Para discorrer sobre o caso da UFRRJ foi feita uma leitura de uma tese de doutorado, onde a autora Tavares, 2011, graduada em Ciências Biológicas pela UFRRJ, fez uma análise dos aspectos sócio-históricos da formação docente e como estes influenciaram a constituição do curso de Ciências Biológicas da UFRRJ em diferentes momentos da história do curso.
A história do curso de Ciências Biológicas nessa instituição inicia-se em 1968, com a criação do curso de Licenciatura em História Natural. O que a autora afirma sobre a matriz curricular deste curso:
O primeiro desenho curricular da UFRRJ foi montado com base em outras universidades. Todavia, a tradição agrícola permaneceu como um forte traço nos currículos dos cursos desta universidade e também como resistência dos projetos em disputa dos grupos tradicionais – representados pelos veterinários e agrônomos. (TAVARES, 2011, p.110).
A autora afirma que o modelo de formação que se constituiu na UFRRJ foi inspirado em universidades de tradição agrárias norte-americanas e em universidades brasileiras como a USP e a Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ. Esses dados me fazem construir uma suspeita. Visto essa forte tendência agrária, com professores veterinários ou agrônomos, que provavelmente não haveria espaço para discussão de outros temas que fugissem a esse naturalismo, como a questão racial.
A seriedade nesta questão está em refletir na constituição de um curso no Brasil pouco voltado para discussões sociais e sim para a formação de naturalistas. Posso dizer que em minha graduação também tive um pouco dessa formação naturalista. A questão não é condenar uma formação naturalista, mas pensar de que forma esse modelo pode ou não possibilitar a inclusão de outras temáticas importantes para a nossa formação, seja de professores/as de Ciências e Biologia ou Biólogos/as.
Fui possibilitada pela pesquisa em conversar com um docente, o profº Lucas Dantas, que se formou em Ciências Biológicas nesta instituição. Ele me diz como em sua formação não foi abordado assuntos que envolvessem a questão racial:
-Aqui tanto na minha formação de graduação nunca foi tocado esse assunto. Então não tive formação pra isso.
-Eu fui ler pela primeira vez Espetáculo das Raças15 no Doutorado, entende.
Em nenhum momento perguntei ao professor se ele tinha visto esse assunto em sua formação, como tal pergunta não foi feita pra nenhum dos restantes docentes. Um outro docente que também se sentiu à vontade pra relatar experiência semelhante foi o profº João de Deus:
-E eu vim pra universidade quando a gente tinha 19 pra quase pra 20 anos. E aí eu nunca mais discuti essas questões no curso de graduação. Na verdade, eu acho que o curso me afastou totalmente da reflexão mais sistemática, política.
Como João de Deus, antes de entrar para o curso de Ciências Biológicas, já era envolvido com a discussão, ele comenta que o curso o afastou de tal. Sobre isso cabe uma questão: o modo como os cursos de Biologia se constituíram historicamente, desde a História Natural, não os torna próximos de discussões que abarquem o social também, como a questão racial.
Outro fato que fortaleceu essa formação naturalista na UFRRJ é a endogenia. Segundo as entrevistas realizadas na pesquisa de Tavares, havia a indicação de professores formandos na própria Rural para atuarem como docentes do curso de História Natural. Isso ocorreu devido à dificuldade de contratação de biólogos externos. O que me faz compreender que esses professores formados ao passarem a ser docentes da UFRRJ muito provavelmente também não faziam discussões que tratassem de racismo. Então o que se tem até esse momento, a meu ver, é a manutenção de uma matriz curricular, provavelmente descolada das questões sociais.
15
O professor se refere ao livro: SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1879-1930. Publicado pela primeira vez em 1993 e encontra-se atualmente na 12ª edição.
Com a passagem dos anos e com o surgimento das Licenciaturas Curtas, em 1975 o curso de História Natural passa a ser Licenciatura em Ciências (habilitações em Biologia, Matemática, Química e Física).
De acordo com a autora, algumas características do curso de História Natural ainda permanecem:
Acreditamos que a Licenciatura em Ciências traz mudanças em relação ao curso de Licenciatura em História Natural, todavia não são mudanças relativas à sua tradição agrária e naturalista que sustentam em seu bojo. O curso muda de nome, é reformulado no processo de interferência direta do MEC, mas sua matriz curricular apresenta muitas semelhanças ao curso anterior. Não só a matriz curricular, mas os ideais apresentados no currículo praticado provindo do caráter endógeno desta universidade, qual seja o de abrigar seus antigos alunos (TAVARES, 2011, p.125).
A tradição agrária e a endogenia ainda permanecem como eixos dos cursos, o que fortalece a ideia que a questão racial não era uma questão eleita para constituir a matriz curricular desse novo curso.
Em 1986, o curso muda para graduação em Ciências Biológicas, com as modalidades licenciatura e bacharelado. Ao entrevistar um professor durante a pesquisa, Tavares nos diz sobre a grade a curricular:
Segundo o relato do entrevistado F, a grade curricular da Graduação em Ciências Biológicas foi sendo montada a partir de outras grades curriculares e também do desejo que se tinha em ampliar alguns debates na formação, como os debates em torno da Ecologia, por exemplo. Em suas palavras: A gente pegava as grades e... o que nós temos que não é a mesma coisa, mas é similar? O que a gente pode substituir aqui e aqui? Então, a gente foi fazendo a grade aqui... quer dizer com a visão da Rural... Com o perfil que a Rural tinha, mas aquela coisa... a disciplina era da Agronomia ou da Veterinária muitas delas. (TAVARES, 2011, pp. 127-128).
De acordo com a autora, as universidades a que este entrevistado se refere eram: UNICAMP, USP, UFMG, UFRGS. Estes dados me fazem pensar em como diferentes cursos de Ciências Biológicas do Brasil praticamente se unificaram em torno de um modelo. Será que há um modelo do que pode ou não ser discutido nos cursos de Ciências Biológicas? A fala do professor entrevistado reafirma mais uma vez a permanência da tradição agrária na UFRRJ e, portanto me faz suspeitar ainda mais da ausência da questão racial na formação de professores/as e biólogos/as nesta instituição.