Aqui, discriminarei e descreverei as etapas desenvolvidas para a realização da pesquisa. Começarei pelo conceito escolhido para metodologia:
A metodologia é muito mais que técnicas. Ela inclui as concepções teóricas da abordagem, articulando-se com a teoria, com a realidade empírica e com os pensamentos sobre a realidade. (MINAYO, 2009, p.15).
Portanto, a metodologia está ao longo de todo o trabalho e reflete a epistemologia desta pesquisa.
Passando à descrição das etapas, primeiro foi a escrita do projeto e sua apresentação na qualificação, que, aliás, foi um momento de muita reflexão e enriquecedor. A banca, com diferentes encaminhamentos e sugestões ajudou a refletir sobre a pesquisa em si, fortalecendo a importância da temática, o que deu mais estímulo para o caminho que viria a ser construído.
Depois de um tempo refletindo sobre a qualificação, retomei o texto escrito para pensar a escrita do problema de pesquisa. Depois de várias reescritas, o problema de pesquisa foi construído. Como instrumento de coletas foi escolhido realizar entrevistas semi- estruturadas. Então, comecei a pensar em como se daria o trabalho de campo, aqui compreendido como:
Trabalho de campo é, portanto, uma porta de entrada para o novo, sem, contudo, apresentar-nos essa novidade claramente. São as perguntas que fazemos para a realidade, a partir da teoria que apresentamos e dos conceitos transformados em tópicos de pesquisa. (MINAYO, 2009, p.76).
Posso afirmar que o trabalho de campo me possibilitou o encontro com o inesperado, em formas de palavras e reflexões, que serão melhor explicitadas nos capítulos III.
Após a delimitação do problema, aconteceram as escolhas dos sujeitos, onde explicarei com mais detalhes na próxima seção. Em seguida houve a construção das perguntas para as conversas. Elencamos as perguntas base abaixo para ajudar a responder o problema da pesquisa. Estas perguntas foram feitas na ordem que se apresenta:
▪ Como se aproximou da questão racial?
▪ Como você trabalha com a questão racial na sala de aula, as atividades que realiza, enfim?
▪ Como suas atividades, discussões são vistas por seus alunos e por outros professores do curso de Biologia onde leciona?
▪ Percebo que na sociedade brasileira, existe um incômodo em se falar de racismo. Você sente que existe isso no Ensino Superior de Biologia?
▪ A questão racial ocupa um lugar na História da Biologia. Alguns exemplos: a eugenia; o conceito de raça biológica; os discursos biológicos racistas. Por que hoje ela não está na formação de biólogos e professores?
▪ Como pensar o Ensino Superior de Biologia e a desconstrução do racismo? ▪ Como pensar outras possibilidades para os cursos de Biologia?
Vale dizer que estas perguntas não foram feitas de forma idênticas para todos os sujeitos e como a entrevista foi em forma de conversa, onde outros assuntos surgiram, também foram feitas outras perguntas. Para a graduanda e egressa, não foram feitas as perguntas: Como você trabalha com a questão racial na sala de aula, as atividades que realiza, enfim? Como suas atividades, discussões são vistas por seus alunos e por outros professores do curso de Biologia onde leciona? Sendo incluída: Como você é vista pelos colegas do curso e /ou professores?
As conversas me estimularam a construir um caderno de campo. Nele escrevi as observações, os questionamentos, as reflexões de cada conversa, especialmente no mesmo dia de cada uma. Além disso, fui narrando as questões que iam surgindo no decorrer da pesquisa.
A construção desse caderno foi muito importante, pois se constituiu em um espaço para a escrita de reflexões, possibilitando revê-las quando fosse possível.
Todas as conversas foram gravadas e arquivadas. Depois se deu as transcrições das entrevistas. Busquei primeiro ouvir todas as conversas e só depois seguir para as transcrições.
Depois de transcritas, as conversas foram lidas no sentido de identificar as respostas para cada uma das perguntas feitas. Como estamos tratando de lembranças e elas não vêm todas imediatamente a cada pergunta, foi possível, por exemplo, encontrar numa mesma reposta, elementos o suficiente para responder duas perguntas ao mesmo tempo.
1.3 Escolhendo os Sujeitos
Antes de falar quem são os sujeitos da pesquisa, como os escolhi e como me permiti encontrar com eles, é necessário marcar minha posição assumida neste trabalho em fazer
pesquisa na área de Ciências Humanas:
Nas ciências humanas, seu objeto de estudo é o homem, “ser expressivo e falante”. Diante dele, o pesquisador não pode se limitar ao ato contemplativo, pois encontra-se perante um sujeito que tem voz, e não pode apenas contemplá-lo, mas tem de falar com ele, estabelecer um diálogo com ele. Inverte-se, desta maneira, toda a situação, que passa de uma interação sujeito-objeto para uma relação entre sujeitos. [...]. Isso muda tudo em relação à pesquisa, uma vez que investigador e investigado são dois sujeitos em interação. O homem não pode ser apenas objeto de uma explicação, produto de uma só consciência, de um só sujeito, mas deve ser também compreendido, processo esse que supõe duas consciências, dois sujeitos, portanto, diálogo. (FREITAS, 2002, pp. 24-25).
É assim que a pesquisa foi enxergada: uma interação entre sujeitos. Penso que isso não tire o rigor e nem a validade da pesquisa. Percebo assim que sou tão sujeito8 quanto os outros que aceitaram participar/colaborar. Interagir, dialogar talvez sejam as escolhas em fazer
8
Na banca de Qualificação, a profª Lana Fonseca sugeriu-me fazer uma pesquisa autobiográfica. Não decidimos ir totalmente por este caminho, mas também não me excluí do processo, trazendo minhas vivências, histórias e questionamentos.