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Outras formas de morar

No documento Grupo de Pesquisa (páginas 54-61)

1. Desejo: teoria e ação

1.2. Habitar coletivo

1.2.2. Outras formas de morar

O desejo de estar junto e de viver junto não é uma novidade. Desde a antiguidade há exemplos de grupos de pessoas que se reuniam em comunidades a fim de colaborar entre si e ter uma vida melhor. A vida baseada na convivência possibilita maior segurança, práticas de ritos religiosos, facilidades econômicas e inclusive maiores liberdades sexuais (REVISTA... 2019, p. 153).

A ideia de morar está ligada a uma noção de propriedade que se altera durante toda a história da humanidade. Henri Lefebvre (2008, p. 36) aponta em Direito à Cidade

que a cidade arcaica (romana ou grega), de onde nasce a sociedade ocidental, possibilitava um desenvolvimento com base em uma propriedade comunitária do solo. Assim, naquela sociedade, existia uma propriedade comunal operada pelos cidadãos ativos que possuíam poder sobre outros membros da cidade: mulheres, crianças, escravos e estrangeiros. Mais tarde na Idade Média na Europa Ocidental, há um renascimento das cidades, quando ocorre a organização feudal com base na propriedade e posse do solo e em uma estrutura social hierarquizada. Com a organização das corporações, dos crescentes acúmulos de capital dos artesãos e o surgimento da burguesia, a propriedade foi assumindo uma noção cada vez mais privada, o que tem orientado o desenvolvimento da sociedade e favorecido o acúmulo de capital e, por consequência, o acúmulo de terra.

Tais desdobramentos políticos e econômicos impactam a questão da moradia, pois a noção de propriedade concorre com o direito à cidade. Os acúmulos de capital e de terra geram injustiças sociais que contribuem para o déficit habitacional e outras desigualdades.

9 Cf. REVISTA PLOT. Mundo compartilhados. Buenos Aires, Piedra, Papel & Tijera, n. 50. set./out. 2019.

Em vista deste cenário, redes de pessoas organizadas com base na solidariedade se organizam para lutar pelo direito à moradia e pela reforma agrária enquanto contestam o sistema político e econômico. Paralelo a isso, são buscadas modalidades alternativas de organização social. Tratam-se de tentativas baseadas em utopias ligadas a transformações sociais que visam desenvolver novas formas de comunidade. Estas transformações apontam para arranjos sociais mais justos e com um caráter mais comunitário.

Atualmente, discute-se muito sobre habitação e modelos tradicionais de moradia. Neste âmbito, estão sendo propostas novas modalidades de morar, que muitas vezes se distanciam dos modelos de unidades habitacionais padronizadas pelo mercado, que são pensadas em convenções familiares. Tais modalidades incluem pessoas que não possuem graus de parentesco que decidem morar juntas, algumas vezes devido a necessidades financeiras, mas também por escolha em alguns casos. Isso é o que entendemos por coabitação.

O mercado capitalista percebeu nesta tendência uma oportunidade de lucro e vem oferecendo modelos de coabitação como uma alternativa sedutora principalmente às pessoas das gerações mais jovens, solteiros e casais sem filhos. Assim, começam a ser construídos na cidade uma série de edifícios com microapartamentos, de ambientes extremamente reduzidos, porém servidos de atrativas áreas de uso compartilhado. Outra modalidade é uma espécie de co-housing corporativo, que indica habitações compartilhadas geridas por empresas. Entretanto, existem outras formas de coabitação que fogem desses modelos relacionados às lógicas de mercado.

No Brasil, no bojo das formas de coabitação que estão fora da ótica mercadológica, existem maneiras bastante antigas e já consolidadas, como as residências estudantis (conhecidas mais comumente como repúblicas), as ocupações de sem-teto, os cortiços, entre outras. Essas modalidades de morar geralmente são autogeridas e se apoiam em relações de confiança e coletivismos que se sobrepõem a questão da propriedade privada.

