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O Caso da UFMT

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Para discorrer brevemente sobre a história do curso de Biologia da UFMT, acessei a dissertação de Mestrado de Uliana, também graduada em Ciências Biológicas, pela UFMT. Sua dissertação de mestrado objetivou analisar a formação inicial e as áreas de atuação profissional de egressos do curso de Licenciatura Plena em Ciências Biológicas (período 2004 - 2009) da Universidade Federal de Mato Grosso, buscando estabelecer relações entre ambas. Em 1952 é criada a Faculdade de Filosofia do Mato Grosso, que em 1962 é substituída pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras. É nesta faculdade que se cria o curso Licenciatura em História Natural. Assim como no caso da UFRRJ, o nome inicial do curso da UFMT sugere a ausência da questão racial em sua matriz curricular. Na dissertação não há um dado que possa contribuir para tal suposição.

Em 1974, no campus Cuiabá, é criado o curso de Licenciatura curta em Ciências, deixando de existir o curso de História Natural. E em 1985, o curso passa a ser de Licenciatura Plena em Biologia.

O primeiro currículo da Licenciatura Plena em Ciências Biológicas foi implantado em 1986. E nos anos 2000 e 2004 passou por duas reformulações. No perfil esperado do egresso nos Projetos Políticos Pedagógicos do Curso nos anos 2000 e 2004, ambos utilizados na pesquisa citada, não há menção de algo relacionado à questão racial. Não dá para afirmar que esta questão fosse discutida no curso, mas posso suspeitar que provavelmente professores e biólogos não fossem formados dentro dessa perspectiva.

Não foi possível encontrar trabalhos acadêmicos que fizessem uma discussão histórica de todos os cursos de Ciências Biológicas do Brasil. Utilizei o que consegui encontrar. Mas,

acredito que não há grandes mudanças na constituição histórica dos cursos de Biologia. Hoje, talvez sim, como discutirei mais adiante com as práticas dos docentes entrevistados.

As reflexões construídas neste capítulo me fizeram pensar em algumas questões. Há um modelo de formação nos cursos de Biologia que não permite a inclusão do debate da questão racial? Deve-se construir outro modelo de curso? Como pensar outra formação nos cursos que vá além do aspecto naturalista? Não penso no termo modelo. Faço a opção em pensar em outras possibilidades que podem ser construídas nos cursos de Ciências Biológicas. Um curso não vai deixar de ser Ciências Biológicas porque passará a discutir as questões raciais.

A partir dos dados apresentados, penso que na história dos Cursos de Ciências Biológicas da UFRRJ, UFMT e FFP/UERJ, a questão racial muito provavelmente não constituía as matrizes curriculares dos mesmos. Instituições diferentes, com distintas histórias dos cursos de Ciências Biológicas, mas que, penso que em se tratando da questão racial, apresentavam uma semelhança: uma possível ausência do debate racial.

Um elemento importante presente nesta discussão é a origem dos Cursos de Biologia no Brasil a partir da História Natural, e, portanto, um ensino naturalista. É uma questão essencial para se começar a compreender sobre o silêncio da questão racial nestes cursos. Por mais que ainda possa se encontrar docentes que discutam questões raciais no Ensino Superior de Biologia, e esta pesquisa dá esta visibilidade, este silêncio ainda se faz presente de maneira geral.

Não faz sentido frente ao mito da democracia racial que ainda impera, estarmos formando professores/as de Ciências e Biologia e Biólogos/as numa possível acriticidade. Incluir a discussão racial e os debates decorrentes dela na formação de biólogos e professores é compreender a potência que os cursos possuem em ajudar na formação de sujeitos críticos frente à questão racial e comprometidos na luta contra o racismo.

CAPÍTULO III- E O SILÊNCIO É ROMPIDO...

Quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos. (LARROSA, 2002).

Independente do componente curricular, a escola e os processos educativos deveriam levar a uma reeducação das relações étnico-raciais. E aí é independente mesmo do componente curricular. Então a Biologia tem contribuições como qualquer outra área tem. É muito mais que conteúdo, é uma transformação quase pessoal. (João de Deus)

Que permita desvanecer-nos para criar uma pedagogia outra. Uma pedagogia do acontecimento [...]: uma pedagogia descontínua que provoque o pensamento, que retire do espaço e do tempo todo saber já disponível; que obrigue a recomeçar do zero, que faça da mesmidade um pensamento insuficiente para dizer, sentir, compreender o que acontecer; que emudeça a mesmidade. (SKLIAR, 2003).

Este capítulo compreende toda a discussão e análise a partir da pesquisa de campo realizada junto aos docentes e à graduanda e ex-graduanda. O dividi em oito seções. Na primeira seção está apresentado e discutido como cada um dos sujeitos da pesquisa se aproxima com a questão racial. A segunda seção constitui como os docentes abordam/abordaram a questão racial nas instituições em que lecionam. Na terceira seção apresento como os trabalhos desses docentes são vistos dentro de suas instituições, bem como a estudante e egressa são ou já foram vistas dentro deus cursos.

As próximas três seções possuem o objetivo que compõem o que chamo: “Pensando o trabalho com a questão racial no ensino superior de biologia”. Deste modo, a quarta seção é composta pelo o que os sujeitos disseram sobre haver ou não um incômodo em falar de racismo nos cursos onde lecionam. Na quinta seção discuto a partir das falas dos sujeitos porque a questão racial não compõe a estrutura dos cursos de Ciências Biológicas de forma geral. A sexta seção é formada por aquilo que os/as entrevistados/as colocaram sobre como os cursos podem ajudar na desconstrução do racismo, bem como pensar a existência de outras possibilidades para o Ensino Superior de Biologia.

Finalizo o capítulo, apresentando algumas das contribuições e reflexões da pesquisa, promovendo um diálogo entre o que expressaram os sujeitos e os referenciais teóricos. Assim

sendo, na sétima seção buscarei responder à pergunta: “Como as experiências e narrativas dos docentes podem ajudar na implementação de práticas voltadas para as questões étnico-raciais, e assim para a educação das relações étnico-raciais”? Aqui procurarei dar ênfase às experiências vividas pelos sujeitos das pesquisas e a relação com o que fazem ou fizeram nas instituições onde lecionam. Depois, na oitava seção, refletirei em como estas praticas docentes em quê podem ajudam a repensar o próprio ensino superior de biologia.

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