local, dando preferência para as ME/EPP. Entretanto, a própria lei não incentiva a produção de itens sustentáveis, uma vez que, a produção mais limpa, a princípio, pode contribuir para o aumento dos custos com a produção, e

consequentemente, levar a um aumento do preço do produto sustentável em relação ao seu similar. Um dos entrevistados considera que tal procedimento “é no mínimo contraditório: a compra é sustentável, mas a instituição não se preocupa com o descarte adequado; a coleta é seletiva, mas o recolhimento não é; a compra é sustentável, mas a fiscalização é precária”. Sendo assim, o próprio governo contribui para a quebra do ciclo da sustentabilidade.

Dessa forma, conforme relatos do Entrevistado 5, não se trata apenas de garantir uma compra sustentável pelo Poder Público, e garantir a exigência de critérios sustentáveis, mas sim, assegurar o ciclo de vida dos produtos, transformando-o em Ciclo de Vida das Compras Sustentáveis, qual seja, planejar, especificar, adquirir/licitar, receber/atestar e garantir a logística reversa, o descarte ambientalmente adequado dos produtos, com vistas a assegurar o desenvolvimento nacional sustentável. A figura 4 abaixo representa a compreensão do Entrevistado 5 no que se refere ao Ciclo de Vida das CPS:

Figura 4 – Compreensão dos entrevistados acerca do Ciclo de Vida das CPS

Fonte: Elaboração própria com base no relato do Entrevistado 5 (2017).

De um modo geral, os resultados convergiram com aqueles encontrados na literatura pesquisada, demonstrando que os maiores desafios para a implementação das CPS são: dificuldade na especificação do produto ou serviço sustentável, em função da falta de conhecimento e aplicabilidade dos critérios ideais a serem exigidos pelos solicitantes; dificuldade de encontrar no mercado, fornecedores de produtos e serviços sustentáveis; necessidade de capacitação dos servidores; falta de uma cultura ou política interna para a sustentabilidade; alta rotatividade de servidores no setor de compras da unidade; acompanhamento e fiscalização ineficientes; aumento nos custos de produção para produtos sustentáveis; falta de critérios para comprovar o atendimento às exigências sustentáveis; falta

de engajamento das partes envolvidas identificada através da suposta resistência dos solicitantes para descrever uma especificação sustentável; dificuldade de comprovação do atendimento aos critérios sustentáveis; necessidade de conscientização e sensibilização, dentre outros. Na visão dos entrevistados, o maior entrave para a implementação das CPS é a dificuldade na especificação técnica do produto ou serviço sustentável.

Através da pesquisa em tela, ratificou-se que o uso do poder de compra do governo pode fomentar o nicho de mercado de produtos e serviços sustentáveis, incentivando maior qualidade e durabilidade dos produtos, a preços competitivos, com vistas a aumentar o ciclo de vida útil do produto e reduzir o ciclo de consumo, além de assegurar que esses produtos causem menos impacto socioambiental ao planeta e garantir a sobrevivência da geração atual e futura.