Em São Paulo, a Ocupação 9 de julho é um exemplo bem-sucedido de residência multifamiliar que é conhecida e estudada internacionalmente devido sua gestão

eficiente e sua luta por moradia. Organizada pelo Movimento Sem Teto do Centro10

(MSTC), a Ocupação 9 de julho é gerida pelos moradores que colaboram na organização do espaço. Existe um compromisso de todas as partes que possibilita uma convivência harmoniosa que democratiza a moradia em tempos carentes de políticas públicas habitacionais. Stevens, De Meulder e Somekh (2019) apontam que as ocupações por movimentos sociais se tratam de “[...] uma forma de urbanismo emergente. Uma forma solidária, cooperativa e conscientizadora, que se propõe a construir cidadania e reduzir desigualdades. ”

Os movimentos sociais urbanos como o MSTC atuam na ocupação de edifícios anteriormente desocupados e agem coletivamente com grande participação popular através dos mutirões, uma forma de trabalho por meio da ajuda mútua. Os mutirões dedicam-se a atividades como limpeza, reparação, melhorias e embelezamento do edifício. Esse hábito conscientiza os moradores e os estimula a exercerem uma vida comunitária baseada na solidariedade e na participação. (STEVENS; DE MEULDER; SOMEKH, 2019).

Neste e em outros casos similares, o resgate das modalidades compartilhadas de morar não ocorre unicamente por necessidade, como geralmente acontece em cortiços e em ocupações, mas também por escolha. Os residentes que optam por estes espaços muitas vezes são pessoas que não se incomodam em compartilhar espaços e privilegiam a flexibilidade e hábitos citadinos em detrimento a estabilidade da casa própria. Geralmente, para adquirir uma casa própria as pessoas são submetidas a escolher imóveis em regiões mais baratas, que na maior parte das vezes são em áreas mais afastadas do centro, nas periferias.

O tipo de moradia em coabitação incentiva a empatia e o apoio mútuo entre moradores. É uma rede solidária em que são socializadas tarefas do dia a dia, como cozinhar, limpar e cuidar de crianças e idosos, por exemplo. Tais solidariedades estabelecem uma relação de comunidade entre os moradores, através do estreitamento dos laços.

Estas possibilidades de moradia se aproximam dos antigos condensadores sociais construídos na URSS logo após a Revolução Russa de 1917, como o Edifício Habitacional Narkomfin em Moscou. Para incitar a coletivização do modo de vida, o edifício Narkomfin apresentava espaços que buscavam reestruturar a vida diária: cozinha e sala de jantar coletivas, lavanderia, serviço de limpeza, creche, ginásio esportivo, bibliotecas, espaços reservados para estudos e etc. (KOPP, 1990, p. 99). Muitos destes ambientes são encontrados em edifícios de coabitação contemporâneos.

O morar coletivo influi diretamente na vida das pessoas e pode trazer cooperação para enfrentar os problemas comuns a todas as famílias. Este coletivismo está em consonância com questões contemporâneas, como a formação de diferentes arranjos familiares, a flexibilização do trabalho, o aumento da densidade demográfica, o crescimento da imigração, entre outros. Os espaços se modificam, ao passo que a sociedade se modifica e, assim, buscam atendê-la da melhor maneira possível acompanhando as transformações nas dinâmicas sociais contemporâneas.

Existem exemplos internacionais que também se distanciam da lógica mercadológica de moradia, como é o caso da La Borda (2018) em Barcelona e do Complexo R50 (2013) em Berlim. Ambos são formas de habitação coletiva que apresentam espaços compartilhados como lavanderias, cozinhas, academias e espaços de convivência e que permitem às pessoas que vivam a cidade.

La Borda trata-se de uma cooperativa habitacional construída em Barcelona, na Espanha, por iniciativa de um grupo de moradores. O projeto teve início em 2012, quando foi organizado e articulado para enfrentar a questão do acesso à moradia. Juntamente com a cooperativa La Borda estava em processo a recuperação do complexo industrial Can Battló, localizado no bairro de Sants. (REVISTA... 2019, p. 24).

