E esse momento pra mim tá sendo, sabe... de conversa mesmo. Eu quero que as pessoas me ajudem a pensar a pesquisa. A gente tá aqui pra pensar junto (Eu)
A fala acima aconteceu na primeira conversa para pesquisa realizada junto com o professor Lucas Dantas. Mas, com todos os outros sujeitos eu busquei fazer uma fala inicial semelhante, ao mesmo tempo em que explicava as razões da pesquisa e os motivos de ter escolhido cada sujeito.
Essa primeira fala aconteceu no sentido de ser o mais sincera naquela primeira conversa com aquele sujeito até então desconhecido por mim. Sincera comigo e sincera com ele/ela. Não porque a pesquisa pedisse ou tivesse visto isso num livro de Metodologia, mas porque senti que deveria fazê-lo.
Todas as conversas foram gravadas em áudio e transcritas, assim como as observações foram registradas em um diário de campo no mesmo dia das entrevistas. As conversas aconteceram nos seguintes locais: UFRRJ-Seropédica, UFSCAR e Salvador.
Na primeira entrevista, estava nervosa, mas com o decorrer do tempo foi melhorando. Os roteiros que levava para cada conversa, pouco o olhava, pois fui certa do desejo de ouvir aqueles sujeitos.
A entrevista que aconteceu entre eu e os sujeitos foi sendo compreendida como um momento que:
Não se reduz a uma troca de perguntas e respostas previamente preparadas, mas é concebida como uma produção de linguagem, portanto, dialógica. Os sentidos são criados na interlocução e dependem da situação experienciada, dos horizontes espaciais ocupados pelo pesquisador e pelo entrevistado. As enunciações acontecidas dependem da situação concreta em que se realizam, da relação que se estabelece entre os interlocutores, depende de com quem se fala. Na entrevista é o sujeito que se expressa, mas sua voz carrega o tom de outras vozes, refletindo a realidade de seu grupo, gênero, etnia, classe, momento histórico e social. (FREITAS, 2002, p. 29).
Pensando a entrevista como uma dimensão social e como experiência para ambos os sujeitos, eu, como pesquisadora e o/a entrevistado/a, não fui ao campo como apenas uma coletora de respostas. Foi um momento de interações entre eu, a pesquisadora e os sujeitos sociais, ambos levando para tal momento suas histórias e o modo como as narram. Um diálogo entre eu e o professor Lucas Dantas retratou esse momento:
-Lucas Dantas: Você faz uma crítica à Biologia, mas isso é uma crítica ao pesquisador. É outra coisa que a gente tem que romper, que é essa visão da coisa dura, gelada da pesquisa.
-Eu: eu venho aqui... Eu poderia ter vindo aqui ... Eu sou a dona da pesquisa, como isso, isso, sabe? Eu não quis vir assim. Eu não saberia vir desse jeito.
-Lucas Dantas: isso já é uma forma de você ir quebrando a estrutura dura da pesquisa e que também, eu falando paralelamente ao que eu disse antes, que também são as novas gerações, com novas investigações, que nos obrigam a fazer essas coisas diferentes. Há um tempo atrás, também era essa mesma a forma que você teria que vir. Mas, sabe, ao longo, a gente vai quebrando esses paradigmas, que nós herdamos.
As entrevistas realizadas aconteceram numa estrutura de conversa pensada a partir de:
Nunca se sabe aonde uma conversa pode levar... uma conversa não é algo que se faça, mas algo no que se entra... e, ao entrar nela, pode-se ir aonde não havia sido previsto... e essa é a maravilha da conversa... que, nela, pode- se chegar a dizer o que não queria dizer, o que não sabia dizer, o que não podia dizer... (LARROSA, 2003, p. 212).
Com cada sujeito, aconteceu uma conversa diferente. Permiti-me pensar coisas antes não pensadas. Teve momentos que não sabia o que falar. Houve momentos que me foi dito coisas que talvez não se quisesse ou podia dizer. Tratar as entrevistas como conversa não tirou o caráter científico da pesquisa. Ajudou a estabelecer uma importante relação com o outro, o que auxiliou a responder às questões da pesquisa.
-Luiza Mahin: É a primeira vez que eu tenho a oportunidade de pensar a questão racial em forma de palavras, organizar um pensamento.
O ato de uma conversa possui um valor, e foi a partir deste com que aconteceu o encontro com os outros da pesquisa:
O valor de uma conversa não está no fato de que ao final se chegue ou não a um acordo... pelo contrário, uma conversa está cheia de diferenças e a arte da conversa consiste em sustentar a tensão entre as diferenças... mantendo-as e não as dissolvendo... e mantendo também as dúvidas, as perplexidades, as interrogações... e isso é o que a faz interessante... por isso, em uma conversa, não existe nunca a última palavra... por isso uma conversa pode manter as dúvidas até o final, porém cada vez mais precisas, mais elaboradas, mais inteligentes... por isso uma conversa pode manter as diferenças até o final, porém cada vez mais afinadas, mais sensíveis, mais conscientes de si mesmas... por isso uma conversa não termina, simplesmente se interrompe... e muda pra outra coisa. (LARROSA, 2003, pp. 212-213).
Fui percebendo que com todas nossas diferenças de pensamentos, e em alguns momentos de similitudes, a conversa foi instaurada, pois me vi como mais uma parte daquele acontecimento de refletir sobre a pesquisa. Senti que se formou uma rede com esses outros sujeitos, que escolheram pensar uma outra Biologia. Por isso, digo a Zeferina, Lucas Dantas, João de Deus, Luiza Mahin, Maisha, e Tamasha... nossas conversas não foram finalizadas.
Toda essa relação com o outro da entrevista foi- me estimulada:
Porque sem o outro não seríamos nada (e não confundir esta frase com aquela outra que se pronuncia habitualmente nos enterros); porque a mesmidade não seria mais do que um egoísmo apenas travestido. Porque se o outro não estivesse aí, só ficaria a vacuidade e a opacidade de nós mesmos, a nossa pura miséria, a própria selvageria que nem ao menos é exótica. Porque o outro já não está aí, senão aqui em todas as partes; inclusive onde nossa pétrea mesmidade não alcança ver. ( SKLIAR, 2003, p. 29).
Existe uma mesmidade na pesquisa, que é feita pela gente, que não nos autoriza ver mais do que se quer ou que se permite ver? Os outros da pesquisa tiraram a vacuidade e opacidade de mim e posso dizer que me permitiram ver outras coisas, pensar outras coisas da pesquisa, outros sentidos para viver melhor.
1.5 O Autorizar-se
Finalizando esse capítulo metodológico, venho assumir algo que considero importante nessa produção de conhecimento, que é o processo de me autorizar:
Processo de autorização requer o outro que narra, sabendo-se que se autorizar deriva do latim auctor, aquele que acrescenta, que funda. Assim, a autorização vai se instituir no exercício do senso crítico, da não subserviência. Vai requerer uma relação formativa crítica, intercrítica, porquanto a capacidade de criticidade não é propriedade privada de ninguém. (MACEDO, 2009, pp.112-113).
A questão de me autorizar é dar o sentido que só eu posso dar a essa pesquisa. Não porque ela pertence a mim, mas porque ela tem a ver com minhas histórias, que também não são somente minhas. Mas a maneira como escrevo aqui, articulo-as, isso sim, é meu. Isso faz com que outra pesquisadora possa dar outro sentido a essa mesma pesquisa, produzir outros conhecimentos. Os conhecimentos e sentidos que aqui foram produzidos caminharam no sentido da maior criticidade possível, uma escolha para quem deseja ser autora de sua própria fala e escrita.