O escritório Lacol Arquitectura Cooperativa11 se envolveu no desenvolvimento do projeto e viabilizou, com a participação dos usuários, a construção de um modelo alternativo de habitação como resposta à crise habitacional que o país enfrentava.

11 A cooperativa de arquitetos Lacol atua no distrito de Sants de Barcelona que visa a transformação social por meio de sua intervenção no espaço. Seu sistema horizontal de trabalho baseia-se na

A proposta do modelo comunitário de construção de moradia digna da La Borda difere dos modelos padronizados de habitação produzidos pelo poder público e pelo mercado imobiliário, vista como objeto de consumo e de especulação.

Como trata-se de um projeto participativo, os membros da cooperativa e futuros moradores participaram de todo processo de concepção juntamente com os arquitetos do Lacol e com o apoio de profissionais técnicos nas especificidades do desenvolvimento do projeto. Foi necessário um conhecimento profundo sobre o perfil dos futuros habitantes, bem como suas principais características e necessidades. O terreno é público, sendo assim, o direito de uso das unidades é transferido aos membros da cooperativa, que é a proprietária do edifício e responsável por sua gestão.

A cooperativa La Borda busca promover a vida comunitária por meio dos seus espaços comunais, que somam um quarto da área construída de todo o edifício, dando uma alternativa ao hábito de viver exclusivamente em espaços privativos. Entre estes espaços, destaca-se a cozinha, com 80m², que além de possibilitar o preparo e o consumo de refeições em grupo, é o coração do edifício e a principal área de encontro e convívio social. Ainda há espaço multiuso, áreas para visitantes, lavanderia, bicicletários e terraços, estes espaços se articulam em volta de um grande pátio central.

Os espaços comunitários possibilitam o encontro e estimulam uma relação mais estreita entre os moradores, enquanto geram espacialidades intermediárias entre as 28 unidades habitacionais privativas e o espaço público da cidade, além de proporcionarem uma economia ao facilitar o compartilhamento de equipamentos domésticos entre os moradores. Esta modalidade é um rompimento da ideia do edifício multifamiliar convencional, pois a cooperativa La Borda não é ocupada por uma série de núcleos familiares distintos, mas por uma comunidade.

participação ativa das pessoas que ocuparão os espaços a serem projetados. O escritório se insere em debates e discussões sobre o uso público dos espaços, sua gestão, bem como modelos participativos de habitações e cidades. Por isso, a difusão e implantação de modelos alternativos de morar, como as cooperativas habitacionais é uma importante frente de trabalho do escritório.

Figura 6: Edifício da Coopertavia Habitacional La Borda. Fachada com terraços compartilhados. Foto: Lacol e Lluc Miralles.

Figura 7: Planta do edifício da Coopertiva Habitacional La Borda. O edifício apresenta diferentes tipologias de diferentes áreas e uma série de espaços comunitários articulados em um grande vazio central que facilita a interação entre os moradores. Fonte: Lacol.

Estes exemplos de modos comunitários de morar como o antigo condensador social soviético, a Cooperativa Habitacional La Borda ea Ocupação 9 de julho, demonstram a possibilidade de habitar de maneira mais coletiva, exercendo a solidariedade e socializando práticas do cotidiano. Assim é possível repartir tarefas e desfrutar mais o tempo e a cidade.

Enquanto isso, os condensadores sociais contemporâneos, como o Centro Cultural São Paulo, apesar de não apresentarem um programa voltado à moradia, possibilitam dinâmicas que incitam um espírito comunitário através da sua gestão e de suas organizações espaciais. Assim, estas arquiteturas ecoam como um respiro acessível para um maior número de pessoas, capaz de quebrar a monotonia e as lógicas sistemáticas da sociedade capitalista das cidades contemporâneas, promovendo o

No documento Grupo de Pesquisa (páginas 54-61)